“Music For The Masses” – O manifesto do Depeche Mode

 

 

 

É bem comum encontrarmos por aí pessoas dedicadas a nos falar sobre o Depeche Mode, sobretudo sobre o drama, a intensidade e o pioneirismo que envolvem a banda. Sem maiores suspenses, já aviso: sou eu uma dessas pessoas. Sem dúvidas, a devoção é uma característica dos fãs desse grupo inglês.

 

O Depeche se consagrou como uma das maiores bandas de electro-rock e uma das mais populares em escala mundial. Mas ao contrário do que muitos pensam, nem sempre as coisas foram assim. A história do Depeche Mode começa em 1980. No entanto, a banda inglesa só teria o seu auge nos quesitos comercial e de crítica com o seu sexto disco, o apaixonante “Music for the Masses”, lançado em 28 de setembro de 1987.

 

Quando falamos no grupo com a atual formação de Dave Gahan, Martin Gore e Andrew Fletcher, lembramos automaticamente do que ele representou para a emergente música eletrônica dos anos 80. Em 1981, o Depeche já lançaria alguns de seus primeiros grandes sucessos dançantes, como as canções “Just Can’t Get Enough” e “New Life”, perfeitas composições de synthpop que levariam esse novo gênero para outros cantos além da Inglaterra.

 

“Just Can’t Get Enought”, por exemplo, foi o terceiro single do primeiro disco da banda, “Speak & Spell”, e o primeiro single a ser lançado nos Estados Unidos. Escrita pelo antigo membro Vince Clarke – o mesmo que, após a sua saída do Depeche Mode, formaria as bandas Yazoo e Erasure -, essa canção arrebatou corações porque trazia um som carismático de sintetizadores analógicos. Era o Depeche que já no seu primeiro álbum manifestava a sua identidade na história da música pop.

 

https://www.youtube.com/watch?v=_6FBfAQ-NDE

 

 

O mundo do futuro

 

A década de 70 foi marcada por evoluções tecnológicas. E essas mudanças provocavam sentimentos de encantamento e medo nas pessoas. Não se sabia como seria o mundo no futuro, só se sabia que muito iria mudar. Houve avanço e expansão comercial de novas tecnologias, criação de computadores com grandes capacidades de armazenamento e geração de energia nuclear (que, até então, parecia promissora). Essas mudanças fizeram com que novos padrões de comportamentos fossem criados. E não eram apenas as esferas econômica e política que sentiam esse impacto.

 

O cinema foi inundado por histórias de ficção científica. “Laranja Mecânica” de Stanley Kubirick, “Solaris” de Andrei Tarkovski, “Westworld” de Michael Crichton, “Alien – O Oitavo Passageiro” de Ridley Scott, “Mad Max” de George Miller, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” de Steven Spielberg e até mesmo a comédia sci-fi “O Dorminhoco” de Woody Allen apresentariam suas diferentes visões sobre o futuro e a tecnologia.

 

 

Lançado em 1977, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” é uma das grandes obras-primas de Steven Spielberg

 

 

A arquitetura, o esporte e, claro, a música também sofriam essas influências. No começo dos anos 80, já era possível comprar um sintetizador por um custo razoável. E isso só ocorreu porque Robert Moog apresentou, ainda em 1970, o seu projeto de sintetizador simplificado, o Minimoog. O que Robert Moog fez foi adaptar o instrumento para que músicos, e não apenas engenheiros de som, pudessem tocá-lo. Logo, o Minimoog superou as expectativas e passou a ser utilizado por bandas de pop e rock.

 

A invenção de Moog possibilitou a popularização do sintetizador. E foi no encontro do artista com os sintetizadores, muito marcado pelo começo dos anos 80, que a música eletrônica emergiria para uma nova fase: a sua explosão.

 

O Depeche Mode é uma dessas bandas visionárias que reuniu diversas referências para arquitetar a sonoridade que conhecemos em suas canções. Foram verdadeiros alquimistas de um pop perfeito e autêntico. O grupo aproveitou bem as novidades tecnológicas dos anos 80, o legado do Kraftwerk e a ascensão da música eletrônica, contribuindo para gêneros como synthpop, o rock, o industrial e o dance.

