Gabriel O Pensador volta a lançar um álbum “cheio” depois de onze anos

 

 

 

 

Gabriel O Pensador – Antídoto Pra Todo Tipo de Veneno
46′, 12 faixas
(Independente)

2.5 out of 5 stars (2,5 / 5)

 

 

 

 

 

Há pouco estava no Facebook ponderando com amigos e colegas sobre Gabriel O Pensador ser um rapper. Ou ser um artista pop rock com forte influência do estilo americano canto-falado. Erro meu. Pouca importância tem isso num mundo tão globalizado e hipermidiático como o nosso. Gabriel, como qualquer artista, usa uma forma para veicular e expressar sua arte e, verdade seja dita, ele o faz do mesmo jeito há, pasmem, trinta anos. Não será por uma fidelidade social ou estética ao rap que ele será mais ou menos interessante ou relevante. Também não será por um suposto – e inexistente – compromisso com a mudança e a contemporaneidade, que ele o será. Gabriel é o mesmo em termos musicais. Faz letras imensas, às vezes interessantes, às vezes equivocadas. São letras que, quase sempre, induzem ao cansaço, à perda de interesse com o passar do tempo e isso talvez seja seu maior problema. Nos momentos de sua carreira em que foi mais interessante, foi ajudado por produtores musicais que manjavam o suficiente do assunto para fazê-lo soar menos cansativo, a saber, Liminha e Fábio Fonseca. Quando não teve essa assistência, Gabriel soou apenas cansativo.

 

 

Este é o caso deste novo álbum, “Antídoto Pra Todo Tipo de Veneno”, que ele lança agora nas plataformas digitais. Soa enorme, verborrágico e cansativo. Com alguns problemas surgidos com o passar do tempo. Gabriel, 49 anos, sempre pegou emprestado um cacoete do rap, no caso, a auto-exaltação. Sempre se viu como um agente do caos, uma figura antissistema, alguém que deveria ser temido pelo establishment. Agora, trinta anos de carreira nas costas, essa postura foi turbinada por uma pose de alguém que colhe louros e glórias pelo tempo transcorrido. É um tal de exaltar que já viajou, que já veio e foi, que já cantou aqui, ali, que passou por vários momentos, todos superados, que conquistou e venceu. É quase uma palestra de como ser bem-sucedido na vida, fazendo o que se gosta e quer. Tudo bem, é legítimo, de fato, uma carreira de trinta anos o levou a fazer parte de um time privilegiado de artistas brasileiros, com penetração na mídia, contrato com grande gravadora, projeção, enfim, sucesso. O álbum tem nesse mote o seu fio condutor, mostrar alguém que, do alto de sua posição, brinda o ouvinte com suas análises de conjuntura.

 

 

Para tal, Gabriel tem a ajuda de um monte de “feats”. Tem Lulu Santos, que o ajuda a ressuscitar personagens do passado em “Cachimbo da Paz 2”; tem Gustavo Black Alien em “Nunca Tenha Medo”, praticamente um workshop motivacional em forma de música; tem o gaúcho Armandinho (aquele do “Desenho de Deus”, lembra?) em “Liberdade”, usando a conexão com o reggae para uma onda meio Jack Johnson. Tem também Helio Bentes, da banda carioca de reggae Ponto de Equilíbrio, numa canção “Burn Babylon”, como se ele e Pensador fossem botar pra quebrar dentro da cidade grande que cresce e engole a tudo e todos. E, falando em Jack Johnson, tem outro surfista-músico presente, no caso, o americano Makua Rothman, que participa de “Obrigado Mar Por Tudo Isso”, uma elegia ensolarada sobre a proximidade com o oceano e os benefícios do surf diante do estresse. E tem canções em que ele surge sozinho, boas (“Giro”), as médias (“Firme e Forte”) e as ruins, caso da interminável “Topo do Mundo/Fundo do Poço”.

 

 

Gabriel tem referências, tem jeito inegável com as palavras e o mérito de ter introduzido um monte de gente aleatória ao rap, lá nos anos 1990. Pelo menos, a traços do estilo, aqui e ali, mas, como dissemos, isso não faz muita diferença depois de tanto tempo. Hoje os moleques vão atrás de artistas do trap, que falam mais facilmente, num esquema mais guerrilheiro e adequado às suas demandas e realidades. Quem sobra para ouvir as canções do sujeito? Pessoas de sua geração o ouvirão com a mesma atenção dos anos 1990? Seria sensacional que Gabriel, usando o cacife artístico de seus trinta anos de carreira, mergulhasse num álbum em que explorasse essas novas sonoridades traps, que experimentasse com samplings, que desse atenção à música. Do jeito que estas canções novas foram pensadas e gravadas, elas não estão muito longe do que fazem artistas como Natiruts, CPM22 ou, sei lá, Planta e Raiz. Se isso não é problema pra você, vá fundo.

 

 

Ouça primeiro: “Giros”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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