Bob Dylan – Rough and Rowdy Ways

 

Gênero: Rock, blues, folk

Duração: 70 min.
Faixas: 10
Produção: Bob Dylan
Gravadora: Columbia

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

 

Bob Dylan, vocês já devem saber, não pode ser tratado como um artista dos nossos dias. A pena é a perda absoluta de grande parte de suas características e detalhes, bem como do entendimento completo de sua persona e mistério. É preciso respeitar seus tempos, entender seus desígnios, bem como assentir com o que ele produz. Longe de pregar a conivência para com ele, é preciso entendê-lo e aceitá-lo. A partir disso, feitas essas concessões, partimos para a análise crítica de seus trabalhos, sempre com o cuidado de estarmos lidando com um ícone da cultura pop, não só do século 20, como da própria Cultura produzida no planeta desde que saímos da caverna. Se tudo der certo e não explodirmos uns aos outros em algum momento, nossos descendentes estarão analisando suas obras no século 30 ou além. E, caso o façam, este seu 39º disco, “Rough And Rowdy Ways”, oferecerá material de sobra para que seja possível entender o nosso tempo. Se Dylan foi um artista influenciado por seu tempo durante sua carreira, não poderia ser diferente aqui. Este é um álbum que nos mostra, com reveladora precisão, como ele se sente aos 79 anos, em relação a si mesmo e ao mundo. É um raro caso dentro do cânon dylanesco.

 

São dez faixas, sendo que, duas delas (“Key West” e “Muder Must Foul”) perfazem quase meia hora de tempo total do disco. Dylan não teve pressa ou se eximiu de contar o que ia por sua cabeça. Por setenta minutos, ele convida o ouvinte a prestar atenção no que tem para dizer. Ele fala que é muitos em um. Que tem feito pequenas viagens dentro dos Estados Unidos – metafóricas e reais. Conta que tem pensado em muitas coisas que estão acontecendo no momento. Que tem observado as coisas, lido, pensado, visto filmes e compreendido o mundo, mesmo com a rapidez fast-forward que permeia a nossa época e ele sabe que nem sempre foi assim. Houve época em que o mesmo Dylan podia sair de cena por seis meses e refletir sobre o tempo. Agora, mesmo que tenha ficado oito anos sem gravar material autoral, ele nos brindou com três álbuns, um deles triplo, em que se entregou a interpretações simples e pungentes de standards do Great American Songbook, inspirado em Frank Sinatra. E fez discos belos, além de ter sido premiado com o Nobel de Literatura, provavelmente como o maior poeta de nosso tempo, vivo.

 

Pois “Rough And Rowdy Ways” sintetiza tudo isso, mais as lembranças desses quase oitenta anos de vida. É uma testemunha ocular da História que está nos falando, assumindo este papel do qual se esgueirava outrora, preferindo que outros lhe atribuíssem. Agora, talvez por conta do tempo, Dylan estufa o peito para vestir a camisa que tem seu nome escrito nas costas, age como tal, pensa como tal e se mostra como é. Rouco, inspirado, irônico, pensativo, meditativo e misterioso. Aliás, este disco, ainda que seja revelador em muitos momentos, é uma aula de enigmas, todos eles inseridos em citações de nomes, vultos, personagens, que habitam este ecossistema que é a mente de Dylan, a qual, nós, críticos, ousamos decifrar sem conseguir.

 

Não há faixa “ruim” no disco. Uma vez entendido o contexto e a proposta do álbum, o conceito “bom” e “ruim” não se aplica, é apenas questão de se entender o objetivo e a execução. Só que Dylan, ainda por cima, se tornou um belo cantor de blues, com a voz castigada pelo tempo e pelas tentações, emitindo um registro peculiar, que exige respeito. Os parâmetros são os discos que ele gravou pós-1997, ano de “Time Out Of Mind”, trabalho que quase o reinventou. Não que “Rough…” tenha essa pretensão, mas, certamente, revela um Dylan ainda mais profundo e atento. As faixas se sucedem com o tempo necessário: o som elemental de “I Contain Multitudes” engata no blues de “False Prophet” que, por sua vez, desacelera na misteriosa “My Own Version Of You”, sobre as liberdades de se construir imagens e verdades sobre quem quer que seja, como recompensa pelo tempo vivido. Tem “I’ve Made My Mind to Give Myself to You”, meditação sobre concessões na vida que se vive junto. Tem a sombria “Black Rider”, talvez uma conversa de pé de ouvido com a morte em pessoa. Tem “Goodbye Jimmy”, um blues estilizado sobre a morte de um amigo ocorrida há muito tempo. Tem “Mother Of Muses”, a primeira incursão história de Dylan no álbum, exortando generais do exército americano, relacionando sua luta pela liberdade como causa para a existência de defensores posteriores – como ele, por exemplo – que mantiveram a postura ao longo do tempo. E tem os três melhores momentos do álbum, as três últimas faixas.

 

“I Crossed The Rubicon” tem a expressão do “ponto de não-retorno” em seu título e a mistura rock’n’roll ancestral com estadias no purgatório, na ante-sala, no cômodo anterior ao seu destino final, lembrando de suas conquistas, realizações e pecados, como anotações numa ficha-corrida universal, que será julgada por forças superiores. “Key West” é, talvez, a mais bela canção que Dylan produz desde o início dos anos 1970, não fosse pela absoluta certeza de que estamos vendo e ouvindo um homem idoso, rei dos animais – como diria o fã, Caetano Veloso – relatando suas visões de paraíso a partir da metáfora de uma viagem a Key West, balneário litorâneo, na já litorânea Flórida (“Keys West is on the horizon line”). O fecho de ouro é com “Murder Must Foul”, o épico sem precedentes, de quase dezessete minutos, no qual Dylan quase dá uma aula de História do tempo presente aplicada aos Estados Unidos, certamente uma canção a ser dissecada por gerações do porvir.

 

“Rough And Rowdy Ways” é um álbum que só Dylan poderia ter feito e ele só poderia existir hoje, em 2020, em meio a explosões de racismo, doença, morte e desentendimento em escala global. Saber que ele está lá, em sua casa de Malibu, pensando por nós e, sem querer, apontando direções para que possamos pensar em algo válido, é o conforto maior que podemos ter. E, pela madrugada, que disco lindo.

 

Ouça primeiro: “Key West”.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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