Humberto Gessinger – Entrevista

 

 

Batemos um papo com Humberto Gessinger. Agenda ocupada com ensaios, preparação de repertório, shows e tudo mais mostra que o ex-Engenheiro do Hawai está com a carreira em movimento, ao contrário do que nos faz crer a mídia, que parece tê-lo esquecido.  Dentre as respostas sobre música, passado, presente e futuro, chama a atenção a que ele dá sobre a situação política do país: “nunca vi assim, tão sem esperança”. Leia abaixo.

 

 

 

– A sensação de lançar um disco novo ainda é a mesma de tempos atrás? Como você está se sentindo com “Não Vejo a Hora”?

Hoje é uma felicidade mais tranquila, sem muita ansiedade. Não faço um disco para substituir os outros, como os caras lançam carros e smartphones. Cada um é mais uma peça no mosaico que dialoga com as que já estão ali e com o espaço vazio das que virão.

 

 

– “Não Vejo a Hora”, mostra que você parece estar preocupado com a passagem do tempo. É isso mesmo?

Não é algo que me preocupe ou me chame especial atenção. Talvez pinte como tema secundário em alguns momentos. Acho que esta sensação existe mais por parte das pessoas a cada lançamento de um artista longevo. É natural, pois o mundo pop vive da ilusão de eterna juventude.

 

 

– No disco você definiu arranjos elétricos e outros, totalmente acústicos. Alguma razão específica? Algumas músicas era melhores de uma ou outra forma?

Estas duas facetas existem desde sempre no meu trabalho e agora eu decidi aprofundar, tendo um trio para cada uma delas.

 

 

– Com o tempo você enxugou algumas passagens mais roqueiras e abraçou um som mais próximo do folk. Rock ainda te entusiasma ou você acha que é um formato que passa por um esgotamento atualmente?

O termo rock ficou tão amplo que já sinto dificuldade de saber o que ele realmente expressa. Houve uma opção minha de trabalhar com guitarras mais limpas neste disco porque elas dão uma melhor leitura das harmonias. Mas não acho que perca a pegada. E o meu interesse não está em fazer um som leve ou pesado, quero fazer um som com dinâmica. Aí está, no meu ponto de vista a expressão sonora.

 

 

– Como funciona o seu processo de composição? Onde você se inspira para as letras?

Ao contrário da formatação dos dois trios, do projeto gráfico, etc… coisas nas quais fui bem rigoroso, na composição eu sou completamente anárquico. As músicas pintam quando e onde menos espero, às vezes falando de coisas que nem estavam presentes no lado racional do meu cérebro. Muito da música se constrói no inconsciente, eu acho.

 

 

– Você é um cara “respira música”? Que quando está em casa, ouve e faz música o tempo todo ou tem algum hobby?

Música 24h por dia, tocando ou ouvindo. Gosto muito de ler também. Por muito tempo joguei tênis, que era como yoga para mim, mas tive uma lesão no ombro (mais de 30 anos com um baixo pendurado no ombro cobra seu preço, né?) e tive que parar.

 

 

– O que você está achando do cenário atual do país? Já viu algo parecido?

Tão sem esperança, eu nunca tinha visto.

 

– Como você vê a questão do streaming? Funciona pra você como artista e fã de música?

Não entendo nada do lado negocial e financeiro disso… mas do ponto de vista da possibilidade de acesso imediato aos mais variados tipos de som, acho muito bom.

 

 

– Com todas essas facilidades digitais de acesso à música, você vê o seu público se renovando? Há novos e novíssimos fãs seus indo a shows?

Sim, há um público muito novo, pós EngHaw. E acho que meu trabalho ganha muito quando é analisado como um todo, num período maior de tempo. Nunca me considerei compositor de singles e sim de álbuns que dialogam entre si.

 

 

– Você é considerado um dos grandes compositores do rock nacional mas não tem a mesma visibilidade de gente como Capital Inicial, Titãs ou Paralamas. Ainda existe essa coisa de “longe demais das capitais” ou há outras razões para, por exemplo, você não estar num Rock In Rio desde 2001…

Acho que a culpa é minha mesmo, trabalhar para este reconhecimento imediato não é algo que me entusiasme. Com o tempo as fichas vão caindo e o resultado é mais forte.

 

 

– Você se apresentou na Oktoberfest, no Rio. Depois desse show, há uma turnê nacional para divulgar o novo disco?

Sim, o novo show estreou em POA e vamos ficar dois anos na estrada com ele.

 

 

– De todas as suas composições, qual aquela que você tem um carinho especial? (eu te digo a minha preferida: “Piano Bar”)

Tão difícil escolher uma! São tantas facetas… o baixista escolhe uma, o letrista outra, o cantor uma terceira, o produtor outra, o arranjador ainda outra… vou ficar devendo esta resposta.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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