Elliott Smith, 50.

 

Se vivo estivesse, o trovador folk-rock de Omaha, depois Portland, Elliott Smith, faria 50 anos em 06 de agosto, ontem. Morto em 21 de outubro de 2003, o cantor e compositor americano se transformou numa das figuras mais misteriosas e interessantes da música pop da virada do milênio. Não por coincidência, dois de seus discos mais conhecidos foram relançados com faixas extras exatamente na data de ontem.

 

Elliott, que se chamava Steven Paul Smith, surgiu para um público maior quando participou da trilha sonora de “Good Will Hunting” (“Gênio Indomável”), dirigido por Gus Van Sant a partir de roteiro original escrito por Matt Damon e Ben Affleck, em 1998. A dupla de atores participou do elenco e ganhou notoriedade a partir do longa, também recebendo o Oscar de Melhor Roteiro Original. Smith, até então um artista obscuro, conseguiu uma surpreendente indicação para o Oscar de Melhor Canção Original, por “Miss Misery”.

 

Algumas faixas da trilha sonora do filme traziam pequenas belezas pop como “Baker Street”, de Gerry Rafferty e “How Can You Mend A Broken Heart”, com Al Green, além de boas faixas com The Waterboys, Luscious Jackson, Jeb Loy Nichols e The Dandy Warhols, mas é Elliott que tem o protagonismo com cinco faixas, a saber: “Angeles”, “No Name #3”, “Between The Bars”, “Say Yes” e “Miss Misery”. É importante lembrar que Smith era um artista folk dos mais alternativos, já tendo lançado até então três discos com pouca repercussão além dos subterrâneos da música noventista, ainda que fossem sensacionais, especialmente “Either/Or”, de 1997.

 

A falta de sorte veio na forma de um transatlântico. Concorrendo com Elliot estava Celine Dion, responsável pelo maior hit daquele tempo, “My Heart Will Go On”, tema de “Titanic”, que se tornaria a vencedora absoluta do prêmio naquele ano. A apresentação de Smith, no entanto, vestido com um paletó azul bebê e nitidamente desconfortável diante dos olhos de bilhões de pessoas ao redor do mundo, permanece como uma das mais audaciosas invasões ao sistema em todos os tempos. Poucos anos depois o uruguaio Jorge Drexler igualaria o feito, mas aí é outra história.

 

Esta aparição de Elliott Smith lhe rendeu um contrato com a gravadora Dreamworks, que fazia parte do conglomerado de Steven Spielberg e se materializou em dois álbuns: “XO”, de 1998, e “Figure 8”, de 2000. É o momento em que a música de Smith ganhou um foco maior e pode soar com produção mais abrangente e competente. Ele sai de seu elemento folk minimalista inicial e se abre para receber instrumentais próximos do que os Beatles fariam, se fossem convocados para atuar como banda de apoio nessas sessões de gravação. Não por acaso, algumas canções dessa fase se encontram entre o melhor que Elliott produziu, caso de “Baby Britain”, “Pitseleh”, “Son Of Sam”, “Independence Day”, entre outras.

 

Elliott Smith não era um cara alegre. Cheio de problemas sentimentais e existenciais, sua carreira refletiu sua introspecção e tristeza. Nem seu curto período de notoriedade musical à frente da chegada do novo milênio lhe rendeu alguma paz de espírito. Envolto em seu mundo cinzento, ele tiraria a própria vida em 2003, mas sua obra seguiu fascinante e pede por nova avaliação, agora talvez como a expressão de alguém que refutou fama e apego fácil em nome de uma existência livre. Quase como um Kurt Cobain silencioso.

 

Ouvir novamente seus discos – todos disponíveis nos serviços de streaming – tanto os póstumos como os regulares, mostra uma dimensão profunda de inadequação ao mundo. Lembra bastante um outro artista, igualmente tímido, igualmente morto precocemente: Nick Drake. Ouçam/conheçam/amem.

 

 

 

2+

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *