Boicote ao Madero?

 

Há uns dois dias o dono da rede de restaurantes madero, júnior durski, divulgou vídeo em suas redes sociais no qual apoia o ato de 15 de março próximo. Pra quem ainda não sabe, este ato é um protesto, convocado pelos apoiadores do atual ocupante do Planalto, no qual o alvo é o Congresso Nacional. Eles dizem que os deputados e senadores estão impedindo que o ex-capitão e sua tropa consigam empreender no país as mudanças “necessárias”. É mais ou menos como se eles atacassem um dos pilares da democracia, que é a discussão e o debate político que surge, amparado pela Constituição, no qual o Poder Executivo é limitado e complementado pelo Poder Legislativo. Mas, para essas pessoas, democracia só serve para permitir que eles façam e ajam como querem. Não toleram o debate e o contraditório. De qualquer forma, é a mesma democracia que permite que durski e outros empresários apoiem uma narrativa política já consolidada, que contém, entre outros pontos, o desrespeito às minorias e aos trabalhadores, o apoio ao capital transnacional, o desmantelamento dos serviços públicos, o ataque à educação pública, à militarização do cotidiano e o milicianismo. Portanto, é muito mais que um posicionamento político, uma vez que invade a própria existência da democracia.

 

Mas durski e os outros empresários que apoiam o governo não se importam. O mais notório deles é o véio da havan, que ascendeu ao cenário nacional vestido de terno verde e amarelo, conclamando seus empregados para defender o burrismo. Passei na porta de uma filial da havan há algum tempo e vi que os funcionários usam camisetas com dizeres e palavras de ordem, algo como “lutando pelo Brasil” ou coisa parecida. O véio é um dos maiores devedores da Previdência Social, algo que não espanta. Além dele, empresas como ricardo eletro, smartfit, centauro, riachuelo compõem uma espécie de rede de defesa corporativa do sistema. E o madero, nascido e criado em Curitiba, também integra o grupo. Não por acaso, o apresentador global luciano huck é sócio de duas: smartfit e … madero.

 

O madero surgiu na mídia há pouco tempo. Pelo menos aqui no Rio. O slogan “the best burger in the world” é risível, ainda que o sanduíche servido por eles tenha qualidade. Mas o ambiente dos restaurantes da rede, o clima de qualidade forçada e as propagandas veiculadas mostram que há algo errado em algum lugar. Lembro de ver dois comerciais do madero no cinema. O primeiro mostrava luciano huck numa visita a uma instalação industrial da rede, mostrando de onde vem o pão, qual o controle de qualidade das verduras, o padrão das carnes etc. Com sua simpatia de proveta, o apresentador vai conversando com os empregados e com o próprio durski, que diz fornecer seu número de celular para todos entrarem em contato com ele para tirar dúvidas sobre as engrenagens do lugar.

 

O outro comercial falava sobre uma preocupação da rede em empregar e formar pessoas. Mostra gente humilde e empobrecida sendo aceita num programa de treinamento para trabalhar nas filiais do madero, como garçons, cozinheiros e tal. Para um sujeito que tem mais de cem lojas, durski deve faturar o suficiente para oferecer mais, não só às pessoas, mas à sociedade. A velha noção assistencialista de formar gente para trabalhar e nunca ascender socialmente está presente nesta iniciativa. Vamos ajudar as pessoas a encontrar seu lugar na coletividade sem que elas venham atrapalhar o nosso num futuro. Que sejam garçons. Que paguem por uma universidade privada, que tenham um destino que não cruze com o nosso, a menos que seja para servir uma mesa.

 

Parece cruel pensar assim, mas a lógica dessas pessoas é essa. A meritocracia que defendem, passa por esta noção de que é preciso “dar duro” para encontrar o seu espaço, que nunca deve ter interseção com o espaço mais privilegiado. É a lógica do aeroporto com gente pobre podendo viajar, a lógica da entrada de serviço longe da “entrada social” nos prédios ricos. É a construção de barreiras. É a mesma gente que se posiciona contra medidas realmente eficazes, como as cotas, por exemplo.

 

O madero é um retrato deste Brasil que está aí. De gosto duvidoso, de mérito duvidoso, sem noção. Se você discorda do que o governo atual significa, discorda de quem o apoia, então é legítimo não frequentar esses lugares. Nem que seja apenas pela sua própria consciência. Eu, que já estive três vezes em restaurantes madero, não pretendo retornar.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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