Isobel Campbell – There Is No Other…

 

 

Gênero: Rock alternativo, folk alternativo
Duração: 43 minutos
Faixas: 13
Produção: Isobel Campbell e Chris Szczech
Gravadora: Cooking Vinyl

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

Isobel Campbell esteve ausente da música por quase uma década. Seu último disco foi “Hawk”, a terceira parte da colaboração que desenvolveu com o cantor Mark Lanegan. Fãs mais antigos lembrarão que ela fez parte do Gentle Waves e dos primeiros trabalhos do Belle And Sebastian e chegou a lançar um álbum solo, “Amorino”, de 2003. Dona de um registro vocal sutilíssimo, uma presença de palco tímida, que continha uma quantidade enorme de talento e possibilidades, Isobel sempre pareceu uma espécie de caixinha de surpresas em forma de artista. Este seu novíssimo trabalho é uma prova definitiva de seu talento e relevância. “There Is No Other…” é uma carta de amor ao pop californiano do fim dos anos 1960, mais precisamente, uma declaração de fidelidade ao som que gente como Joni Mitchell e CSN & Y faziam na época.

 

Tudo por aqui é sutileza, detalhe e lindeza. Isobel empresta seu registro vocal doce e quase sussurrado a composições que orbitam um trajeto estético que inclui arranjos lindíssimos de cordas, instrumental baixo-bateria-guitarra-teclados eventuais, com a dinâmica folk-pop dourada dos anos 1960, com muito bom gosto e a anos-luz de qualquer tipo de cópia. Pelo contrário, o que ela faz por aqui é pegar emprestada toda esta estética e colocá-la a serviço de suas próprias canções e ideias, como, por exemplo, fazer uma cover de “Runnin’ Down A Dream”, de Tom Petty, num arranjo que tem sintetizador e bateria eletrônica, mas totalmente inserido neste contexto de apropriação.

 

Se Isobel era uma das mentes pensantes e responsáveis pela fragilidade adorável dos tempos inicias do Belle And Sebastian, talvez um dos maiores atrativos da banda escocesa. Aqui, como artista solo, ela converte essa característica numa poderosa arma de sedução do ouvinte. Às vezes parece que seu canto vai se desfazer no ar, mas ele permanece firme, ajudado pelas lindas molduras sonoras que pairam. As faixas de “There Is No Other…” são primorosas. De vez em quando surgem ruídos de grilos ou pássaros em meio aos violões e instrumentos acústicos, colocados delicadamente ao redor das canções.

 

Exemplos de lindeza são muitos. A faixa de abertura, “City Of Angels”, em homenagem a uma Los Angeles ideal, hoje inexistente, contém ruídos de grilos e uma excelência acústica impressionante. Já “Ant Life” tem uma levada pop classuda, mas colocada apenas como um lembrete em meio ao arranjo econômico e silencioso. “The Art Of It All” é outra obra delicadíssima, cheia de vocais de apoio que quase chegam ao padrão gospel, mas param num ponto igualmente espiritual, coisa linda de se ver e notar em meio ao todo. “Hey World” é outra canção pop perfeita, novamente com vocais de apoio pronunciados, mas muito próxima da estética dos girl groups do início dos anos 1960, enquanto “The National Bird Of India” é uma daquelas faixas transcendentais, com cítaras e cellos, aceno óbvio à afinidade hippie com religiões e crenças alternativas. “See Your Face Again” é o mais próximo que Isobel chega do que uma Joni Mitchel faria se estivesse nos seus 30/40 anos de idade hoje. É linda, leve como o ar.

 

“There Is No Other…” é desses discos que nos fazem crer no próximo e na beleza oculta nos detalhes. É uma obra complexa, cheia de camadas e ótimas intenções, lindamente executada e que pode – e deve – recolocar Isobel Campbell no time de ótimas cantoras em ação. Ela merece.

 

Ouça primeiro: “Ant Life”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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