Pareço legal mas gosto de Bush

Bush – I Beat Loneliness
47′, 12 faixas
(Edel Music)
(4 / 5)
Gente, jornalismo musical é confiança. Aliás, qualquer jornalismo é, ou deveria ser. Dessa forma, venho confessar algo a quem me lê aqui, na Célula Pop e, vá lá, me acompanha há mais tempo: eu gosto de Bush. Sim. Sei que é algo que pode se inserir no esperto e cool ról dos “guilty pleasures” mas, não. Eu realmente acho legal. Tenho na minha playlist “CEL Songs”, no Spotify, duas canções antigas do grupo – “Swallowed” e “Greedy Fly”. Acho pesadas, tensas e com uma felicíssima combinação entre peso e pop. Ambas são do segundo disco do Bush, “Razorblack Suitcase”, lançado há quase trinta anos. De alguma forma obscura e obtusa, o som do Bush envelheceu mas permaneceu. Pelo menos é o que acredita o frontman Gavin Rossdale, um canastrão vaidoso, que nunca escondeu de ninguém que sua ideia era chupinhar o terreno fértil aberto pelos vocalistas roucos e de registro grave de Seattle, Eddie Vedder à frente. Ele continua fazendo a mesma coisa, com um pouco mais de rouquidão advinda do tempo transcorrido. E o som, como eu disse, é a mesma coisa, porém, há algumas diferenças. É o que vou tentar explicar falando do novíssimo álbum dos caras, “I Beat Loneliness”.
Hoje, 2025, o Bush tem quase cinco milhões de ouvintes no Spotify e algumas de suas gravações mais famosas, noventistas, têm mais de 200 milhões de audições e isso totaliza mais de UM BILHÃO de streams. Em 2020 a gente resenhou “The Kingdom”, o álbum que a banda lançava e apontávamos uma das razões para sua sobrevida: o guitarrista Chris Traynor que, entre outras atribuições ao longo da carreira, já tocou numa excelente banda, o Helmet. A ideia deles era complicar um pouco o rock pesado alternativo, tornando-o mais cerebral e esquisito. Deu relativamente certo. O fato é que a guitarra de Traynor faz a diferença justo porque é capaz de se adaptar à estética bushiana que pouco ou nada mudou desde os anos 1990, a saber, guitarras pesadas, onipresentes, fornecendo peso e clima para a voz de Rossdale passear por letras angustiadas. Aliás, o Bush desenvolveu-se bastante no setor lírico, incorporando uma interessante preocupação existencial e traços de engajamento pelo meio ambiente, nada muito cabeçudo, até porque, esse não é o terreno em que o grupo se move.
Sendo assim, “I Beat Loneliness”, este novo álbum, é um ramalhete de canções oprimidas, sufocadas, cantadas com certa sofreguidão, que cronificam a nossa miséria pessoal/social/existencial. Tem clichês, claro, como o cara que se olha no espelho e pergunta para si mesmo de onde veio, para onde vai, a quem ama, a quem detesta, que fantasmas são presentes em sua vida e por aí vai. Essa é “Scars”, a faixa de abertura, que alterna climas lentos e levemente eletrônicos (um tique que o Bush sempre teve e que ainda tempera suas canções) com porradaria mais crua. É só o início de um álbum que tem consistência e funciona melhor que muita bandinha que faz sucesso por aí. A faixa-título é puro anos 1990, começando reptícia e avançando a passos lentos sobre o terreno do caos individual em meio a uma selva urbana de injustiça e crueldade. No meio do caminho, a solidão surge como um inimigo a ser batido e lá estão Rossdale, sua voz, teclados e guitarras para enfrentar tudo isso. É canastrice genuína, mas dá pra gostar do trabalho de guitarras e de um teclado épico que surge por trás dos escombros.
“The Land Of Milk And Honey” é mais dinâmica, com bom trabalho de bateria e samples discretíssimos, que vão compondo um crescendo explosivo. Novamente guitarra e teclados conjugam bem o refrão em que Rossdale rima “honey” com “money”, mas ninguém se importa muito porque Traynor consegue erguer uma barreira espessa de guitarras ao longo do refrão que enfatiza um “fucked up system” para se referir ao mundo de hoje. Outra canção bacana é “I Am Here To Save Your Life”, essa sim, totalmente noventista e com pinta de que saiu do segundo disco dos caras, lá de 1996. É legal, tem clima de Rossdale cantando enquanto foge de alguém no meio de uma rua escura e estranha. “We Are Of This Earth” tem aquela lenga-lenga de conscientização sobre nosso papel no mundo e como isso vai decidir nosso futuro, mas o arranjo é bacana, com batidas ocas e eletrônicas esparsas e Rossdale tentando aproximar a angústia bushesca de um invólucro meio baladeiro. O efeito é legal. Por fim, a nossa preferida, “Footsteps In The Sand”, a mais eletrônica de todas, com batidas sintéticas, percussão robótica e assaltos de guitarra que surgem de onde não se espera.
Bush é manjado. Não faz muito bem à saúde. É como aquela coxinha da padaria da esquina – gordurosa e pesadona – que comemos com muita parcimônia, mas que, quando o fazemos, ela desce macia. Não é pra ser levado a sério, longe disso, mas isso aqui tem atrativos inegáveis. Pelo menos assim me parece.
Ouça primeiro: “Footsteps In The Sand”, “I Am Here To Save Your Life”, “We Are Of This Earth”, “Scars”, “The Land Of Milk And Honey”,

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
