O Diorama do Silverchair

 

 

“Diorama” é dessas palavras difíceis de definir: pode ser o equivalente a “maquete” ou “miniatura”, mas também pode ser entendido como um panorama, um quadro que muda a perspectiva de acordo com incidências distintas de luz. Este também é o nome do quarto álbum do trio australiano Silverchair. Lembra? Surgiu no meio da década de 1990 como uma versão grunge do Hanson – as duas eram quase contemporâneas – e, com a liderança do vocalista e guitarrista Daniel Johns, estourou nas paradas com o primeiro disco, “Frogstomp”, conhecido como “o disco do sapo”. A anuência da MTV foi decisiva, mostrando vários clipes do álbum e gerando uma base de fãs muito dedicados. Com outros dois álbuns lançados na esteira do sucesso – “Freakshow” e “Neon Ballroom” – o Silverchair fez um dos shows mais interessantes do Rock In Rio III, roubando a cena do Red Hot Chili Peppers, que fechava a data.

 

Pouco tempo depois, mais precisamente em 31 de março de 2002, o Silverchair deu um bico nisso tudo. Deixou os fãs pós-grunge de lado, se isolou de formações como Creed e Nickelback, que ainda dissecavam o cadáver musical das flanelas de Seattle e vieram com um quarto trabalho surpreendente: “Diorama”. Na época muita gente estranhou a presença de um gigante do pop orquestral sessentista à bordo da empreitada, Van Dyke Parks, famoso por colaborar com os Beach Boys em vários momentos. Também muito se falou sobre uma doença degenerativa que acometia Daniel durante as gravações do álbum, além das protocolares notícias sobre troca de produtores, recusa em gravar material já composto e demais tretas típicas da produção de um disco. O fato é que o álbum foi antecipado por um single: “The Greatest View”, lançado em janeiro de 2002. A canção dissipou a maioria dos boatos, uma vez que ainda trazia muito da verve pós-grunge da banda. Tudo bem, era menos abrasiva e exibia um refrão muito mais melódico e elaborado, mas nada demais.

 

Quando o álbum saiu e as pessoas ouviram a primeira faixa, “Across The Night”, puderam constatar que a coisa havia mudado e muito. A canção é belíssima, com as tais orquestrações de Parks e um arranjo vocal que lembrava muito as melhores homenagens aos Beach Boys. A melodia e a harmonia mostravam uma outra banda, algo que chegava a ser adoravelmente assustador, configurando uma das mais rápidas evoluções técnicas e artísticas vivenciada por um grupo pop. Mas logo ficou evidente que “Diorama” não era um trabalho completamente coerente e uniforme. Ele parecia mostrar um palco no qual vários Silverchair se enfrentavam em busca de maior atenção e espaço. Com “Without You”, o segundo single – que lembra o Goo Goo Dolls noventista, ficou evidente que, ao menos uma coisa estava garantida: o fluxo de boas canções. Embebidas em arranjos sinfônicos ou soterradas por guitarras, as composições de Johns eram muito consistentes.

 

E outro Silverchair surge ao longo do álbum para disputar a primazia: o capaz de construir baladas como “World Upon Your Shoulders”, que traziam um arranjo belo, mas não vinculado à presença de Parks. É um outro terreno de rock, mais clássico, mais próximo de alguma coisa oitentista e lírica, não totalmente identificada. Se pensarmos na alternância de arranjos e concepções, nenhuma é mais gritante que a passagem de “One Way Mule” – a faixa mais próxima do que a banda fez nos álbuns anteriores – para “Tuna In The Brine”, essa sim, orquestrada por Parks, cheia de timbres e detalhes que a configuram como uma cruza de Brian Wilson com Alice In Chains.

 

“Diorama” revela a luta entre velho e novo. “Too Much Of Not Enough” e “Luv Your Life”, baladas com e sem Parks, respectivamente, formam contra o peso em câmera lenta de “The Lever”, mas o time das baladas acaba marcando mais um tento, quase no fim do álbum, com “My Favourite Thing”, que abre espaço para o opus final, “After All These Years”, que surgiu como um single que não estava presente nas prensagens iniciais do álbum, mas que foi adicionado à versão editada nos Estados Unidos. É música “piano-driven”, com lirismo e profundidade além do esperado. Aliás, ha um belo final falso e easter egg protocolar.

 

Foi “Diorama” que marcou a decadência do Silverchair. Na verdade, não foi o álbum, mas o estado de saúde de Johns, que agravou-se por conta de uma artrite crônica, que lhe causava dores imensas para tocar e cantar. O disco seguinte, “Young Modern”, de 2007, confirma que o grupo foi para outro lado, muito além do pós-grunge, abraçando influências do pop pianístico setentista com muita propriedade, mas este foi um trabalho poucos e raros ouviram. Desde então, a banda silenciou.

 

Com quase 20 anos de idade, “Diorama” segue como um desses momentos do rock em que um artista ousa se reinventar. Neste caso específico, a reinvenção ainda era um processo em andamento, mas o ouvinte teve acesso a tudo o que ia pela mente de Daniel Johns. Se custou a popularidade da banda, deu a ela um lugar nas primeiras divisões de bandas dos anos 1990 que se recusaram a sucumbir à mesmice. E fizeram isso lindamente.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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