Ford vs. Ferrari

 

A história é real: no início dos anos 1960, os Estados Unidos tinham seus campeonatos de velocidade – Indy, Nascar e outros – mas não desfrutavam de qualquer projeção internacional no automobilismo. O esporte era dominado totalmente pelos europeus, pilotos e equipes, com especial prevalência da Scuderia Ferrari naqueles tempos. Era o momento em que a geração nascida no pós-Segunda Guerra chegava ao mercado de consumo. E esta gente, então com 17, 18 anos, era a primeira que tinha grana no bolso e alguma paz para desfrutar. Esta era a primeira colheita do American Dream, aquele ideal de vida que foi plantado na mente dos americanos, dadas as circunstâncias históricas altamente favoráveis da época. Mas havia algo de errado com as montadoras, especialmente com a Ford, que estava vivendo maus momentos.

 

A solução – diagnosticada por sua equipe de marketing – era rejuvenescer o produto, conectá-lo com o jovem. Para isso, segundo a turma liderada por Lee Iacocca, seria necessário fazer uma equipe de automobilismo, para ser possível associar a montadora à velocidade e à juventude. É neste momento que a história deste ótimo “Ford Vs. Ferrari” se situa, o de redirecionamento da marca Ford, famosa dentro do país, mas associada a uma faixa etária careta e na qual os jovens jamais se veriam. Para criar uma equipe do zero, entra em cena o projetista Carroll Shelby (Matt Damon), o último piloto americano a vencer as 24 Horas de Le Mans, prova emblemática da categoria GT, a menina dos olhos das montadoras mundiais. Aposentado precocemente por conta de uma doença cardíaca, Shelby, como diríamos aqui no Rio, tinha a manha e conhecia os atalhos do campo. Ele recruta seu time de mecânicos e amigos e, para desenvolver o novo carro, convoca Ken Miles, piloto inglês que corre em ligas amadoras e sente os automóveis como prolongamentos do próprio corpo.

 

Com a desconfiança do patrão, Shelby e Miles recebem a batata quentíssima de desenvolver o mitológico Ford GT40, que se tornaria um ícone do automobilismo mundial em sua categoria. O filme, dirigido pelo competente James Mangold, de “Logan” e “Johnny & June”, equilibra muito bem o tom documental com o drama vivido pela dupla de protagonistas, que precisa sobreviver às armações do marketing, às rivalidades históricas e ao maravilhoso desafio de vencer a Ferrari, então comandada pelo sensacional Comendatore Enzo Ferrari.

 

Não é preciso ressaltar a habilidade de Christian Bale como ator. Apesar de um pouco além da conta, sua interpretação de Ken Miles oferece um personagem adoravelmente mal humorado, com a vida oscilando entre a obrigação de sustentar sua família e satisfazer sua paixão essencial, que é correr. Ídolo de seu filho Pete e marido atencioso de Molly, Ken é catapultado para a epopeia da Ford, no desenvolvimento do carro e do motor para competir com Porsche, Ferrari, Maseratti, Alfa-Romeu e outros gigantes da época. As imagens das pistas são de tirar o fôlego e dar tristeza por termos um automobilismo tão apegado à automação como hoje. Naquele tempo, eram verdadeiros heróis fazendo história.

 

A narrativa e o roteiro seguram bem o clima do filme ao longo das mais de duas horas de duração e pouco menos da metade dele transcorre em meio a edição de 1966 das 24 Horas de Le Mans. Aliás, tal fato me fez lembrar de um impressionante filme, estrelado por Steve McQueen, chamado, exatamente, “As 24 Horas de Le Mans”, que costumava passar nas Sessões de Gala da Globo dos anos 1980. Nele, McQueen vivia um piloto americano da Porsche.

 

Filme imperdível pra quem gosta de carros. Ou pra quem nem sabe dirigir, como eu.

 

Ford vs Ferrari

EUA, 2019.

De James Mangold

Com: Christian Bale, Matt Damon

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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