Caetano Veloso surge de surpresa com novo disco

 

 

O antigo compositor baiano, assim como dizia Belchior, não para. Sem aviso prévio, Caetano Veloso ressurge num delicado álbum gravado em parceria com o clarinetista baiano Ivan Sacerdote, no qual ele recria nove composições suas com a intenção de fazê-las sob medida para que Sacerdote as pontue gentilmente com intervenções de seu instrumento. Moreno Veloso, Mosquito e Cezar Mendes completam a escalação dos envolvidos no álbum.

 

Batizado como “Caetano Veloso e Ivan Sacerdote”, o disco tem um espectro sonoro que abrange como ponto de partida uma canção emblemática de Caetano, a maravilhosa “Trilhos Urbanos”, lançada em 1979, no disco “Cinema Transcendental”. É a mais antiga composição presente no álbum, que dá o tom familiar à empreitada, sendo composta por uma letra que desfila reminiscências caetânicas de sua terra natal, Santo Amaro. A partir daí, as canções vão inserindo temas e escopos mais gerais, abrindo as possibilidades. Certamente o movimento é intencional, uma vez que um dos charmes maiores da obra de Caetano é a habilidade de falar de recortes geográficos pessoais e afetivos, mas também de impressões cosmopolitas bem maiores.

 

Um ótimo exemplo disso é “Peter Gast”, uma faixa magistral de seu disco “Uns”, de 1983, que ressurge num arranjo econômico, quase joãogilbertiano, fazendo muito mais sentido do que o original. E surgem outras canções na mesma condição – obscuras por esquecimento, mas maravilhosas por natureza – caso de “O Ciúme”, de 1987, até hoje uma das letras mais inspiradas que Caetano compôs. Também ressurge “Aquele Frevo Axé”, gravada originalmente por Gal Costa em 1998, mas reapropriada por Caetano recentemente, tornando-se uma favorita de shows. Completam a lista duas faixas de “Livro”, álbum de 1997 – “Manhatã” e “Minha Voz Minha Vida” -, “Você Não Gosta de Mim” (de “Muito Mais Caetano”, de 2005″, “Onde O Rio É Mais Baiano” (de “Prenda Minha”, gravado em 1998) e a clássica “Desde Que O Samba É Samba”, lançada por Caetano e por Gil em 1993, em “Tropicália 2”.

 

Os registros são luminosos, econômicos e muito bonitos. A ideia não é comparar com os registros originais, mas, como são bossas, sambas e choros de peso levíssimo, elas servem para Sacerdote se apropriar gentilmente de muitas delas. Sua participação em “Trilhos Urbanos” é linda, acrescentando um solo magistral à melodia. Em “Onde O Rio …”, ele pontua o andamento em tom de samba e surge como um veterano instrumentista das velhas rodas de samba cariocas perdidas no emaranhado do tempo.

 

Caetano, a quem muita gente gosta de se referir como vaidoso, emprestou seu repertório e referendou com participação este disco para que Ivan Sacerdote se apresentasse. O resultado é uma celebração à meia-voz, algo afetuoso e digno de um padrinho em relação ao afilhado. Beleza e antídoto para tempos tão cruéis.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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