Iggy Pop – Free

 

Gênero: Rock alternativo
Faixas: 10
Duração: 33 minutos
Produção: Iggy Pop
Gravadora: Caroline

3.5 out of 5 stars (3,5 / 5)

 

Rapaz, eu não sou um fã dedicado do Iggy Pop. Respeito demais a figura do sujeito, acho que seu tempo com os Stooges é essencial para o rock garagista dos anos 1970 e gosto muito de suas colaborações com David Bowie, que ajudaram a remodelar as carreiras de ambos. E há alguns discos de Pop nos anos 1980 que são legais, especialmente “Blah Blah Blah” e “Brick By Brick”, que é de 1990. Dito isso, eu gosto quando ele emerge do nada, com álbums enlouquecidos, doidos, fora dos padrões que a crítica de rock espera que ele cumpra. Assim foi com “Avenue B”, de 1999. E com “Aprés”, de 2012. E “Free” chega para mostrar que Iggy quer ser livre. E que não lhe encham o saco.

 

Sendo assim, as dez faixas deste álbum são porradas de diferentes intensidades na multidão de millenials que babou sobre “Post Pop Depression”, o disco que ele gravou com produção de Josh Homme e sua galera do Queens Of The Stone Age. Aqui há espaço de sobra pra Iggy brincar com sua voz cavernosa e emprestá-la a várias canções pouco convencionais, além de abrir espaço para arranjos canastrões, que soam como exorcismos de bolso de suas influências esquisitas – para o fã mediano de rock entender – e, ao fim de tudo, ainda se sair com resultados ótimos em vários momentos. Segundo declarações oficiais, Iggy sentiu-se exausto depois da turnê que promoveu “Post Pop Depression” e, ao invés de descansar, veio o impulso criativo de fazer algo diametralmente oposto. E ele fez.

 

“Free”, a faixa-título, tem menos de dois minutos e se resume a Iggy declamando “I want to be free” a partir de um instrumental ambient, com participação do trumpetista de jazz Leron Thomas. A partir daí, tem início um passeio divertido e crocante por várias canções que só fazem brincar com limites estéticos e proporcionar diversão. Às vezes isso resulta em momentos ótimos. “Loves Missing”, por exemplo, é quase uma canção atual dos Pixies, mas com um pouco de freio no andamento. Funciona. Em seguida, “Sonali”, tem um arranjo que parece eletrônico, mas é muito sutil pra qualquer conclusão imediata. Tem uma bateria sintética que parece programada errada, mas que faz sentido. Teclados e guitarras amarram o todo e o resultado é luminoso.

 

“James Bond”, você já deve conhecer, foi o single do disco. É irônica até os ossos, brinca com os gêneros – “She wants to be your James Bond” – se vale de uma linha de baixo repetitiva para existir. “Dirty Sanchez”, por sua vez, é uma bobagem sobre uma posição sexual controversa, travestida com metais de plaza de toros, com coro de resposta e guitarras que vêm de lugares inesperados. Nem sempre a odisseia de Iggy funciona: “Glow In The Dark” é chatíssima e não vai a lugar nenhum; “Page” tem um instrumental belíssimo que é meio profanado pelo registro gravíssimo do nosso herói, soando como se fosse um Engelbert Humperdinck do mundo bizarro. “We Are The People” começa declamada e soa como se fosse um protesto “contra tudo o que aí está”, mas que parece pouco capaz de capturar a atenção do ouvinte médio. “Do Not Go Gentle Into That Good Night”, também com menos de dois minutos, é mais interessante, com arranjo que vai engolindo o vozeirão aos poucos. “The Dawn” é mais palavrório declamado sobre arranjo extravagante.
E fim.

 

“Free” é uma porralouquice muito bem vinda em tempos atuais. É um disco anti-cliques, anti-likes, é um troço doido e divertido em seus melhores momentos, mas chato até rachar o crânio quando quer. É Iggy Pop, que nunca foi unanimidade, nunca foi linear e nunca foi previsível. E isso é o que importa.

Ouça primeiro: “Loves Missing”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

2 thoughts on “Iggy Pop – Free

  • 11 de setembro de 2019 em 22:14
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    Opa, obrigado, Salvatore! Já aceitei lá. Eu gosto do Iggy em discos malucos, mas o Raw Power é clássico. Abração!

    0
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  • 11 de setembro de 2019 em 19:22
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    Parabéns, CEL, excelente texto sobre o doidaço “Iguana”rsrs . O primeiro contato que tive com a fera foi o álbum “Raw Power” com os Stooges de 73 se não me engano. Na época, lembro que detonei o vinil ( comprei no Museu do Disco ) de tanto ouvir e ensandecer a vizinhança rs. Valeu, abco do Salvatore ! Ps. Deixei uma sol. no seu Insta

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