Dance Mix : remixes brasileiros dos anos 1980

 

 

Quando olhamos para os anos 1980 e a produção de música brasileira da época, uma confusão muito frequente tem lugar. O que era pop e o que era rock? Fica ainda mais complicado definir e separar as canções e discos em caixinhas compartimentadas porque, em muitas vezes, as fronteiras entre os gêneros foram borradas por iniciativas como a coleção Dance Mix, lançada pela gravadora CBS, entre 1985 e 1986. Foram três álbuns que continham versões modificadas e mexidas por DJs, numa prática que remontava à Disco Music setentista americana e a estilos de música negra, como o funk e o reggae. Estas técnicas – remix, faixas aumentadas, versões instrumentais, dub etc – nasceram da adversidade e da falta de grana, que levava produtores e donos de pequenas gravadoras a economizar o pagamento de músicos em futuras gravações com versões adaptadas de sessões já realizadas. Daí entrava a inventividade de gênios como Lee Scratch Perry e outros produtores jamaicanos e descendentes de caribenhos, radicados nos Estados Unidos. Foram eles que inventaram essas leituras novas, que acabaram gerando novos estilos e impulsionando esteticamente outros, como a música eletrônica. Deu no que deu.

 

Aqui no Brasil o remix era algo novo e que estava chegando aos bailes black da época, vivendo transição entre o funk-disco dos anos 1970 e o nascente hip-hop e suas variantes, mas ainda era algo embrionário. Para agradar um público que vinha crescendo em frente ao rádio, as gravadoras, no caso, a CBS a princípio, tiveram a ideia de investir no remix de artistas que já eram sucesso nas paradas pop. Quando o primeiro volume da série Dance Mix foi para as lojas, ainda em 1985, trazia um tracklist seguro e bem sucedido por conta do desempenho obtido nas paradas. A escolha recaía sobre os integrantes do cast da própria CBS e acentuava essa mistura entre pop e rock da qual falamos lá em cima. Guilherme Arantes, Metrô, Léo Jaime, Ritchie, RPM, Dominó e Fagner. Com um total de oito faixas, o primeiro Dance Mix apresentava versões longas e remixadas por nomes como DJ Grego, DJ Silvinho e Julinho Mazzeo, além de Iraí Campos, sendo este último um futuro produtor de canções do funk brasileiro.

 

Estes remixadores eram, na verdade, produtores e engenheiros de estúdio, que já acumulavam várias horas de estúdio e familiaridade suficiente com o naipe diversificado de artistas, que era capaz de mexer com muita habilidade nas canções. Este primeiro volume tem algumas pequenas pérolas, como, por exemplo, o remix de “Telenotícias”, uma canção de segundo escalão na obra de Ritchie, que ganhou luz nova e brilhante. A versão de “Deixa Viver”, um sucesso pop de Fagner, também é muito legal, levando em conta que a gravação original já usava de vários elementos tecnológicos advindos da modernização dos estúdios brasileiros na primeira metade da década de 1980. As versões remix de “Loiras Geladas” e “Rádio Pirata”, ambas do RPM, chegaram a tocar bastante nas emissoras de rádio FM a época, especialmente Cidade e Transamérica.

 

 

 

O grupo paulista também aparecia no segundo volume da série, lançado no fim de 1985. Dessa vez, a canção escolhida foi a bombadíssima “Olhar 43”. Novamente estavam presentes os DJs Cabello, Grego, Silvio Müller, mas, dessa vez, a prática de batizar os remixes com nomes específicos já estava presente. Sendo assim, a espetacular versão modificada de “Humanos”, do Tokyo, tem o nome de … Remix Dynamic Duo. A de “Johnny Love”, do Metrô, chama-se, simplesmente, “Remix”. Como tudo ainda era meio experimental e, por que não dizer, sem noção, havia a mistureba de “Choveu no Meu Chip”, filha única do grupo Eletrodomésticos, convivendo harmoniosamente com uma versão inexplicável de “Água Na Boca”, de Simone, sem falar na bandeirosa “Serão Extra”, do Dr. Silvana e Cia, todas no mesmo balaio.

 

 

 

 

E como os dois volumes iniciais fizeram bastante sucesso, a CBS ainda lançou o terceiro, que manteve os méritos e doideiras dos outros. Ainda a cargo do mesmo grupo de DJs – Cabello, DJ Grego, Silvio Müller – esta nova fornada de versões traz belas adaptações para “Asa”, de Djavan; “Coisas do Brasil”, de Guilherme Arantes e uma releitura de “Revoluções Por Minuto”, do RPM, que quase substituiu a original na programação das FMs, mas, por outro lado, perde tempo com “Você se Esconde”, do Rádio Taxi e “Intenções”, do Tokyo. Por outro lado, ela abre espaço para “Garota de Berlim”, sucesso do grupo de Supla com Nina Hagen. E tem a insuportável “Encontro Num Supermercado”, da desconhecida Banda 69. Enfim, o mesmo balaio recheado.

 

 

 

O ano de 1986 já abriu espaço para mais versões aumentadas de artistas de outras gravadoras. Lembro, por exemplo, de versões de bandas contratadas da Warner, como Ira! e Titãs, sem falar na prática do lançamento de EPs, que traziam três ou quatro faixas, sendo uma ou duas delas, versões de um hit.

 

De qualquer forma, essas iniciativas, hoje pitorescas, foram poderosas no mercado e marcaram espaço para o crescimento do pop nacional. Vale conhecer.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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