Nirvana contra o burrismo

 

“Alguém aí sabe se o Nirvana tem algum show agendado para o Brasil em breve?”

 

Esta pergunta, que poderia ser uma brincadeira de gosto pra lá de duvidoso, foi feita com seriedade por um novo fã da banda. Ele se chama Joel Pinheiro. Economista e filósofo, Joel é um desses “novos liberais” que pipocaram nos últimos anos como figura-chave para disseminação do ideário conservador nas mentes mais gelatinosas do público. Especialmente do público mais jovem.

 

Com passagem pelo abominável Instituto Mises e pela mídia paulistana, Joel é, pasme, colunista da Folha de São Paulo e escreve sobre a belezura de ser liberal num mundo ultra-desigual. O termo engana: liberal é, aqui nos países “em desenvolvimento recém-rebaixados”, ser a favor a completa ausência do estado nas políticas … públicas. É a abertura total ao mercado, entregar nas mãos da iniciativa privada, por exemplo, o ensino, a saúde, a habitação, coisas que são essenciais para o fim da desigualdade e que são dever constitucional do estado.

 

Pois bem, para vocês terem uma ideia, Joel gerou polêmica há menos de um mês, quando surgiu nas redes sociais “sugerindo” que seria mais fácil para os mais pobres que eles pudessem “vender” órgãos. Era uma reflexão “lógica” sobre os problemas da saúde, nas palavras do próprio, baseada na defesa do fato de que, caso os mais pobres pudessem vender seus órgãos, e não doá-los, a fila de espera dos transplantes diminuiria e os mais necessitados – seja de órgão, seja de dinheiro – sairiam ganhando.

 

É uma visão típica do economista e do liberal, analisar o problema de forma desconectada da sociedade. Claro que esta proposta foi devidamente rechaçada por médicos e até por colegas conservadores do próprio Joel que, creio eu, não aprovaria que um parente ou ente querido seu lançasse mão de tal expediente “empreendedor”.

 

Voltando ao Nirvana.

 

O sujeito disse anteontem, dia 10 de fevereiro, via Twitter que “está gostando de Nirvana aos 34 anos”. Foi zoado de forma leve por alguns internautas, mas cometeu o erro de perguntar sobre um show do Nirvana no Brasil nos próximos meses. As zoações aumentaram. Fico me perguntando que pessoa, em que época, é capaz de se aproximar do Nirvana sem saber da morte de seu líder, Kurt Cobain. Claro, talvez só alguém que defenda a venda de órgãos como empreendedorismo, mas a situação é bem pior.

 

É por conta de gente assim, com poder de influenciar pessoas, dado pela mídia ou pela Internet, que o burrismo avança. São declarações dadas sem noção, perpetuadas como brincadeira, que fazem efeito nas mentes mais frágeis da sociedade. Por mais estapafúrdio que seja, desconhecer a história do Nirvana é algo possível e provável num mundo fragmentado. E Joel, com 34 anos, é, mesmo com diplomas universitários e “poder de fala”, uma expressão disso.

 

Vejam que nem estou comentando o absurdo que é um liberal paulista de 34 anos, a favor da venda de órgãos, se identificar com canções como “Rape Me”, por exemplo.

 

Kurt Cobain cuspiria nisso tudo.

 

PS: por burrismo entendemos o momento atual da sociedade brasileira – e mundial – no qual a burrice não é tratada como algo ruim, pelo contrário, é tolerada e, muitas vezes, incensada, como traço principal de alguém. Exemplo: o atual governo brasileiro.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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