Flaming Lips e Nell Smith lançam um dos discos mais legais do ano

 

 

Nell Smith And Flaming Lips – Where The Viaduct Looms

Gênero: Rock alternativo

Duração: 37 min.
Faixas: 9
Produção: Flaming Lips e David Fridmann
Gravadora: Bella Union

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

 

Pense nesta situação: menina de 14 é fã dos Flaming Lips e comparece a vários shows da banda, vestida de … papagaio. Consegue ganhar a atenção do líder do grupo, Wayne Coyne, que se torna amigo dela e de sua família. O tempo passa e Coyne passa a incentivar a educação musical da menina que, por sua vez, já canta e compõe. Desta curiosa parceria, num espaço de três anos entre idas, vindas, medos, covid e tudo mais, Nell Smith e Flaming Lips acabam lançando um disco incomum, este “Where The Viaduct Looms”, composto por nove versões de canções originais de … Nick Cave. E por que o bardo australiano? Ora, porque como é próprio da tal geração Z, Nell não tinha a menor ideia de quem era aquele artista do século passado – mas que, por sua vez, também é extremamente atual. Enfim, o que conta é que Coyne queria dar para a menina uma obra de alguém totalmente desconhecido dela, para que as interpretações resultantes não fossem viciadas ou corrompidas. O resultado é muito legal.

 

 

É muito legal, sobretudo, porque Nell – nascida na Inglaterra, residente em Calgary, no Canadá – tem uma ótima voz e não comete os cacoetes irritantes da jovens cantoras atuais. Seu registro vocal é espontâneo e casa muito bem com os arranjos que os Lips elaboraram, sempre lembrando que a banda de Oklahoma tem fluência suficiente para este tipo de projeto, tanto de versões quanto de servir como acompanhante de vozes femininas jovens. Basta lembrar as versões que o grupo já fez para clássicos dos Beatles e do Pink Floyd, além de sua colaboração com Miley Cyrus há alguns anos. Ou seja, tá todo mundo em casa por aqui.

 

 

As nove canções de Cave soam completamente diferente com uma voz tão límpida e pura como a de Nell. Quase a ponto de perderem o sentido original e adquirirem uma dimensão de sonho/delírio. A produção do álbum, a cargo da banda e do velho colaborador David Friedmann, emula a psicodelia habitual dos sujeitos mas abre mão de viajar loucamente, soando muito próxima dos trabalhos recentes dos Lips, especialmente de “Oczy Mlody” e “The Terror”, álbuns que tinham a melancolia como fio condutor da parte musical. Aqui esta estratégia funciona perfeitamente e dá uma dimensão a mais para que, em alguns momentos, as faixas soem como se fossem produzidas por um hipotético Phil Spector do século 21, novo e jovem, mas com a mentalidade maluca a conduzir suas ações.

 

 

Esta abordagem nova e surpreendente funciona muito em momentos como “Into My Arms”, faixa que Cave lançou originalmente em 1997, no álbum “The Boatman’s Call”. Os efeitos de fundo povoam a canção de sons estranhos e o instrumental é triste mas evolui com a graça de uma pequena valsa na neve. Já em “O Children”, a interpretação de Nell e o arranjo dos Lips praticamente miram o original, lançado em “Abbatoir Blues/The Lyre of Orpheus”, de 2004, que tem a interessante característica de ter sonorizado uma cena em … “Harry Potter e as Relíquias da Morte”. E o momento mais pungente, provavelmente, é “No More Shall We Part”, faixa-título do álbum de 2001 de Cave, aqui também recebe um tratamento fiel ao clima soturno do original. E o resultado é maravilhoso com a voz de Nell, contrariando gentilmente a tristeza do registro de Cave. E tem a lindeza de “Red Right Hand”, com uma surpreendente leitura com ventos, guitarras e uma levada de bateria que evoca o original, de “Let Love In”, de 1994.

 

 

“Where The Viaduct Looms” é um desses discos que são fruto de uma mentalidade jamais norteada por princípios puramente comerciais/lucrativos. É um exercício de beleza e gentileza, gerando uma chance única de ouvintes e neófitos se juntarem nesta viagem impressionante de Nell Smith, a menina que era fã e cantou com seus ídolos. Bacana.

 

 

Ouça primeiro: “No More Shall We Part”, “O Children”, “Into My Arms”, “Red Right Hand”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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