Elvis Costello e a Guerra das Malvinas

 

 

Eu costumava ser um nerd de aviões lá pelos meus doze, treze anos de idade. Explico: meu avô era Coronel da Aeronáutica e me contava várias história dos tempos de piloto na Segunda Guerra Mundial. Ele era um dos encarregados do patrulhamento da costa brasileira durante o conflito e pilotava um bombardeiro B-25, adaptado para a função. Depois, ainda com ele, vi um filme do Clint Eastwood, chamado “Firefox – A Raposa de Fogo”, no velho cinema Rian, aos dez, onze anos de idade. Pronto, o estrago já estava feito. Por essas e outras, quando estourou a Guerra das Malvinas, em 1982, eu era um conhecedor razoável dos aviões envolvidos no conflito e isso era, bem, era legal. Não demorou muito para perceber o tamanho da brutalidade da guerra e seu impacto, tanto para argentinos, quanto para ingleses. Como a música ajuda a entender tudo e é uma ferramenta maravilhosa para explicar a história, cabe aqui falar de uma canção que mostra dois aspectos do conflito: o emprego, que surge da demanda do front e a saudade/medo dos familiares que partem para, quem sabe, nunca mais voltar. Elvis Costello fala disso em “Shipbuilding”.

 

A Argentina vivia sob ditadura sanguinária, que fizera várias vítimas ao longo dos últimos anos. O país mudara da presidência do general Roberto Viola para uma Junta Militar, chefiada por Leopoldo Galtieri que, num esforço desesperado para legitimar o governo e conseguir alguma reversão na caótica situação econômica do país, lançou os argentinos num conflito contra a Inglaterra. O motivo? A celeuma em torno das Ilhas Falklands, conhecidas pelos argentinos como Malvinas, velho caso de disputa territorial entre os dois países ao longo dos anos. Milhares de soldados argentinos ocuparam as ilhas e tomaram a capital, Port Stanley, e a nomearam Puerto Argentino.

 

Do outro lado do oceano, Margaret Thatcher advertiu várias vezes o ditador argentino e, como era do mesmo nível do rival, lançou uma força-tarefa ao mar, com o objetivo de retomar as ilhas. Era guerra. Era inacreditável, mas estava no noticiário. Não é preciso dizer que foi uma carnificina e que os ingleses saíram vencedores. Os navios argentinos e os poucos aviões da Fuerza Aérea Argentina não foram páreo para os impressionantes Sea Harriers, que pousavam e decolavam verticalmente. Mesmo assim, os argentinos fizeram seus estragos, especialmente através do uso dos mísseis Exocet, lançados de aviões Super-Etandard, peças modernas de tecnologia militar francesa. Afundaram fragatas britânicas, com várias mortes.

 

A canção de Costello fala sob o ponto de vista britânico, claro, mas com um olhar muito mais preocupado com a real situação do país naquele início de década de 1980. Thatcher e sua política neoliberal estavam devastando os empregos do país, acabando com salvaguardas sociais estatais e arremessando multidões no desemprego. Com o anúncio do conflito e a partida da força-tarefa britânica, os estaleiros – shipyards – do norte do país e da Irlanda do Norte, especialmente na capital, Belfast, foram reativados e a demanda por mão de obra cresceu. Ao mesmo tempo, as famílias inglesas viam seus jovens partirem para uma inacreditável guerra, num lugar distante, para defender um pedaço de terra, em nome de uma mulher que tirava os empregos da família, contra um ditador sul-americano sanguinário. Não era o melhor dos motivos, claro.

 

A canção foi composta em parceira com Clive Langer, que escreveu a melodia. A letra de Costello é implacável no sentido de perguntar qual o valor do esforço pela guerra. De que vale a prosperidade se a vida está em risco. Qual o motivo da prosperidade? E do risco?

Is it worth it?
A new winter coat and shoes for the wife
And a bicycle on the boy’s birthday
It’s just a rumour that was spread around town
By the women and children
Soon we’ll be shipbuilding

Well, I ask you
The boy said “dad, they’re going to take me to task
But I’ll be back by Christmas”
It’s just a rumour that was spread around town
Somebody said that someone got filled in
For saying that people get killed in
The result of this shipbuilding

With all the will in the world
Diving for dear life
When we could be diving for pearls
It’s just a rumour that was spread around town
A telegram or a picture postcard
Within weeks they’ll be re-opening the shipyards
And notifying the next of kin

Once again
It’s all we’re skilled in
We will be shipbuilding

With all the will in the world
Diving for dear life
When we could be diving for pearls
It’s all we’re skilled in
We will be shipbuilding
With all the will in the world
Diving for dear life
When we could be diving for pearls
When we could be diving for pearls
When we could be diving for pearls

 

“Shipbuilding” foi gravada por Robert Wyatt em 1982, mas Costello a registrou em 1983, em seu disco “Punch The Clock”, num arranjo de piano, baixo e bateria, com a participação de ninguém menos que Chet Baker no trumpete. “Shipbuilding segue como uma das mais belas e sérias canções anti-guerra de todos os tempos. E, como os próprios conflitos, não deve ser esquecida.

 

Em tempo: a Guerra das Malvinas durou dois meses e meio e nela morreram cerca de mil militares, entre ingleses e argentinos. Cerca de dois mil foram feridos, dos dois lados.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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