BBB e The Voice: laboratórios de contenção globais

 

 

Será que as pessoas que assistem a atração global têm noção de que estão diante de um programa com roteiro, anunciantes, índices de audiência e que, além de tudo, movimenta uma quantidade absurda de dinheiro? Sabemos bem que, numa lógica neoliberal como a nossa, tal investimento não pode conter o imponderável. Logo, quase todo arroubo, lacração, cancelamento, movimento, letargia, personagens, praticamente tudo é minuciosamente controlado e arranjado. Mas, não, as pessoas não parecem se importar com isso e, num mundo fragmentado como o nosso, investem tempo – seu bem mais precioso – para, diante dessa plataforma, fornecida por emissora e anunciantes, se manifestar sobre questões-chave: inclusão, preconceito, costumes, vivências. É uma realidade tão verdadeira quanto a que o personagem de Jim Carrey vive em “O Show de Truman”, lembram?

 

E o The Voice Brasil atual? O povo está emocionadíssimo porque a edição vigente traz veteranos cantores e cantoras, artistas esquecidos pela lógica da mídia e do próprio sistema – por serem velhos, de outro tempo etc – para se apresentar diante da “bancada” de jurados do programa. Então, como é a regra do nosso tempo, toda uma avalanche de manifestações de encorajamento surgiram nas redes sociais, porque, finalmente, estes veteranos estão tendo uma “nova chance” ou, ao fim de um longo percurso, “finalmente são reconhecidos”. E pela globo.

 

A emissora do Jardim Botânico já faz isso há tanto tempo que fica difícil apontar o início. Talvez desde que entrou no ar. Ela se apropria de discussões chave da sociedade brasileira, cria laboratórios para que elas sejam exercitadas e cuidadosamente isoladas da realidade das ruas, enquanto distrai a audiência, mesmo a mais engajada, que parece não perceber a armadilha. Então, por meio desses “peões” de programas como BBB e The Voice, tais questões são exercitadas sem qualquer risco. Ou, sendo otimista, com pouquíssimos riscos. Nos meios de mudança real, pelo menos os que são instituídos, não temos o reflexo de alguma alteração mais fundamental. Políticos comprometidos com o atraso e que seguem linhas de ação anti-povo, seguem eleitos e atuantes, num processo de erosão de bases que são essenciais. E as pessoas, ocupadas em cancelar a Karol Conká no BBB ou exaltar a participação da cantora Claudya no The Voice. E, quando chega a noite, vão dormir com a certeza de que fizeram sua parte.

 

Claro, televisão é manipulação da realidade desde sempre. Está no seu próprio conceito e isso não se discute. As próprias novelas globais são produtos que abordam a realidade e a tornam obra de ficção, imprimindo ali as visões dos autores e, muito mais, dos anunciantes e dos líderes da emissora, ou seja, não tem como fugir disso. Em outro plano, tal capacidade de hipnose exercida pela TV, é aplicada ao próprio uso do aparato midiático jornalístico como meio de afirmação de uma postura. Sabemos como a mídia hegemônica funciona nesse aspecto. Basta lembrar do jogral encenado no jornal nacional por conta do vazamento ilegal da conversa entre os presidentes Lula e Dilma, que se destacou numa série de reportagens tendenciosas e decisivas para o nosso atual estado de vida no país. Pergunto eu: a partir das revelações recentes sobre a operação lava-jato, nas quais as conversas de deltan dallagnon e sergio moro, dando conta da absoluta fraude jurídica que teve lugar, a mídia hegemônica dá o devido destaque?

 

Por que pensar que essa conduta só se aplicaria aos departamentos de jornalismo da emissora? Claro que não. Os demais setores seguem a mesma orientação e a põem em prática de forma contumaz. Sendo assim, temos essas versões “engajadas” dos programas de entretenimento. As pessoas se dão por satisfeitas por existirem várias pessoas negras no elenco do BBB. Ou por, finalmente, o cantor XYZ, massacrado pelo esquecimento, surgiu no The Voice. Enquanto isso, a pessoa segue sem cumprimentar o porteiro do prédio ou ouvir qualquer música que não seja veiculada pelas emissoras de rádio mais caretas. Isso sem mencionar que as pessoas se engajam essas discussões de proveta e, na hora de votar para cargos públicos, não comparecem às urnas.

 

A mídia sabe disso, gente. Ela sabe de tudo.

 

O meio mais eficaz para anular essa ação? Não dar audiência. Não comprar os produtos dos anunciantes. Estudar, ler, construir uma postura crítica e, acima de tudo, não aceitar tudo que é veiculado na mídia como se fosse a única opção. Fazê-lo é compactuar com o universo atual da burrice reinante no país, que não para de dar frutos podres para a nossa já combalida sociedade. Está tudo interligado, gente. Melhorem.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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