Apaixone-se por Arlo Parks

 

 

Sendo bem sincero com você, leitor/a: a menos que você seja uma pessoa sem coração, é impossível não se apaixonar por Arlo Parks. “E quem é Arlo Parks?” perguntaria você, com toda a razão. Este texto é para te apresentar a moça e, acima de tudo, te dar argumentos suficientes para se convencer que esta jovem londrina é a mais interessante cantora e compositora surgida na música pop em muito, muito tempo. Pra começo de conversa, te dou as influências que o trabalho de Arlo traz: Sade, Lianne La Havas, Corinne Bailey-Rae, cantoras de trip hop dos anos 1990, além de fluência total nos formatos de canção pop, cheias de tiques e taques soul e eletrônicos, com elegância, visceralidade e uma afinidade imensa por letras que relatam o cotidiano. Sério, a chance de erro é mínima.

 

Arlo se chama Anaïs Oluwatoyin Estelle Marinho e tem vinte anos de idade. Tem sangue nigeriano, chadiano (do Chade, país africano de colonização francesa) e francês. Assinou seu primeiro contrato com gravadora aos 18 anos e lança seu primeiro disco, “Collapse In Sunbeams” nesta sexta-feira, dia 29 de janeiro. Quem comanda as ações no estúdio é Paul Epworth, responsável pela arrancada de Adele ao sucesso, mas é fácil notar que Arlo é milhões de vezes mais interessante que a sumida cantora de sucesso da década passada. Em primeiro lugar, sua mistura sonora, já mencionada acima, é imbatível se executada com afinco. Ela também é compositora, poeta, escreve suas letras com o ponto de vista do observador cotidiano e parece ter uma bondade inata, algo que faz com que seja possível acreditar no triunfo do bem contra o mal nesta vida tão combalida que nos encerra. Ouvir as canções do álbum de estreia de Arlo funciona como um bálsamo contra a crueldade e, bem, música é isso também.

 

Em novembro de 2018, Arlo lançou seu primeiro EP, “Super Sad Generation”, que era puxado pelo single “Cola”. No início de 2019, já eram três canções da menina em alta rotação pelos programas de rádio mais antenados do Reino Unido e o sucesso dela vinha dessa capacidade de encapsular versos simples em melodias lindas. A crítica ressaltou que a poesia de Arlo contrastava com sua idade e mostrava suas visões sobre finitude e mortalidade, algo raro em cantores e compositores contemporâneos seus. De fato, há detalhes interessantes, como a resignação sobre o amor perdido em “Cola”, na qual Arlo termina dizendo, após enumerar várias pequenas coisas que lhe trazem saudades do ex-namorado, “é melhor que ela goste mesmo da sua cara emburrada”.

 

Em “Super Sad Generation”, ela diz que sua geração só faz procurar formas de passar o tempo e gastar seus contracheques. E no fim: “beba um café, finja que são os anos 1960”, como se não restasse outro jeito de lidar com a situação. E em “Hurt”, o single que ela lançou há alguns dias para antecipar a chegada do primeiro disco, ela fala de um certo Charlie, que gosta de assistir “Twin Peaks” com uma garrafa nas mãos, mas que, na verdade, sente falta de sua mãe. Como eu disse, a poesia de Arlo Parks é um relato cotidiano de uma geração sem eira nem beira, esmagada entre um mundo não-inclusivo que usa a inclusão como sua maior propaganda.

 

Nem precisava ser tão talentosa como melodista ou cantora, mas a moça, repito, é sensacional. Seu disco será resenhado em breve aqui, mas este texto é para deixar todo mundo ansioso pela hora de conhecer o trabalho de Arlo Parks. É a melhor estreia de cantora desde muito tempo, muito mesmo.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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