 

E a década de 80 foi um dos momentos mais agitados quando falamos de música. Durante esses dez anos, gêneros se fundiam, ritmos se misturavam, a cultura punk do “do it yourself” reverberava em muitos setores musicais e a música eletrônica caminhava para o seu auge. Cada vez mais as pessoas compravam discos e fitas k7. Seguindo os anseios do público, as gravadoras contratavam mais bandas para produzir mais músicas. Em nível mundial, a indústria musical se consolidava e a música se tornava uma espécie de vício.

 

O pós-punk e a new wave conquistavam o seu espaço, com autênticas, talentosas e icônicas bandas, cada qual de sua maneira. O fato é que se criou uma legião de fãs de grupos fantásticos e visionários que apresentavam inovações em suas canções e ampliavam o que já era conhecido.

 

Foi nessa era que o mundo musical se encontrou mergulhado de vez nas novas tecnologias, que agora eram mais acessíveis. Os computadores pessoais possibilitaram a emulação das funcionalidades dos instrumentos musicais. Em 1982, surgiu o MIDI, sistema de comunicação que permitia o controle e a sincronização de áudios entre teclados, sintetizadores e processadores de som. As novidades realmente aconteciam de maneira rápida e, para a nossa sorte, os músicos conseguiam aproveitá-las muito intuitivamente.

 

Em uma época de intensa criatividade, grupos como Pet Shop Boys, Human League, Soft Cell, Simple Minds, a-ha, New Order, Tears for Fears e Eurythmics surgiam. E de uma cidade prosaica e sem grandes encantos chamada Basildon, localizada em Essex (Inglaterra), onde praticamente nada de tão legal poderia existir, o Depeche Mode nasceu.

 

O começo

 

O fato é que dentro desse Grande Caldeirão Criativo Musical, o Depeche Mode, de início, não era tão adorado como é hoje. É notório que, ainda no começo, o grupo levou o synthpop para outros locais e influenciou muitos outros artistas. Mas a banda ainda não era uma unanimidade. Outros grupos já trabalhavam na tarefa de cunhar um pop subversivo – e conseguiam ser excelentes nessa atribuição. No começo da carreira, o Depeche ainda era tímido e um pouco desajeitado.

 

A formação inicial do Depeche Mode, composta por Vince Clarke, Martin Gore, Dave Gahan e Andrew Fletcher, recebeu algumas críticas dos intelectuais britânicos. Podemos até mesmo dizer que no início talvez nem houvesse uma grande pretensão do grupo em se consagrar como representante de qualquer coisa. Os integrantes não vinham de alguma renomada escola de arte ou música. E até pelo menos o lançamento do primeiro single da história do Depeche, dois de seus membros ainda trabalhavam em um banco.

 

Era no final da década de 70 quando Vince Clarke e Andrew Fletcher, fãs incondicionais do The Cure, formariam a banda Composition of Sound. A banda de Clarke e Fletcher tocava ocasionalmente em um pub de Basildon, chamado Van Gogh. Em uma noite trivial de uma cidade sem muitas novidades, Vince Clarke estaria no Van Gogh – mas, dessa vez, na plateia – e assistiria Martin Gore se apresentar com a banda Norman & The Worms. Depois daquela noite, Clarke e Fletcher convidariam Gore a participar da Composition of Sound. O motivo? Clarke simplesmente ficou encantado pelo sintetizador que Gore levou à apresentação.

 

Mais tarde, Vince Clarke ouviria uma voz masculina poderosa em uma versão de “Heroes” do David Bowie. A voz era de Dave Gahan cantando em uma jam session. Vince pensou que era essa a peça que faltava para o Compositon of Sound. E era mesmo. Logo no começo dos anos 80, Dave Gahan entrou para a banda. Pouco tempo depois, os quatro integrantes se tornariam o Depeche Mode.

 

A primeira formação do Depeche Mode – da esquerda para direita: Andrew Fletcher, Martin Gore, Vince Clarke e Dave Gahan

 

Depois de pequenas apresentações pela região, o Depeche lançaria, em 1981, o seu primeiro disco, “Speak & Spell”. Eles ainda não sabiam, mas os três primeiros singles (“Dreaming of Me”, “New Life” e o hino “Just Can’t Get Enough”) os colocariam em uma certa posição de sucesso no Reino Unido. Agora, o Depeche tinha algumas de suas primeiras faixas participando de paradas musicais importantes da época.

 

Tudo parecia ir bem. Mas ainda no ano de 81, Clarke, o principal compositor da banda, resolvia sair do grupo para que pudesse se dedicar aos seus projetos pessoais. Muitas bandas não sobreviveriam a uma saída repentina do principal vetor criativo. Mas o Depeche Mode se reinventou. E prosperou. E foi assim que em 1982, Alan Wilder, músico de formação clássica, entrava para compor o Depeche.

