Flaming Lips Sinfônico

 

 

Rapaz, “The Soft Bulletin” está fazendo 20 anos. Na minha mente turva, parece que foi ontem que o álbum surgiu como um dos mais interessantes representantes de uma psicodelia ressurgida. Muita gente olha pros anos 1990 e vê como uma década do grunge e do britpop, mas, se cavucar um pouco além do óbvio, verá muitas outras nuances e movimentos decisivos. Por exemplo, foi no fim dos 1990’s que Flaming Lips e Mercury Rev, duas bandas alternativas e americanas até a medula, deram uma guinada em seus espectros sonoros e incorporaram elementos progressivos e psicodélicos em discos como “Deserter’s Song”, que o Rev lançou em 1997. Os Lips vieram com “The Soft Bulletin”, em 1999. E, entre eles, em 1998, o Radiohead lançou “OK Computer”. Era, sim, um olhar para grandes e conceituais sonoridades da virada dos anos 1960/70.

 

Se o Mercury Rev está relançando seus discos em versões duplas e cheias de bonus tracks e versões ao vivo (além do “Deserter’s Songs”, que foi relançado ano passado, a banda solta o ótimo “All Is Dream”, de 2000, roupagem de luxo amanhã), o Flaming Lips resolveu fazer diferente com seu disco. Ao invés de lançar um pacotão de sobras de estúdio, Wayne Coyne e seus amigos resolveram soltar em disco e vídeo um show que fizeram em 2016, quando tocaram a totalidade de canções de “The Soft Bulletin”, acompanhados por um coral de 57 vozes e uma orquestra de 68 músicos, regidos pelo maestro alemão Andre de Ridder, com formação em Viena e Londres, com trabalhos em vários gêneros de música orquestrada, colaborando com Max Richter e Damon Albarn. Ou seja, é um cara capaz de captar as nuances enlouquecidas dos Flaming Lips e fornecer o acompanhamento sonoro e sinfônico necessário.

 

Com a banda em ótima forma e de Ridder à frente da Colorado Symphony Orchestra, “The Soft Bulletin” parece um quadro renascentista que ganhou uma nova camada de significado. Se o disco soava fora de época em 1999, hoje ele parece uma espécie de Novo Testamento, um pioneiro que abriu caminho dentro da selva na base da facada. Canções como “Waiting On A Superman” até que ficaram famosinhas entre os alternativos mais antenados, mas era o tempo de Strokes/White Stripes, quando o rock parece fadado a um downsizing neoliberal e injusto.

 

Coyne e sua turma disseram “não”. E deram continuidade à saga iniciada em “Bulletin”, lançando o ainda mais psicodélico “Yoshimi Battles The Pink Robots”, em 2002, e o ótimo – e subavaliado – “At War With The Mystics”, em 2006. Desde que iniciou nesta seara mais colorida e grandiosa, a banda concebeu vários álbuns interessantes e exploratórios, procurando formatar esse uso da psicodelia na música feita hoje. A ideia sempre foi não recorrer a formatos já usados no passado. Deu certo e gerou discípulos talentosos como Tame Impala, MGMT e Animal Collective, só para ficarmos nos mais conhecidos.

 

A partir de amanhã a versão sinfônica de “The Soft Bulletin” estará disponível em streaming, sendo também lançada em formato físico pela Warner. Só resta saber se chegará às nossas quase inexistentes prateleiras em tempos de dólar a cinco reais. Seria uma boa sugestão de presente de Natal se ainda estivéssemos nestes tempos.

Veja o clipe com “What Is The Light” e sinta o que vem por aí.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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