Eu vi Crosby, Stills & Nash ao vivo no Rio

 

 

Estamos todos consternados com a morte de David Crosby hoje, dia 19 de janeiro de 2023. Sendo assim, para matar a saudade, vamos relembrar do único show que fizeram no Rio, em 13 de maio de 2012. Era uma miniturnê brasileira, com o trio se apresentando em São Paulo e Belo Horizonte. O show foi tão importante e intenso, que merece ser lembrado. Hoje e sempre.

 

 

Em 29 de maio de 1969, Crosby, Stills e Nash lançavam seu primeiro e clássico disco, cuja capa mostra o trio num sofá. Era a união de três pessoas bastante celebradas do rock norte-americano, mais precisamente do rock californiano, mesmo que Nash fosse inglês. Todos eram donos de passados gloriosos: Crosby era ex-integrante dos Byrds. Stills, um ex-Buffalo Springfield e Graham Nash, outrora membro dos Hollies. A primeira música deste disco clássico, “Suite: Judy Blue Eyes”, foi o encerramento do show que estes três senhores proporcionaram ao público carioca num domingo inesquecível. Corrigindo uma lacuna inexplicável de 43 anos, CS&N estiveram numa mini-turnê brasileira, passando por São Paulo, Belo Horizonte e fechando com o Rio.

 

 

A canção, de autoria de Stills, cartão de visita da participação no Festival de Woodstock, abria o disco homônimo de 1969, mostrando o traço principal e atemporal do trio: as harmonias vocais. Impressionante ver que eles, em torno dos 70 anos de idade (Crosby e Nash já bateram no 7.0; Stills tem 67), ainda são capazes de sustentar um show com duração superior a duas horas, usando as vozes da maneira que usam. Como na última canção do show, por coincidência, a primeira a ser ouvida no disco e a se tornar hit há 43 anos, para mostrar o quanto o tempo é relativo.

 

 

É possível apostar que será muito difícil o país ver um show tão intenso e tão cheio de referências ao rock’n’roll de tempos idos. Ver aqueles senhores no palco, pensar na militância que fizeram – e fazem – em suas carreiras, algo que deixa malas como Bono Vox no status de escoteiro, é pensar em como dá pra imaginar a figura do revolucionário como sendo um senhor de idade. Geralmente associamos a figura do empreendedor de grandes mudanças ao jovem, aquele que sai pra rua, oferece sua cara ao desconhecido e muda as coisas.

 

 

Esse jovem, se tudo der certo, envelhecerá, dono de uma sabedoria infinita. É o que parece caracterizar Crosby, Stills e Nash. Já viram de tudo, estiveram no palco de Woodstock, foram e vieram, usaram todos os tipos de drogas, cantaram contra o racismo, a fome, a incompreensão, a Guerra do Vietnã, cantaram sobre o amor de irmão, de homem e mulher, de compatriotas. Causas e temas que realmente importam, que mudam as coisas, de fato. Esta impressão permanece ao longo do show. Da abertura incendiária com “Carry On/Questions”, passando pelo libelo anti-racismo de “Southern Cross” e a brejeirice de “Marrakesh Express”, era evidente que o trio vinha disposto a tirar o atraso de tanto tempo. A platéia era um show à parte.

 

 

Formada eminentemente por quarentões e cinquentões, entre eles, o guitarrista Roberto Frejat e o Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, eles receberam o trio com uma reverência constante, aplaudindo quase sempre de pé as canções. Exceto por “Jesus From Rio”, do disco lançado em 2004 por Crosby e Nash, e “Almost Gone”, da lavra recente de Nash, o que se viu/ouviu foi um desfile de clássicos do calibre de “Long Time Gone”, “Bluebird”, do Buffalo Springfield, banda que deu ao mundo Stills e Neil Young, “Deja Vu”, canção-título da colaboração com Young em 1971, a interpretação cortante de Crosby em “Guinnevere” e a celebração acústica de “Helplessly Hoping”.

 

 

Ainda marcaram presença no setlist a canção de amor de Nash para Joni Mitchell, “Our House”, o testemunho de vida de Crosby em “Almost Cut My Hair”, o hit de 1977 “Just A Song Before I Go” e o balanço do mundo em “Wooden Ships”. Destaque também para a cover pungente de “Girl From The North Country” (Bob Dylan), as luminosas “Teach Your Children ” e “Love The One You’re With” e as inesperadas “Cathedral”, canção psicodélica de Nash sobre uma viagem de ácido na famosa Winchester Cathedral em Londres, e “Woodstock”, de Joni Mitchell, não executada em São Paulo. Se a voz de Stills já não é a mesma, ele compensa com sobras ao tirar sonoridades cortantes e blueseiras de sua guitarra. Lembra o estilo de Neil Young, quando está à frente do Crazy Horse, só que ainda mais melodioso.

 

 

Tudo isso nos leva de volta ao último bis, quando o trio retorna ao palco para executar “Suite: Judy Blue Eyes”, cuja vocalise final era cantada pela platéia suplicante. Ali, no palco, essa entidade mítica que pode estar em qualquer lugar, aqueles sujeitos voltam no tempo, dançam, têm visões, lembram, pensam o futuro, ou, simplesmente curtem ao máximo o grande barato de ser um arquiteto do rock: receber o carinho e admiração de tantos outros, cujas vidas foram modificadas pela música que eles fizeram, não fazendo qualquer diferença se foi em 1969 ou 2969. Naquela hora, todos, músicos e platéia, estão no palco, juntos. E isso, gente, é um show de rock. Escolha o seu e sinta o mesmo.

 

 

Dívida de 43 anos paga. Agora ainda faltam Simon & Garfunkel, Eagles…

 

Texto originalmente publicado no Scream & Yell, neste link aqui.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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