 

Com a saída de Clarke, o tecladista Martin Gore se tornaria o diretor artístico, musical e o principal letrista da banda. Introvertido e extremamente talentoso, Gore trouxe uma estética mais dark e noir para o Depeche. Nasceram canções sedutoras que falavam de todo tipo de assunto, desde que intenso e dramático: paixão, religião, sexo, poder, devoção, obsessão e desespero eram apenas alguns deles. De qualquer maneira, é fácil perceber que o caminhar pela obra do Depeche Mode é como ter encontros doces sobre temas ásperos, ou encontros mordazes sobre assuntos tão cheios de ternura. E Martin Gore é um desses espíritos geniais que nos fazem transportar para um mundo de sentimentalidade.

 

E em suas ardências, doçuras e obscuridades, o Depeche Mode conquistou o seu nicho, figurando como uma banda cult da cena alternativa dos anos 80. Os discos que sucederiam o ótimo “Speak & Spell” e seriam responsáveis pela gradual construção da sonoridade do Depeche, antes de “Music for the Masses”, seriam “A Broken Frame” (1982), “Construction Time Again” (1983), “Some Great Reward” (1984) e “Black Celebration” (1986).

 

Em “Black Celebration” já se notava uma maior inclinação de Gore a temas mais complexos e reflexivos. E a sonoridade, em sua direção e com alguns toques de Wilder e Fletcher, se direcionava para um aspecto muito mais soturno. Canções como “A Question of Lust” e “A Question of Time” eram sombrias, ambientais e sedutoras. O “Black Celebration” é realmente uma celebração dark. Nele, somos apresentados a camadas mais profundas da personalidade de Gore. É também uma das primeiras vezes em que Depeche Mode deixou um pouco de lado o apelo pop de canções passadas como “People Are People”.

 

Assim, a estética do Depeche Mode começava a conquistar fãs para além do techno-pop. Em outro continente, jovens americanos se magnetizavam pelo crossdressing de Martin Gore e a atmosfera sexual e dramática em que envolvia a musicalidade e as letras da banda. E para o sucessor de “Black Celebration”, o Depeche Mode apresentou um verdadeiro salto musical: em 1987, “Music for the Masses” trazia mais experimentações, com adição de guitarras, tornando a banda mais rock’n’roll do que nunca.

 

A formação do Depeche Mode de 1982 a 1995 – da esquerda para direita: Andrew Fletcher, Dave Gahan, Martin Gore e Alan Wilder

 

 

“Music For The Masses”

 

Parece quase proposital ser “Music for the Masses” o nome do disco que colocaria o Depeche Mode no gosto do público geral e levaria o nome da banda para o mundo afora. Foi justamente com o lançamento do sexto álbum que o Depeche inauguraria uma nova fase em sua carreira.

 

Uma fase no mainstream, sim. Os integrantes brincam que o título foi escolhido porque as pessoas diziam que eles deveriam fazer canções mais comerciais. Mas de nenhuma maneira “Music for the Masses” soa como um produto descartável do pop. Não é um trabalho que teve como finalidade uma simples explosão de vendas. O sexto disco é, antes de tudo, uma linda composição de arte e pop, do obscuro e do dançante, da profundidade e da emoção.

 

A capa de “Music for the Masses” foi idealizada por Martyn Atkins

 

Antes do “disco dos megafones vermelhos”, a banda seguia o seu caminho de uma banda alternativa da emergente música eletrônica, com fãs fiéis em locais específicos. Com “Music for the Masses”, muito mudou. O disco traria para o grupo de Dave Gahan, Martin Gore, Alan Wilder e Andrew Fletcher fãs em países além que a banda inglesa já havia conquistado. E nos Estados Unidos, o álbum faria um grande sucesso, que culminaria em uma apresentação do Depeche para setenta mil pessoas no Rose Bowl, em Pasadena (Califórnia).

 

“Music for the Masses” me faz pensar em muitas coisas. A primeira delas é a mudança. De alguma maneira, acredito que a música essencialmente pop tem a ver com transformações. E também acredito que um ingrediente especial da receita de um pop perfeito é não ter medo de arriscar. “Music for the Masses” trouxe mais experimentações e inovações. E é fato que isso se deve bastante ao produtor do disco, Dave Bascombe.

