Khruangbin – Mordechai

 

 

Gênero: Rock alternativo

Duração: 43 min.
Faixas: 10
Produção: Khruangbin, Steve Christensen
Gravadora: Dead Oceans

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

A primeira vez que ouvi falar do Khruangbin foi através de um EP que a banda texana dividiu com o cantor (e conterrâneo) Leon Bridges, chamado “Texas Sun”. Confesso que passei adiante, uma vez que o trio parecia apenas servir como banda de acompanhamento, algo que se mostrou completamente equivocado de minha parte. A chegada deste novo álbum, “Mordechai”, revelou que o grupo formado por Laura Lee, DJ Johnon Jr e Mark Speer é como o iceberg que arrebentou o Titanic, ou seja, tem pouco na superfície e muito, muito mais para se ver/ouvir abaixo. Por isso, fica fácil dizer que eles são apenas mais um grupo de malucos globalizados que se amarram em misturar folk iraniano, funk tailandês e psicodelia turca – influências que a banda assume como reais – mas, não. É um pouco mais do que isso e tal detalhe faz toda a diferença.

 

A gente sabe que a pós-modernidade criou vários tipos de tribos e sub-tribos, integradas por conceitos, meios de comunicação instantânea e acesso ilimitado a informações online. A partir daí fica fácil descobrir a onda do Khruangbin (que significa “avião” em tailandês): misturar várias referências e amalgamá-las num som palatável e “digestivo” para uma multidão crescente de hipsters de várias envergaduras. Apesar disso soar como uma proposta meio vazia de significado real, o grupo conseguiu formatar uma pegada sonora própria, que beira a largação instrumental intencional, mas que, na verdade, reduz ao máximo os elementos supérfluos e investe na sonoridade, na estrutura e, sim, no potencial funk/psicodélico das canções, obtendo resultados sensacionais, que vão do grudento ao experimental, sem perder a coesão.

 

“Mordechai” é o terceiro trabalho dos sujeitos e marca um aumento significativo nas faixas com vocais, a cargo, especialmente de Laura e Mark, que se alternam em entrelaces ou em performances solo. A sensação é de ouvir alguém que pegou uma máquina do tempo e saiu por aí, indo e vindo constantemente, escolhendo o destino de olhos fechados, com impactos distintos a cada realização. “Pelota”, por exemplo, tem tinturas latinas não-óbvias, evitando a aura de “exotismo” previsível e mostrando belo trabalho de guitarras que soam como se estivessem submersas. Aliás, toda a produção – a cargo do trio e de Steve Christensen – tem esta pegada estética, a de encurtar o alcance dos instrumentos e fazê-los soar como se estivessem sob a água. O efeito disso é bem bacana e atinge ótimos momentos, especialmente na abertura, “First Class” e em “One To Remember”, que tangencia o reggae, com bela linha de baixo a cargo de Laura.

 

O que salta aos ouvidos é a capacidade do trio em compor belas canções, o que é essencial para qualquer empreitada sonora que se preze. O acerto no alvo fica por conta da irresistível “Time (You And I)”, que, uma vez grudada na sua mente, se recusará a sair tão cedo. Refrão e levada matadores, a canção é um brinco de ouro da princesa, com aura funk e cheia de guitarras em chacundum. “Dearest Alfred” é mais lenta e psicodélica, com guitarras soando como se estivessem ao nascer do sol, emulando uma sonoridade que mescla pop e influências levíssimas de Santana. A caminho do fim do álbum, “So We Won’t Forget” e “Shida” pegam o clima de largação guitarrística e constroem belos momentos em que a banda soa quase como água sobre uma tela recém-pintada, borrando fronteiras e unindo pontos.

 

Khruangbin é uma gratíssima revelação que já se tornou realidade e pode apontar para uma modernidade roqueira que vem vindo por aí, com bandas como Chicano Batman e White Denim liderando a onda. Ouça para não perder o bonde.

 

Ouça primeiro: “Time (You And I)”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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