Maternidade depois do Carnaval e antes da pandemia

 

 

Augusto Manso e Cynthia Magalhães formam um casal carnavalesco. Ele é músico e ela, depois de tocar em alguns blocos, continua fã da festa. Este ano, a rotina da dupla mudou completamente: Cynthia estava grávida, Augusto fazendo shows, e a pandemia do novo coronavírus só começava a crescer quando, em março, correram pra maternidade para a chegada de Vicente, hoje com 3 meses. Agora, em segurança e com saúde, os pais estreantes contam em entrevista dupla como se adaptaram a tantas mudanças.

 

 

Coluna Coringa: Como e quando vocês souberam da notícia da gravidez, e como se prepararam para ela durante a pandemia…

 

Augusto: Eu e Cynthia estamos juntos tem 17 anos e um bebê já era algo que queríamos. Quando soubemos foi emocionante e engraçado, preparamos um vídeo para anunciar a novidade no qual nossa cachorra segurava o teste de gravidez positivo… Aquela ideia bobinha pra fazer uma graça com os avós, mas ninguém entendeu nada, acharam que a Amora, que é castrada, estava grávida… Tivemos que contar da maneira analógica mesmo.

Cynthia: No final de 2017 perdemos o nosso primeiro herdeiro. Não deu tempo de curtir, sofrer ou entender o que estava acontecendo, mas acho que ali aumentou a vontade ter mais um membro na família. Então seguimos tentando, fazendo exames, até que nosso bebê apareceu. A pandemia só chegou mais para o fim da gravidez. Vicente nasceu dia 16 de março, quando eu já estava com 41 semanas de gravidez. Pouco tempo antes, aproximadamente com 36 semanas, tive que ir a uma emergência porque apresentava sinais de gripe. Acho que fui a primeira paciente daquele hospital a ter que colocar a máscara por causa da Covid-19, pois ninguém sabia direito se era ou não para usar, os próprios enfermeiros estavam confusos.

Logo após o parto fomos informados que, a partir daquele momento, toda e qualquer visita estava proibida. Quem estivesse nos quartos deveria sair imediatamente. Informamos que não havia ninguém no quarto, mas não deu 10 minutos e surgiu um segurança para confirmar a informação que tínhamos passado por telefone. Daquele momento em diante as enfermeiras começaram a agir de forma estranha, os seguranças começaram a usar máscaras, as mamães não podiam mais andar nos corredores… Tudo mudou! No dia seguinte tivemos alta e meu pai foi nos buscar de carro, mas foi expressamente proibido de entrar no hospital. Nem na recepção era permitido. Tivemos que arrumar tudo e sair do hospital para o carro dele sozinhos. Aquele momento mágico em que os pais saem da maternidade com o seu bebê se transformou em um momento de tensão assustadora.

 

 

CC: Imagino que já durante o transcorrer da gravidez a rotina do casal já tenha ficado complicada…

 

Augusto: Ficou muito diferente. Passamos a acompanhar de perto o bebê na barriga, fazendo os exames e consultas. Sou músico e, mesmo enrolado, fui a todas as consultas de pré-natal e estive bastante presente. Faço várias gigs e tenho muitos projetos em andamento e, no fundo, eu tinha muito medo de não estar presente caso ocorresse alguma emergência, ou no próprio dia do parto, pois a gente nunca sabe direito que dia estará tocando onde. Mas nossa família é bastante carnavalesca. Toco no bloco Desliga da Justiça e sou diretor musical do Blocobuster, participei de shows durante o Carnaval com o Que Bloco é esse? e no Sereias da Guanabara. Já a Cynthia tocava nos blocos Fina Batucada e Chinelo de Dedo antes da gravidez, e já tocou no Tambor Carioca, entre outros. Mas este ano nossa folia foi esperando Vicente chegar, torcendo para estarmos todos juntos na hora certa.

Cynthia: Não tive nada durante a gestação, por isso minha ideia era continuar trabalhando até o finalzinho da gravidez, mas como corria o risco de Vicente nascer perto do Carnaval, achei melhor sair de licença mais cedo. E foi a melhor coisa que fiz, pois me protegi da Covid-19.

Sempre curtimos o Carnaval juntos. Quando não estávamos tocando, estávamos apenas brincando mesmo. Mas, esse ano, resolvemos ajustar a folia à nossa necessidade. Enquanto a preocupação do Augusto era conseguir cumprir o máximo da agenda de shows, eu me isolava em casa. Já imaginou Augusto no palco e eu indo para a maternidade? Isso sem contar que a rua onde moramos, no Flamengo, fecha para passagem de blocos e é caminho para a maternidade também, que fica em Laranjeiras. Então, foram dias tensos e vegetativos, para que conseguíssemos passar pelo Carnaval com Vicente na barriga, ou pelo menos até o último show do Augusto.

 

 

CC: E o bebê passou a ser a prioridade a partir de então…

 

Augusto: Sim, o Vicente era a prioridade, naturalmente. Na minha cabeça, queria fazer o máximo de shows, gravações etc. para poder tirar um tempo quando o bebê chegasse. Houve dias de Carnaval que subi no palco 3 vezes, em locais diferentes, com bandas e blocos diferentes, apresentações fora do Rio de Janeiro… Foi uma loucura, mas felizmente tudo correu bem e o parto aconteceu um pouquinho depois da festa. Pude estar presente em todos os momentos.