 

O Depeche Mode teve que se desapegar dos sintetizadores e adicionar camadas de rock’n’roll naquela velha fórmula de sempre: riffs de guitarra, contrabaixo e bateria. Bascombe foi uma escolha acertada e era um dos grandes nomes em termos de produção musical. Havia trabalhado com Peter Gabriel e produzido um dos discos mais bem-sucedidos da época, nada menos que o “Songs From a Big Chair” do Tears for Fears, lançado em 1985.

 

Faixa a Faixa

 

E foi o tecladista Martin Gore que tocou a guitarra da primeira faixa, “Never Let Me Down Again”, uma canção marcante de abertura que viraria o segundo single do disco. Os riffs de guitarra nos abrem para um Depeche Mode reformulado, mas que preserva a sua identidade construída até ali. Há variações de ritmos e, como esperado, uma letra que pode adquirir muitos significados.

 

“The Things You Said”, cantada por Gore, vai fundo em questões como o medo e a vulnerabilidade, principalmente em relacionamentos. A letra da segunda faixa é um exemplo de como há muita entrega no Depeche Mode. E nos mostra que é impossível entender o que Martin Gore quer nos dizer quando continuamos sendo pessoas muito rasas. “They know my weaknessess/I never tried to hide them” é mais um dos versos em que o Depeche nos diz para vivermos o que verdadeiramente somos e não escondermos o nosso lado obscuro.

 

A canção com o apelo mais pop de “Music for the Masses” é a terceira faixa, “Strangelove”, que foi o primeiro single do disco e uma das responsáveis por fazer a banda finalmente estourar nas rádios em muitos locais “ainda não tão habitados”. Um desses locais era o Brasil. “Strangelove” tocou como nunca na América Latina e virou um dos hits da banda. Nessa canção, temos um daqueles momentos ingênuos e inteligentes em que o Depeche nos fala sobre a relação do amor com a dor – e podemos até acreditar, de alguma maneira, em contextos específicos, que esses conceitos podem se combinar.

 

“Sacred” é uma das minhas faixas favoritas de todos os tempos. Dizem que é sobre religião ou sobre amor. Mas gosto de acreditar que abrange uma premissa muito maior: a da devoção. E sobre devoção, o Depeche Mode me ensinou muito. Que tipo de pessoas seríamos se não fôssemos devotos a alguma coisa enquanto estamos vivos? Certas devoções e idealizações, quando conservadas saudavelmente, nos dão um sentido e uma missão na vida. Nossa devoção é nada menos que nossa esperança. É aquilo pelo qual se vale sofrer, se vale acordar todos os dias e se vale lutar. É nada menos que a beleza que qualquer argumento contrário nunca alcançará. E Dave Gahan canta como um missionário religioso obsessivo, em uma construção musical sombriamente carismática e sedutora: “I’m a firm believer / And a warm reciever / And I will go down on my knees / When I see beauty”. É uma perfeita lição de como amar no sentido mais puro que o verbo pode expressar.

 

Dave Gahan dissera certa vez que a KROQ radio em 1987 que a quinta faixa, “Little 15”, ao contrário do que muitos pensam, é sobre um garoto. É, na verdade, sobre uma mãe que tenta explicar a seu filho que crescer é sair de um canteiro de rosas e encarar um mundo muito ruim lá fora. Alan Wilder influenciou muito a composição musical de “Little 15” quando adicionou à canção alguns elementos de orquestra. Uma das inspirações de Wilder para a composição da quinta faixa foi a trilha sonora de Michael Nyman para o filme “A Zed & Two Noughts” de Pete Greenaway.

 

“Behind the Wheel” é uma dessas canções perfeitas do começo ao fim. Temos aqui um dos pontos altos de “Music for the Masses” (como se houvesse pontos baixos). O fato é que “Behind the Wheel” é um dos trabalhos mais soturnos e atmosféricos do Depeche. A letra nos fala basicamente sobre alguém que quer ser dominado ou alguém que anseia por um sentido. Mais uma vez, somos apresentados a uma profunda devoção e entrega. É sobre alguém que se rende. É também sobre confiança em uma pessoa ao ponto de se entregar totalmente para ela. O videoclipe dirigido por Anton Corbijn é também uma daquelas obras a serem veneradas. Foi a partir dessa época que Corbijn começou uma longa parceria com o Depeche, e os videoclipes da banda passaram a ter uma estética cinematográfica. A junção de Corbijn com a banda inglesa só fizeram provar que essas músicas merecem ser tocadas e assistidas em som e imagem de uma sala de cinema.

