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O capitulo final do The Alarm

 

 

 

The Alarm – Transformation
47′, 12 faixas
(Twenty-First Century Records)

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

 

 

 

Na primeira metade dos anos 1980, enquanto os sintetizadores do tecnopop e os exóticos visuais da New Wave dominavam as paradas da MTV, uma linhagem específica de músicos britânicos tomou o caminho inverso. Movidos pela urgência do pós-punk, mas conectados às suas raízes folclóricas e às paisagens industriais de suas terras natais, esses artistas criaram o que o jornalismo musical da época batizou de “Rock Celta”. Era uma sonoridade marcada por guitarras acústicas tocadas com agressividade incomum, ritmos marciais de bateria e refrões grandiosos, feitos sob medida para multidões que buscavam hinos de identidade e solidariedade em meio ao cenário de desindustrialização e crise social da era Thatcher.

 

Nesta constelação celta, o topo da pirâmide trazia os irlandeses do U2, que alcançaram o estrelato mundial ao transformar questões políticas e espirituais em combustível pop de alta octanagem. O movimento tinha outras ramificações, igualmente vitais. Na Escócia, o Big Country reinventava as guitarras para que soassem como gaitas de foles, enquanto o Simple Minds injetava misticismo atmosférico nas pistas de dança. Outro grupo de irlandeses, o Waterboys, abraçava um folclore literário selvagem e ritmos folclóricos em meio a influências que iam de Bob Dylan a Van Morrison. Correndo por fora, com uma fúria operária singular e um som que o próprio Bono Vox chegou a descrever como um dos mais importantes do circuito, estavam os galeses do The Alarm.

 

Formado em 1981 na cidade costeira de Rhyl, no norte do País de Gales, o grupo — liderado pelo vocalista e compositor Mike Peters — trouxe para o movimento uma autenticidade inabalável. Vestindo casacos longos e empunhando violões plugados em amplificadores distorcidos, o quarteto estourou mundialmente com o álbum de estreia, “Declaration” (1984). Em pouco tempo, provaram que não eram algo passageiro e colocaram faixas de discos seguintes em bons lugares nas paradas de sucesso, com destaque para “Sixty Eight Guns”, “The Stand” e “Strength”. Enquanto parte de seus contemporâneos mirava o pop de luxo, o The Alarm construiu uma legião de fãs fervorosos baseado em uma premissa simples: a música como um chamado à ação comunitária, amparada no tripé “amor, esperança e força”. A banda abriu turnês históricas para o U2 e Bob Dylan e, mesmo após o racha da formação original nos anos 1990, Peters manteve a bandeira erguida no novo milênio.

 

No entanto, a verdadeira dimensão do The Alarm só é compreendida quando a biografia musical cruza com a médica. Mike Peters lutou contra o câncer no sangue por três décadas, desde seu primeiro diagnóstico de linfoma em 1995. Em vez de se recolher, ele fundou a Love Hope Strength Foundation, instituição que cadastrou mais de 250 mil pessoas como doadoras de células-tronco. Peters gravava e fazia turnês mundiais nos intervalos de quimioterapias agressivas, fazendo do palco o seu oxigênio. Essa longa batalha terminou em 29 de abril de 2025, quando ele sucumbiu à Síndrome de Richter, uma mutação severa da doença. Mas ele não partiu sem antes registrar o seu último testemunho.

 

Lançado exatamente um ano após o seu funeral, o álbum póstumo “Transformation” é um registro singular. Longe de ser uma obra sombria ou consumida pela autocompaixão, o disco é barulhento, urgente e desafiador. Gravado nos últimos seis meses de vida do músico, o material foi finalizado na noite de 15 de janeiro de 2025, poucas horas antes de Peters se internar para um tratamento experimental de células CAR-T. Ouvir “Transformation” agora provoca um impacto profundo: o compositor não sabia que estava morrendo. Pelo contrário, as faixas pulsam com a convicção de quem tinha certeza de que venceria a saúde debilitada mais uma vez.

 

O otimismo transborda na faixa de abertura, “New Life”, onde Peters canta sobre uma marcha pesada: “100 ml de sangue puro, projetados para uma nova vida… estou cruzando a linha entre os mortos e os vivos”, referência direta à terapia genética que receberia no dia seguinte. O primeiro single, “Live Today”, evoca a energia clássica dos álbuns da banda de meados dos anos 1980, trazendo uma parede de cordas acústicas e uma interpretação vocal onde a voz do cantor demonstra emoção no refrão: “Eu não quero viver para sempre; eu quero viver agora”. Da mesma forma, “One In a Million” carrega o mesmo ardor juvenil dos tempos de “Strength”, seu disco mais conhecido.

 

Peters também usou suas últimas composições para analisar o mundo ao redor, canalizando temores sobre a desumanização tecnológica em faixas como “Metaverse” e “Wired”, que criticam o avanço cego da inteligência artificial em detrimento do afeto real. O ápice do álbum, contudo, está na faixa de encerramento, “Love Makes Love”. A canção, vai num crescendo lento e deságua em uma afirmação sobre a capacidade do amor de sobreviver como memória. Quer tenha sido gravada como um testamento consciente para sua família, quer tenha sido um vislumbre de seu legado, a franqueza da letra impressiona.

 

“Transformation” não soa como uma despedida melancólica, mas como o ato final de resistência de um artista fiel aos seus princípios. Diante do fim, Mike Peters ainda olhava para a frente, mantendo o espírito de mobilização que definiu o The Alarm em seu auge. O disco encerra a trajetória da banda não com um lamento, mas como uma sólida afirmação sobre o poder da conexão humana.

 

Ouça primeiro: “Live Today”, “New Life”, “One In a Million”, “Love Makes Love”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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