Dois Papas – Na medida

 

 

“Dois Papas” está disponível na Netflix e em cartaz. É um filme que merece sua atenção, especialmente em tempos como os nossos, de inchamento religioso por conta do achatamento de pessoas pelo sistema. É um dado histórico o aumento de intensidade das crenças religiosas em tempos opressores, basta dar uma olhada no tanto de cultos evangélicos que se multiplicaram no século 19, quando o trabalhador ainda não tinha normas e regulamentações do emprego de sua força pelo patrão capitalista. Sendo assim, enquanto vemos absurdos no cotidiano, perdemos todos os direitos e salvaguardas do estado, só resta o bom e velho Deus para nos segurar. E “Dois Papas” é um filme sobre seres humanos tentando falar com Ele.

 

A história é baseada em fatos reais e mostra a crise que o papado de Bento XVI atravessou em 2012 por conta de denúncias sobre tolerância excessiva em relação a casos de abuso sexual praticados por padres e bispos em posições importantes da Igreja Católica. O roteiro – escrito por Anthony McCarten – inicia a narrativa justo no momento da escolha de Joseph Ratzinger para liderar os católicos após a morte de João Paulo II. Mostra como ele derrotou um pequeno movimento por mudanças dentro da Igreja, no qual o cardeal argentino Jorge Bergoglio era um dos destaques e como a opção por um papa conservador definiu os rumos que a instituição tomaria nos próximos anos. A vida seguiu, vieram os escândalos e Bento XVI resolve renunciar ao papado, num ato inesperado. Antes, porém, ele enxerga que a mudança proposta anos antes, pelo candidato que ele mesmo derrotou, parece ser a solução para a crise. E chama Bergoglio para passar um dia na residência de Castel Gandolfo, num clima de “entrevista de emprego”.

 

A direção de Fernando Meirelles tem um enorme mérito em “Dois Papas”: mostrar, em sintonia com o roteiro, a humanidade de Bento e do futuro Francisco. São closes, sequências, planos, tudo feito para mostrar que, no fim das contas, são dois homens idosos, arrependidos e improvisados, que estão ali, decidindo o futuro de uma instituição que serve a mais de um bilhão de fiéis ao redor do mundo. A narrativa tem um objetivo claro de mostrar Bento como a Igreja tradicional e Francisco como a tal “onda de mudança” que insiste em bater na beira da praia. O choque de opiniões e visão de mundo é provocado para mostrar a diferença entre os dois homens, ainda que estejam a serviço do mesmo Deus e dos mesmos propósitos. Se Bento é um tradicionalista ferrenho, parecendo alheio ao fato de estarmos no século 21, Francisco – ainda Jorge Bergoglio – é uma pessoa que aprendeu com uma vida cheia de escolhas difíceis.

 

O filme é muito mais sobre Francisco. Sua vida anterior à Igreja, os motivos que o levaram a assumir o sacerdócio, sua participação na ditadura argentina, sua redenção num auto-exílio, sua transformação em combatente contra a desigualdade, tudo está lá. Os fatos vão passando pela tela e a direção de Meirelles mostra com carinho e beleza esss momentos e reafirmando – sem canonizar – a resistência de Bergoglio/Francisco ao que a vida lhe impôs. A trilha de Bryce Dessner, do grupo The National, fornece uma atmosfera inquietante, parecendo fora de lugar em alguns momentos, mas fazendo sentido constantemente.

 

Qualquer opinião sobre “Dois Papas” estará incompleta se deixar de mencionar a atuação de Anthony Hopkins (Bento XVI) e Jonathan Pryce (Bergoglio/Francisco). O trabalho de direção é magistral e os dois atores, cada um a seu jeito, sem resvalar para os clichês, dão show. Hopkins é um monstro, faz de seu Bento um ser frágil, teimoso, triste e carcomido pelo tempo. Pryce é a grande, enorme surpresa. Ator secundário, famoso por viver alguns vilões – ele é o terrorista irlandês em “Ronin”, por exemplo – ele dá um banho como Francisco. Falando espanhol, italiano e inglês ao longo de todo o filme, exala verdade e compaixão. Chegou a lembrar o Frei Heliodoro, dos meus tempos de jogar bola no recreio do CSA.

 

“Dois Papas” é um exemplo involuntário de dois homens falando sobre a importância da religião e das pessoas que a seguem e a fazem. Se o papado de Francisco é histórico por conta das mudanças que ele propôs e pelas declarações que dá diariamente, o filme nos lembra que este avanço vive risco constante. Uma bela reflexão sob a forma de lindas imagens e talento por toda parte.

 

 

The Two Popes

Itália, Argentina, Inglaterra, Estados Unidos, 2019

De: Fernando Meirelles

Com: Anthony Hopkins e Jonathan Pryce

2+

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *