Marcelo Adnet x Roda Viva

 

 

Não dá pra negar: Marcelo Adnet é um dos grandes nomes do humor nacional na atualidade. Irreverente, talentoso e esclarecido, Adnet é um dos grandes mestres da imitação, na tradição de grandes nomes do passado, como Chico Anysio e Jô Soares. Seu talento, no entanto, é múltiplo. Ele se arrisca na composição de sambas de enredo, foi convidado para ser carnavalesco da Agremiação Botafogo Samba Clube, integrante do Grupo de Acesso do Rio. Além disso , escreve roteiros, produz e assina esquetes, especialmente durante a pandemia da Covid-19, com o “Sinta-se em Casa”, que vai ao ar no programa Encontro com Fátima Bernardes. Sua especialidade se tornou a sátira política, algo que se tornou inevitável em tempos obscuros como os atuais. Por conta de sua popularidade, Adnet foi o convidado de ontem do Roda Viva, na TV Cultura.

 

Sendo assim, lá esteve Adnet – via satélite – para responder perguntas de Antônio Prata, Anna Virgínia Balossier, Helio de la Peña, Bruna Braga, Marcelo Tas e da apresentadora, Vera Magalhães. Sabemos que o Roda Viva não é mais o programa de outros tempos, o que significa, por exemplo, abdicar de algumas posturas necessárias em tempos como os atuais, em nome de uma isenção “jornalística”, que acaba por ser conveniente. Tornou-se, no mínimo, um jornalístico preguiçoso. Mesmo assim, por conta da tradição, sabe-se lá, ainda é motivo de atenção, justo por dar espaço a personalidades de vários espectros. Adnet é um humorista que faz sátira política, logo, é uma figura “entrevistável”. E assim foi.

 

A pauta de perguntas orbitou o eixo político/humorístico, restando pouco espaço para outros assuntos, como previsto. Em pouco tempo, foi possível ver que apenas o escritor e roteirista Antônio Prata escapava de uma perigosa superficialidade, com papéis bem definidos e distribuídos entre os entrevistadores. Anna Virginia, jornalista da Folha, era a que fazia perguntas mais ríspidas, como, por exemplo, se Adnet sabia/compactuava com as acusações de assédio sexual feitas contra Marcius Melhem, seu colega de Globo e de várias produções no passado. Apesar da tentativa do entrevistado de não opinar diante da questão, ela e a apresentadora, Ver Magalhães, insistiram até deixá-lo constrangido. De la Peña, ex-Casseta e Planeta, cumpriu o papel de amigo, carioca, bonachão, algo que também esteve na alçada da comediante Bruna Braga. A Marcelo Tas coube a função de ser o humorista/apresentador veterano. E criou-se então o clima para as perguntas.

 

A maioria delas foi sobre a condição de fazer humor no país, tema que Adnet respondeu com desenvoltura, falando da evolução da arte de fazer rir, de lugar de fala, de questões sobre preconceito e detalhou como fazia para escolher suas piadas, mostrando que elas sempre têm um alvo, o qual, segundo ele, é escolhido por questões que variam da visibilidade do assunto à empatia. Também disse que sempre está do lado das vítimas, dos mais fracos, procurando, certas vezes, dar-lhes a chance de “vingança” através do humor. Até aí, tudo bem. Com fluência e tranquilidade, ele foi respondendo com calma e, num dado momento, topou com a protocolar pergunta: “você tem uma posição política?”. E ele não hesitou: “Sim, claro, no Brasil de hoje, não há como não ser de esquerda. Sou de esquerda, sou progressista”. Convenhamos, em tempos pós-2014, é um ato de coragem admitir tal fato, ainda que Adnet já tivesse feito isso anteriormente no Youtube, como, por exemplo, no canal do jornalista Rica Perrone.

 

Uma vez assumido progressista/esquerdista, não tardou a vir a pergunta de Marcelo Tas, nome identificado com o conservadorismo “intelectual”, aquele tipo de pessoa conservadora mas que preza o jogo democrático. “Você, quando se assume um humorista de esquerda, nunca reparou que em Cuba não existe humorista? Que na China não existe humorista? Eu acho muito perigoso que pessoas como nós tomemos um partido, especialmente um partido do lado que o humor é censurado, que é o caso de Cuba, que é um país muito triste”. Adnet respondeu que imaginava que a Libéria – país da África Ocidental, comprado pelo governo americano no século 19 como destino para negros saudosos do continente originário – também não seria exatamente o caso de um país alegre, ainda que capitalista. E dessa discussão vem o maior problema do programa e do jornalismo brasileiro atual: o reducionismo.

 

Em nome da satisfação de uma audiência que se supõe ilustrada, tais questões afundam a credibilidade do Roda Viva. A redução dos conceitos “esquerda” e “progressista” é imperdoável e irritante. A má fé de Marcelo Tas também fica evidente ao confundir experiências governamentais socialistas mal sucedidas em algum aspecto com a prática do ideal de esquerda. Falar de países como Cuba, Coreia do Norte, União Soviética sem o devido contexto histórico é o paraíso do imediatismo, mas também do clique fácil na rede social. Para isso basta ver o que a população brasileira considera “comunista” em pleno 2020, mais de 30 anos após a queda do Muro de Berlim. Todas as iniciativas em prol da redução da desigualdade, da educação e saúde públicas, da geração de empregos, da subvenção do Estado em programas assistenciais, todas iniciativas progressistas, não necessariamente socialistas, são enfrentadas como pautas “comunistas”. Nem se trata de viés social ou político, mas, em casos como o do Brasil, estas são pautas humanitárias. E urgentes.

 

Ao falar de censura, Tas deveria se lembrar dos tempos da ditadura civil-militar brasileira, capitalista, alinhada com Washington, que, no entanto, mandou matar e torturar. Ou da ditadura chilena. Ou da argentina. Há vários e tristes exemplos de censura em governos de extrema direita, aliás, não precisamos ir muito longe no tempo. Ditadura é uma modalidade de governo tristemente afeita a vários regimes econômicos, não sendo, em hipótese alguma, apanágio da esquerda ou do socialismo. Ainda que Adnet tenha respondido com elegância e clareza, tal desempenho de um entrevistador do Roda Viva é lamentável. E irritante.

 

Infelizmente, em tempos atuais, tal postura é previsível. E marca o que chamo de burrismo. Esta visão superficial das coisas, descontextualizada, mas que, talvez exatamente por isso, por ser simples e fácil, surge como hegemonia no país de bolsonaro. Adnet saiu ileso e com desenvoltura. Ao resto da bancada, exceção feita a Antonio Prata e a Bruna Braga. De la Peña também não comprometeu. O resto…

 

Em tempo: tive aula com uma professora na UFF que visitou Cuba. Também tenho amigos que lá estiveram. Todos foram unânimes em afirmar a beleza do país e a hospitalidade do povo. É uma ilha no meio do Caribe, que costumava ser complexo hoteleiro da máfia americana até 1959. Depois da Revolução Cubana, iniciou-se um processo de socialização do país, que erradicou o analfabetismo, projetou o desporto em nível mundial, praticamente extingiu a pobreza/miséria e ergueu um dos maiores polos da medicina mundial. Certamente falhou em muitos aspectos, a exemplo da quase totalidade dos regimes socialistas do século 20, especialmente na preservação da liberdade de expressão e do indivíduo, erros inadmissíveis.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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