Em tempos de Bolsonaro, Olhar pro Sudão é um Alento — A Visão de um Arqueólogo em Campo

 

 

O mundo parece estar de cabeça pra baixo e a ignorância conseguiu tomar o poder. Trumps, brexits, bolsonaros… tudo isso dá um desespero danado. Mas esse mesmo mundo aonde os ignorantes habitam também pode nos dar a esperança de que o progresso ainda é possível. Especialmente para nós brasileiros, que elegemos um protótipo de ditador para o cargo mais importante do país, poder acompanhar o que acontece agorinha no Sudão pode nos dar forças para seguir adiante, afinal, não é todo dia que se derruba um ditador sanguinário.

Eu sou egiptólogo, e foi a partir daí que eu comecei a me envolver com o Sudão. Eu comecei a fazer pesquisas acadêmicas sobre o Egito lá em 2010. Em 2012, pela primeira vez, eu fui ao Egito participar de um escavação arqueológica e desde então volto todo ano para fazer meu trabalho de campo entre múmias e sarcófagos. Mas o que isso tem a ver com o Sudão? No século 14 antes de Cristo os egípcios antigos dominaram e colonizaram a região da Núbia, que fica em sua maioria no que é hoje o Sudão. Minha atual pesquisa de doutorado investiga milhares de objetos encontrados em tumbas de colonizadores egípcios e núbios nativos que viveram no Sudão na Antiguidade (já escrevi sobre isso no Café História). Em 2018, eu me tornei parte da equipe da Universidade de Nova Iorque que escava um templo do faraó Taharqa no norte do Sudão, e foi assim que dei de cara com um país incrível e cheio de história, e com pessoas maravilhosas que construíram uma cultura riquíssima. E para melhorar a situação, essas mesmas pessoas acabaram de derrubar seu ditador de 30 anos!

Para quem não sabe, desde dezembro do ano passado os sudaneses estão nas ruas da capital Khartum e de outras cidades pelo país, inicialmente protestando contra o aumento no preço do pão e a piora da qualidade de vida. Logo depois os protestos se fortaleceram e passaram a exigir o fim da ditadura de Omar al-Bashir.

Durante a minha última ida ao Sudão em dezembro de 2018 eu senti o clima de mudança, mas também de apreensão. As pessoas estavam começando a ir às ruas, mas estavam sendo surrealmente assassinadas pela repressão de Bashir. Muitos jovens revolucionários foram mortos nas ruas de Khartum, mas logo tornaram-se mártires, dando ainda mais força aos movimentos sociais que clamavam pelo fim da ditadura. Eu pude ver de perto os protestos em Khartum e em Karima—cidade do norte do país onde vivemos nos meses de escavação. Permitam-me dizer, mas os sudaneses dão um banho nos brasileiros de hoje. Vão às ruas em peso, de forma pacífica, e nem mesmo as barbaridades da repressão conseguiram segurar a força do povo. Na linha de frente, jovens, estudantes e profissionais cujas entidades de classe organizam as manifestações. E o melhor: mulheres, donas de casa, universitárias, pensadoras e representantes de suas tradições locais.

No Sudão, nosso projeto emprega homens da localidade para nos ajudar com o trabalho pesado de escavação, e uma família liderada por irmãs viúvas que nos alimentam e guardam nosso material. Os que trabalham conosco são em sua maioria jovens, vários dos quais participaram de protestos contra a ditadura. Cursam engenharia, administração e outros cursos em universidades sudanesas e o trabalho temporário em escavações ajuda com as despesas. Fazer arqueologia, aonde quer que seja, significa causar um impacto social. Mas neste caso, o impacto mais poderoso foi o que meus ajudantes de escavação causaram em mim, um brasileiro desiludido com o próprio país que elegeu um bolsolixo.

Hoje, os sudaneses conseguiram derrubar seu ditador, mas a sua luta continua. Outro dia o The Guardian disse que o exército sudanês derrubou o ditador—que feio, na verdade foi o povo! Agora mesmo uma junta miliar ocupa o poder e prometeu passar o governo aos civis em dois anos. Mas os sudaneses não são bobos, foi numa dessas que o Brasil viveu 21 anos de ditadura militar! A revolução sudanesa ainda está em curso, o povo continua nas ruas exigindo a saída imediata dos militares do poder—os mesmos militares que sustentaram por 30 anos uma ditadura das mais sanguinárias. Esperemos boas notícias do Sudão em breve. Mas, nesses tempos bolsombrios,  eu tenho as minhas dúvidas se a mídia brasileira vai querer noticiar a derrubada de uma ditadura e uma revolução…

Twitter: @lemossrennan

 

Foto: Rennan Lemos

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Rennan Lemos

Rennan Lemos é carioca, faz doutorado em arqueologia em Cambridge, e escava no Egito e no Sudão.

One thought on “Em tempos de Bolsonaro, Olhar pro Sudão é um Alento — A Visão de um Arqueólogo em Campo

  • 26 de novembro de 2019 em 10:40
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    ESTÁ ÓBVIO QUE O GOVERNO ANTERIOR PAGOU SUAS DESPESAS SEM QUESTIONAR SEUS MÉRITOS…
    Conheçi menina de 17 anos que foi estudar odontologia nos USA porque se amasiou com um diretor sindical do PT.
    Tomou o lugar de quem estudou duramente, e TEVE MÉRITOS mas ,foi preterido.
    Se nosso presidente é ditador,foi colocado lá PELA DITADURA DO VOTO DEMOCRÁTICO.
    CONTINUE EXPLORANDO TRABALHO ANÁLOGO À ESCRAVIDÃO DOS ESTUDANTES EM SUAS ESCAVAÇÕES NO SUDÃO.
    Muitos deles são mais qualificados do que você, tenho certeza!

    Para pestistas como você,pobre de país subdesenvolvido só serve para ser explorado.

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