 

O ruído de respiração presente em “I Want You Now” pode parecer meio creepy, mas ele nos envolve em um terrível sentimento de desespero amoroso. E isso pode ser bom. “I want you now / Tomorrow won’t do / There’s a yearning inside / And it’s showing through / Because I’ve got a love / A love that won’t wait / A love that is growing / And it’s getting late”. A urgência de realizar um desejo é sufocante e o som atmosférico da sétima faixa nos prende e nos faz resgatar aquelas antigas sensações de ansiedade causadas por paixões arrebatadoras. Não que essa sensação seja totalmente boa, mas… de vez em quando certas aflições nos lembram que estamos vivos, que somos humanos e que temos sentimentos – alguns deles, muitas vezes, incontroláveis.

 

“To Have and to Hold” inicia com uma transmissão de rádio russa, nos introduzindo a um dos climas mais sombrios de “Music for the Masses”. A tradução para a mensagem inicial é algo como “o relatório examina a evolução dos arsenais nucleares e dos problemas sócio-psicológicos da corrida armamentista”. “Nothing”, “Pimpf” e “Agent Orange” encerram o disco nos mostrando o motivo do sexto álbum ser um dos mais emblemáticos em questão de experimentalismo e criatividade da banda.

 

 

“Music for the Masses” se consolidou como um divisor de águas para o Depeche. A combinação dos sintetizadores e do techno-pop progressivo com os elementos do rock de arena fez com que a banda estourasse nas paradas de vários países e, assim, conquistasse o mundo.

 

O sexto disco recebeu certificações de platina na França e nos Estados Unidos. Na Alemanha, Suíça e Suécia, recebeu certificação de ouro. E no Reino Unido, a de prata. A recepção da crítica ia de álbum ótimo para excelente. E pelo menos até 2007, estimativas apontavam que foram vendidas quase 6 milhões de cópias do disco só nos Estados Unidos.

 

Mais do que números, “Music for the Masses” se cristalizou como uma obra de arte cativante porque misturou emoções relacionadas com a existência humana. O Depeche provou, como sempre fez, que é preciso ter alguns encontros no submundo de si para entender a nossa profundidade.

 

Entre 1987 e 1988 aconteceria a Music fo the Masses Tour. Com músicas projetadas para tocar em grandes arenas, e o Depeche Mode realizaria um feito que poucas bandas do seu estilo conseguiram: só para exemplificar, na tour de “Music for the Masses” a banda tocou duas vezes em Wembley e nove vezes na arena da França. Depois, foram incorporados mais dois shows na Alemanha e o grupo também se apresentou no Japão.

 

Foram 101 apresentações para milhares de pessoas em pelo menos três continentes. E a Music For The Masses Tour se encerraria no verão do ano de 88 em Pasadena, na Califórnia. Na cidade da costa oeste americana, o Depeche simplesmente havia lotado o estádio de Rose Bowl com setenta mil pessoas. Os ingressos? Esgotados.

 

A histórica apresentação no Rose Bowl

 

Não por acaso, foi esse o show que se tornaria um dos mais fantásticos discos ao vivo da banda e também um dos documentários essenciais para entender a carreira do Depeche. Tanto o documentário quanto o disco foram intitulados simplesmente de “101” – Alan Wilder descobriu de última hora que o último show da turnê era o de 101. E, coincidentemente, 101 era também o número de uma famosa rodovia na área.

 

Naquela noite, o quarteto de Basildon fez história. E eu escrevo isso com muita emoção, porque acredito que poucos momentos foram tão bonitos e, ao mesmo tempo, tão assustadores. Porque pela primeira vez, Dave Gahan cantou “Never Let Me Down Again” levantando os braços em sincronia com setenta mil pessoas. Setenta mil pessoas entregues, de braços abertos e mãos desocupadas. Setenta mil pessoas chacoalhando os braços sem celulares e importâncias com o mundo lá fora. Não que eu seja crítica com quem filma shows – vivemos em outra época e eu mesma o faço. É que o que aconteceu em18 de junho de 1989 em Pasadena nunca mais vai acontecer na história da música. Eu não estava lá, mas isso mudou a minha vida.

 

5+

Maisa Carvalho

Maísa Carvalho é piauiense com toques paulistas, estuda Direito, é curiosa com as coisas do mundo, amante das artes humanas e apaixonada por música.

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