Feliz Dia dos Pais com Everclear

 

Uma das ideias da Célula Pop como veículo de imprensa que fala de cultura pop é oferecer visões distintas sobre assuntos que parecem se consensuais. Vejamos, por exemplo, o Dia dos Pais. É uma data comemorativa comercial, feita para alavancar vendas no comércio, certo? Sim, mas não é apenas isso. É um momento em que filhos e filhas homenageiam pais e reconhecem sua presença em suas vidas. Certo? Sim, mas não é apenas isso. É um tempo em que as figuras paternas também são celebradas. Ou deveriam.

 

Um dos traços mais marcantes e tristes da nossa sociedade é a ausência de pais biológicos na família. Não estou falando da caretice da família tradicional, pelo contrário. Como dizia Lilo, a personagem da Disney, família é “ohana”, todos os que não podemos deixar pra trás. E, bem, se os fornecedores de sêmen deixam seus filhos pra trás, a culpa é só deles.  Se tudo der certo, essas crianças vão encontrar mães, avós, padrastos, irmãos mais velhos, tios, tias, amigos, professores, que irão ocupar o vácuo paterno. E, via de regra, viverão bem, sem noção do buraco que estará presente para sempre nelas.

 

O Dia dos Pais também é o dia do “eu era imaturo”, do “eu precisava trabalhar, não teria tempo pra cuidar de um filho naquela época”, do “a mãe vai cuidar bem dele” e outras desculpas lamentáveis que tomam conta das estatísticas familiares ao redor do mundo. Não enxergá-las é tapar o sol com a peneira.

 

Tal noção sempre me faz lembrar de uma canção do grupo americano Everclear. Era um trio de Los Angeles, que fez bastante sucesso na segunda metade dos anos 1990, especialmente com dois álbuns: “Sparkle And Fade” (1995) e “So Much For The Afterglow” (1997). O nível das letras e o instrumental pesado, porém harmonioso, faziam dos caras uma boa aposta naqueles tempos e, em 2000, o Everclear lançava um disco duplo conceitual sobre a vida nos Estados Unidos da classe média: “Songs From A American Movie”, sendo o “Volume 1: Learning How To Smile” e o “Volume 2: Good Time For A Bad Atitude”.  O resultado não foi tão consistente quanto os trabalhos anteriores, fazendo com que a banda iniciasse um declínio que se configurou ao longo dos anos seguintes.

 

O líder do Everclear, Art Alexakis, é um letrista muito acima da média. O cara tem especial talento para elaborar pequenas declarações sentimentais e ele tem, pelo menos dois grandes momentos: “Santa Monica”, na qual ele fala do fim de um relacionamento amoroso e a primorosa “Father Of Mine”. Nesta ele destrincha sem cerimônias a sua própria história de filho criado pela mãe, enumerando vários momentos em que sentiu falta de seu pai ao longo da vida e como ele tinha medo de não ser para seu filho o que seu pai foi pra ele. Sabemos que é uma canção pop como várias outras, mas, de vez em quando, pela mão de caras como Art, esses momentos ficam mais fortes e impactantes.

 

Nada contra quem celebra o Dia dos Pais com a belíssima “Father And Son”, de Cat Stevens. Ou com a manjada “Pai”, de Fábio Júnior, mas há de se ter espaço e tempo para ouvir “Father Of Mine”, pop, cheia de refrão, bem produzida e sucesso nas paradas no distante ano de 1997.

 

 

Father of mine

Tell me where have you been
You know I just closed my eyes
My whole world disappeared
Father of mine
Take me back to the day
When I was still your golden boy
Back before you went away
I remember the blue skies
Walking the block
I loved it when you held me high
I loved to hear you talk
You would take me to the movie
You would take me to the beach
You would take me to a place inside
That is so hard to reach
Father of mine
Tell me where did you go
You had the world inside your hand
But you did not seem to know
Father of mine
Tell me what do you see
When you look back at your wasted life
And you don’t see me
I was ten years old
Doing all that I could
It wasn’t easy for me
To be a scared white boy
In a black neighborhood
Sometimes you would send me a birthday card
With a five dollar bill
I never understood you then
And I guess I never will
Daddy gave me a name
My dad he gave me a name
Then he walked away
Daddy gave me a name
Then he walked away
My dad gave me a name
Father of mine
Tell me where have you been
I just closed my eyes
And the world disappeared
Father of mine
Tell me how do you sleep
With the children you abandoned
And the wife I saw you beat
I will never be safe
I will never be sane
I will always be weird inside
I will always be lame
Now I’m a grown man
With a child of my own
And I swear I’m not going to let her know
All the pain I have known
Then he walked away
Daddy gave me a name
Then he walked away
My dad gave me a name
Then he walked away
Daddy gave me a name
Then he walked away
My dad gave me a name
Then he walked away

 

Ah, claro, feliz Dia dos Pais.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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