Cidade FM vira Rádio Deus é Amor

 

 

Se você é um dos ouvintes da Rádio Cidade FM, sintonizada no Rio na frequência de 102,9 mHz, aqui vai uma notícia ruim. A emissora foi adicionada à rede Deus É Amor e passa a transmitir sua programação a partir do dia 07 de fevereiro de 2021. Adeus “Californication”, do Red Hot Chili Peppers. Adeus “Natasha”, do Capital Inicial e bem-vindos cantores, comunicadores e os mais de 850 mil fieis da igreja, segundo dados do IBGE.

 

 

Um dos pilares da conquista de mais e mais público por parte de evangélicos é o total domínio que eles exercem das concessões de rádio. E isso é bem complexo: uma emissora como a Cidade FM, que empregava jornalistas, programadores, comunicadores e se voltava para o rock e o jornalismo, não tem mais espaço no dial. Mas uma rádio com programação gospel, derivada do velho rádio AM, com noticiários, variedades, música, oração e toda uma abordagem neopentecostal, sim. Como funciona isso? Porque a população evangélica é muito mais fiel – sem trocadilhos – e o senso de comunidade e união permeia as religiões pentecostais, fatores sempre utilizados pelos pastores como meio de de apropriarem da empatia e das próprias pessoas. A sensação de desamparo e desassistência que o mundo atual passa também é decisivo para que os ouvintes de uma programação evangélica se sintam “protegidos” e “inseridos” numa rotina de glorificar Deus, Jesus e tudo mais.

 

 

O ouvinte de rádio, digamos, secular, não tem tais revestimentos e camadas. O sujeito ouve pela conveniência, pela música, pela facilidade de acesso. Não há, a meu ver, nada que destaque uma emissora de rádio – engessada, por mais que se disponha a arejar programação e comunicação, bem como linha editorial – do serviço de streaming, dos podcasts e da infinidade de novos modelos de comunicação. Os evangélicos, mais apegados a formas tradicionais, vão tomando esses espaços e este processo já está em andamento há mais de 30 anos.

 

 

O problema está na absoluta dificuldade que estes novos porta-vozes da informação – podcasts, sites e demais iniciativas –  têm em conseguir patrocínio. As emissoras de rádio, por conta de sua capacidade imensa de alcance, seguem com sua carteira de patrocinadores intacta. Não há qualquer programa de incentivo governamental a estas novas iniciativas, que acabam perdendo o fôlego. Jornalistas, profissionais de rádio e comunicadores em geral, passam a amargar um mercado informal e sucateado, desassistidos pelo estado e cada vez com menos oportunidades. O resultado é a morte do rádio como meio de comunicação plural e sua total tomada pelos evangélicos. A partir disso, do alcance e da própria natureza de sua mensagem, eles vão dominando a totalidade do território nacional.

 

 

A saída da Cidade FM do dial carioca é mais um sintoma disso. Depois as pessoas ficam abismadas como um presidente como o atual pode ser eleito. Ou como artistas internacionais não conseguem emplacar suas turnês por aqui. Ou como não conseguimos saber do que acontece lá fora em termos de cultura. Veja, por exemplo, a recente censura feita à comédia “Um Príncipe Em Nova York”, cuja exibição foi proibida antes das 21h por conta de ato do ministério da justiça, liderado por andré mendonça, aquela que é TERRIVELMENTE EVANGÉLICO.

 

A ação dessas pessoas no Brasil está nos atirando num precipício de burrice e este processo está em curso. Suas consequências são terríveis e já podem ser sentidas no cotidiano. Fiquem atentos.

 

Vejam isso, por exemplo:

 

A Igreja Pentecostal Deus É Amor (IPDA) é uma denominação evangélica pentecostal brasileira,ideologizada pelo fundamentalismo cristão. Com sua sede mundial na cidade de São Paulo, esta foi fundada em 1962 pelo Missionário David Martins Miranda (1936 – 2015) e hoje presidida pela sua esposa, Ereni de Oliveira Miranda

 

Atualmente, conta com mais de 22 mil igrejas espalhadas pelo Brasil e outras milhares em 150 países. Sua sede mundial, denominada de Templo da Glória de Deus, é considerada um dos maiores templos evangélicos do mundo.

 

No que se refere ao ano de 2020, segundo os últimos dados do IBGE, a IPDA possui entre 800 e 850 mil fiéis que se declaravam pertencentes à igreja, tais números que se referem apenas aos membros batizados, sem contar os inúmeros frequentadores.

Dentre as orientações para membros e obreiros, constam as seguintes interpretações das escrituras:

  • Não assistir programas de TV, pois, segundo a doutrina da igreja a televisão, principalmente através das novelas e filmes são meios de se propagar mentiras, enganos, destruição de famílias, dentre outros fatores que afetam a sociedade. (Sl 1:1) (Ap 13:11 ao 18)
  • Não fazer tatuagem (1 Co 3:16-17) (Lv. 19:28);
  • Não ingerir bebidas alcoólicas. (1 Ts 5:6)
  • Às mulheres: evitarem cortar os cabelos e evitarem utilizar roupas que evidenciem ou demonstrem sensualidade. (Gl 5:19)
  • Aos homens: que evitem cabelos compridos e, igual às mulheres, que utilizem roupas modestas, que não evidenciem ou demonstrem sensualidade. (1 Co 11:14)
  • Que a beleza seja, conforme orientação bíblica, no interior, ou seja, que se evite o uso de maquiagens e adereços. Essa recomendação, de São Pedro (I P 3:3), visava orientar a igreja com relação às vaidades.

 

(Os versículos bíblicos inseridos são interpretações da igreja, e não necessariamente é aquilo que está escrito nas escrituras.)

No restante, a IPDA assemelha-se às demais igrejas cristãs, adotando a regra das fés protestantes.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

3 thoughts on “Cidade FM vira Rádio Deus é Amor

  • 7 de fevereiro de 2021 em 05:46
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    Então a solução seria o governo ter que sustentar rádios ineficientes e mal geridas? Ele não investe nem nas emissoras estatais, é um crime o que acontece com a rádio MEC! O grupo JB/Sistema Cidade deve milhões em impostos, deveria ter a falência decretada há muito tempo. Dinheiro público não deveria ser usado para sustentar mídia privada, se virem, saúde, educação, segurança e assistência social são mais importantes que financiamento a podcasts, rádios e TVs de quinta categoria.

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  • 30 de janeiro de 2021 em 21:00
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    País maldito

    +3
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  • 30 de janeiro de 2021 em 15:17
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    Infelizmente, é isso… Não há mais o que fazer com o FM. A Transamérica deixou seu segmento pra apostar em noticiosos da CNN, o que provocou uma enorme fuga de afiliadas. A Jovem Pan FM está focando em noticiários políticos, a Rádio Cidade Rio será entregue aos pastores… Terceirização da frequência para pastores evangélicos… Triste, muito triste isso.

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