Aquele bocado de jazz
Acordo e vejo a notícia de que Sonny Rollins morreu. O nome é familiar, é claro. Sei que é do jazz, saxofonista, gravou com os Stones, embora não lembre de cara em qual disco – Tattoo You, leio na sequência. 95 anos, resquício da história da América negra que muitos americanos fazem questão de apagar, mas que os britânicos dos Stones tantas vezes pegaram pela mão e esfregaram na cara do mundo.
War, children, it’s just a shot away.
Não achei nada do Sonny na estante, pelo menos não como protagonista, o que é fácil de entender. Dentro da minha coleção até que honesta de música, jazz ocupa uma parte módica: um nicho entre os LPs mais um punhado de CDs. Tenho ali alguns clichês do gênero (um box de Coltrane, umas obviedades do Miles, aquele do Brubeck), um pouquinho de cool, um pouquinho de fusion, essas coisas. E os meus favoritos: uns discos da Pablo Records, com a estética reconhecível a quilômetros, elenco classudo, grandes jam sessions, coisas do tipo — meu favorito, provavelmente, é o Free Ride, Dizzy Gillespie com Lalo Schifrin, super cheio de swing. Boa parte comprei por uma baba com um vendedor no Centro do Rio que nunca deu muita atenção pra eles.
O curioso, aquele tipo de curiosidade que não significa absolutamente nada além de um mero acaso, é eu me deparar com essa notícia, a morte do Sonny, bem no dia em que estou terminando de ler Todo Aquele Jazz, do Geoff Dyer.
(…) Jazz esteve na minha lista de compras por bastante tempo, não sei dizer entre quando e quando e nem porque foi para lá, mas saiu sem ter sido comprado. Por fim, veio recentemente em um lote de títulos de Dyer. Fui pegar o Ioga Para Quem Não Está Nem aí, outros vieram a reboque, incluindo ele, quando percebi quem assinava. Passou à frente dos demais e se pôs como a primeira leitura.
O que Dyer faz é juntar cacos de biografias e outros registros para ficcionalizar. Não há qualquer interesse em retratar de forma fiel episódios ou perfis dos personagens ali presentes – Thelonious Monk, Lester Young, Chet Baker, Art Pepper, dentre outros. Como um jazzista que improvisa sobre standards, é assim que Dyer escreve: “você já sabe quem era Charles Mingus, então agora veja o que sou capaz de fazer com ele, veja como ele soa sob os sons da minha caneta”.
E o autor sabe bem o que está fazendo. O texto sobre Mingus é agressivo e cheio de informações, o texto sobre Baker é singelo e sensível. Geoff parece, apesar do exercício de improviso imaginativo, tentar preservar algo da identidade de cada músico conforme escreve sobre ele. Não à toa, o texto sobre Duke Ellington na estrada, dividido em partes ao longo do livro, como um respiro entre os demais textos, funciona quase como uma trilha sonora de fundo para o que se lê ali.
É uma pena que eu não tenha, hoje, nada do Sonny Rollins por aqui, e talvez eu deva procurar meu vendedor de discos pouco ganancioso do Centro do Rio para tentar corrigir essa questão em breve. Por hoje, talvez me caiba apenas ouvir um pouco da sua música, olhar algumas das suas fotos, e, a exemplo de Todo Aquele Jazz, só imaginar quem e como ele era.

Natural de Paracambi, nascido em 1984, Jorge Wagner é jornalista e trabalha com comunicação na área pública desde 2015. Produziu os tributos Jeito Felindie (2012) e Ainda Somos os Mesmos (2014). Em 2023, lançou o álbum Toda Forma de Adeus.
