Interpol ressurge com um belo disco

 

 

 

Interpol – The Other Side Of Make-Believe
(Matador)
46′, 11 faixas

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

 

 

 

Este bom “The Other Side Of Make-Believe” é o sétimo álbum da carreira dos americanos do Interpol. O trabalho anterior, “Marauder”, foi lançado em 2018, e mostrava um desejo de mudança de ares por parte do grupo. Parecia que a sonoridade cinzenta e deliberadamente devedora dos anos 1980, praticada pela banda, já dava algum sinal de esgotamento criativo, fato também notado no disco anterior, “El Pintor”. A chegada do produtor Dave Friedmann para a gravação era a evidência maior desta vontade. O resultado de “Marauder” foi energético – mais do que o normal – mas não mostrou tanto de novo, por isso, não é de se espantar que um movimento semelhante permeie esta novíssimo trabalho. Talvez isso explique, não só o hiato de quatro anos entre “Marauder” e este, mas, o fato é que “Make-Believe” apresenta um Interpol renovado, disposto e com uma fornada excepcionalmente boa de canções. Parece que aquele desejo de quatro anos atrás se materializou de fato aqui e, finalmente, temos um álbum que pode ser inserido entre os melhores do trio, junto a “Turn On The Bright Lights” e “Antics”. Senão vejamos.

 

 

O que é bacana no trabalho de Paul Banks, Daniel Kessler e Sam Fogarino é a apropriação assumida desses timbres dos anos 1980, especialmente do pós-punk inglês, mas com a disposição de, sobre esses sons, criar uma marca registrada. É como se, grosso modo, houvesse um “jeito Interpol” de se inspirar naquelas matrizes cinzentas dos tempos idos, especialmente de Echo And The Bunnymen e Joy Division. Com os dois primeiros álbuns, mencionados acima, este modus operandi funcionou, mas, logo no terceiro trabalho, “Our Love To Admire”, de 2007, começou a dar sinais de banalidade. Afinal de contas, era só mais uma banda pegando timbres já conhecidos e, vá lá, reprocessando-os. Tudo bem, o trio sempre teve talento para demonstrar, além da marca pessoal, uma boa habilidade com instrumentos e uma postura muito bem pensada, ainda que muito mais eficiente em disco e em espaços pequenos que em grandes shows.

 

 

Por isso esse movimento de mudança iniciado em 2018 parece ter sobrevivido à própria pandemia da covid-19, quando, assim como todo mundo, o Interpol cessou atividades e ficou esperando para ver o que aconteceria. Aos poucos, Banks foi começando a escrever novas canções e, mais que tudo, gostar muito do resultado. “Toni”, a faixa que abre este novo álbum, é uma inédita incursão do Interpol pelo terreno mais dançante, ainda que isso aconteça ao “modo Interpol”. De qualquer maneira, é uma baita lufada de ar fresco no rosto dos fãs e do próprio grupo, que parece animadíssimo ao longno das onze faixas do disco. “Toni” também exibe uma bem urdida cama de pianos, algo que também é novidade. O grupo escoheu a canção para ser lançada como o primeiro single de “Make-Believe”, deixando claro para os fãs que vinha coisa boa – e nova – por aí.

 

 

Há muitos acertos nas canções do álbum. “Fables”, que também foi lançada como single, parece uma canção de David Bowie setentista, algo que, em qualquer lugar do mundo e circunstância, é um elogio e tanto.Há uma sequência matadora na metade do disco, iniciada pela maníaca “Something Changed”, que decola como canção noturna e pianística, sendo invadida por timbres e vocais desencarnados. Logo após, “Renegade Hearts” traz a guitarra para o front, com um riff intrincado e harmonioso, deixando para “Passenger” a finalização desta trinca, com uma batida marcial e criativa, ornada por guitarras, numa cruza estranha de U2 e Bowie. E o último single a ser lançado, “Gran Hotel”, é a melhor faixa que o grupo lança em mais de uma década, fácil, fácil. É outra incursão do Interpol num território “dançante”, mas com um pouco mais de pulso firme e neurose tropical, falando sobre algo que aconteceu nas ruas de Cozumel, balneário paradisíaco mexicano. Talvez seja a coisa mais Bunnymen que os próprios Bunnymen não fazem em muito tempo.

 

 

“The Other Side Of Make-Believe” é um álbum que mostra a tão sonhada criatividade que o Interpol estava devendo há algum tempo. Ele traz ótimas canções, uma banda madura e com vontade de mostrar ao que veio. De novo. Belezura para fãs e neófitos.

 

Ouça primeiro: “Gran Hotel”, “Toni”, “Fables”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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