Cynthia: Sou uma pessoa muito prática e sem frescuras, e Augusto é um pouco assim também. Então nossas prioridades foram manter uma alimentação saudável, marcar exames e consultas em dias e horários bons para os dois e não pegar Zica. Augusto não faltou a nenhum exame ou consulta. Mesmo reclamando das inúmeras horas de espera na recepção da obstetra (risos)! Só começamos a nos preocupar com o quarto do bebê uma ou duas semanas antes do Vicente nascer.

 

 

CC: E o que fizeram para manter a saúde mental, em meio a tantas Fake News e matérias negativas sobre o cenário do país?

 

Augusto: Dá certa aflição pelo futuro do guri. O mundo está muito estranho, com muito ódio e pouca sensibilidade. Fico triste principalmente pela leitura dos fatos por muitas pessoas sem o menor senso crítico. Falta muito trabalho de base ainda, mas sou otimista e penso que não conseguiremos viver nas trevas por muito tempo. A pandemia ganhou força quando estávamos saindo da maternidade. Mas, como rede de apoio, temos família e amigos que formam um grupo bem unido. E todos, curiosamente, tiveram bebês em épocas próximas. Formamos uma rede de troca de dúvidas e de sugestões.

Cynthia: Eu fiquei neurótica. No início tinha a sensação de que eu poderia morrer a qualquer momento. Na TV era só Covid-19. Nas redes sociais era só Covid-19. Os amigos só falavam de Covid-19… Resolvi parar, respirar e desligar. Fugia de qualquer informação relacionada à pandemia. Não via jornal, só via filmes “água com açúcar” para distrair a mente; nas redes sociais, saí de grupos com pessoas que só tinham esse assunto. E, assim, consegui ficar menos neurótica. Ainda estou um pouco, porém menos que antes.

 

 

CC: E agora, como está a rotina de consultas etc. com Vicente? 

 

Augusto: Trouxemos meus sogros para casa e entramos em quarentena todos juntos. Eles, que são grupo de risco por causa da idade, estavam conosco na maternidade e ficaram aqui de vez, e lá se vão vários meses. Acabou sendo bacana, eles ajudam a gente e todos nos ajudamos para não pirarmos. Fora isso, nas consultas com o pediatra tudo ainda é muito estranho. Nas primeiras vezes eu não pude entrar, o prédio comercial onde fica o consultório estava com mil restrições, bem como o próprio consultório. Só podia entrar um, sem ninguém na sala de espera… Acabei sobrando e tendo que esperar lá fora. Cogitou-se até transmitir a consulta por live, mas eu não fui muito afeito a essa ideia, sou um cara meio analógico. Agora as coisas já estão mais flexíveis. Dentro da casa corre tudo bem. Estamos ainda aprendendo a adaptar a rotina do pequeno e também a nossa.

Cynthia: As consultas médicas realmente ficaram esquisitas. E com um bebê, sua visão das coisas muda muito. Hoje estamos preferindo não ir ao posto dar as vacinas, por exemplo. Estamos contratando laboratório para aplicar em casa. A qualidade das vacinas do posto é ótima, mas acreditamos que a exposição, neste momento, não valha a pena.

Lembro que na semana em que saímos do hospital tivemos que ir ao posto aplicar a BCG. Nossa, foi tenso! Vicente era muito pequenininho e era o primeiro dia de vacinação dos idosos. Como a BCG tem dia certo para ser aplicada, tivemos que enfrentar. Fomos de carro e Augusto ficou na fila enquanto eu aguardava dentro do carro. Chegamos antes de o posto abrir, e a fila dos idosos só aumentava. Quando Augusto me informou que recém-nascido tinha prioridade, coloquei Vicente no colo e entrei no posto como se não houvesse amanhã. Andei rápido, forte, mas quando de fato entrei no posto, foi me dando um pânico, uma tremedeira… Apertei o passo e fui com o Vicente até a sala de aplicação, chorando. Depois que tudo passou, percebi o quanto essa pandemia mexe com a gente, em uma situação normal eu nunca agiria dessa forma, jamais! Mas quando entrei no posto e vi tanta gente equipada, tanta gente aguardando atendimento, a sensação de que meu filho estava em um lugar altamente contaminado era latente e desesperadora.

 

 

CC: Pra fechar, como estão os dias agora?

 

Augusto: Estamos nos adaptando a uma nova rotina. Quem diria que estaríamos presos em casa pedindo comida, fazendo mercado pela internet e escolhendo as roupinhas do Vicente pela tela do celular… Queria levar meu filho no parquinho, pra tomar sol, ver outras crianças, abraçar os amigos. Acima de tudo, queria que ele tivesse mais contato com outros familiares também. Os meus pais estão em quarentena na Região Serrana do Rio e fizeram visitas tão rápidas e com distanciamento que foi de cortar o coração. Mas dias melhores virão, para todos e também para o nosso Vicente.

Cynthia: Temos feito ginástica pela internet. Uma coisa nova que eu, preconceituosamente, sempre achei ruim, está fazendo um bem enorme pra todos nós, ajudando a não pensar muito nessa maluquice toda. Por fim, tenham filhos, mas se programem pra nascer bem depois do Carnaval, e continuem em casa!

 

 

 

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Celso Chagas

Celso Chagas é jornalista, compositor, fundador e vocalista do bloco carioca Desliga da Justiça, onde encarna, ha dez anos, o Coringa. Cria de Madureira, subúrbio carioca, influenciado pelo rock e pela black music, foi desaguar na folia de rua. Fã de poesia concreta e literatura marginal, é autor do EP Coração Vermelho, disponível nas plataformas digitais.

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