ColunasO CEL é o limite

Do Guaraná Jesus ao Pix: A criatividade popular que o monopólio tenta asfixiar

 

 

Quem utiliza o Pix para agilizar o corre do dia a dia — fortalecendo a autonomia de manicures, motoristas de aplicativo e garantindo o acerto imediato daquele pastel na feira livre sem o peso de tarifas — raramente para para pensar no tamanho dessa ruptura. Essa ferramenta transformou-se em uma paixão coletiva por sua simplicidade e, acima de tudo, por sua essência pública e brasileira. Contudo, essa engenhosidade tecnológica desenvolvida no Sul Global causa um incômodo profundo nas engrenagens do topo financeiro internacional. Nos usa, por exemplo, a população comum continua refém de compensações bancárias morosas ou de plataformas corporativas que cobram pedágios indigestos para tarefas simples, como rachar o valor de uma janta. Para decifrar a razão de o mercado americano e certas alas conspiratórias tentarem sabotar propostas públicas e gratuitas com o rótulo de “vigilância comunista”, basta observar o histórico de como o grande capital reage sempre que a periferia do mundo cria algo verdadeiramente soberano. O roteiro é idêntico ao que a Coca-Cola Company aplicou no setor de bebidas regionais.

 

Para compreender esse movimento, vale resgatar a história. Em 1927, no Maranhão, o farmacêutico Jesus Norberto Gomes elaborou uma bebida cor-de-rosa, com notas aromáticas de cravo e canela, que se converteu em patrimônio de identidade cultural: o Guaraná Jesus. Pouco depois, em 1935, nasceu no Peru a Inca Kola, um refrigerante amarelado à base de erva-luísa que virou o orgulho das populações andinas, chegando a superar os índices de venda da própria multinacional de Atlanta em solo peruano. Já nas areias do Rio de Janeiro, o Matte Leão — idealizado originalmente no Paraná por Agostinho Ermelino de Leão — transformou-se no símbolo máximo do descanso do trabalhador e da cultura de praia. Essas três marcas compartilhavam o mesmo trunfo: uma conexão afetiva e uma raiz popular tão profundas que o império global dos refrigerantes simplesmente não conseguia superá-las por meios convencionais de concorrência.

 

A estratégia da corporação foi cirúrgica e seguiu o manual clássico do monopólio: quando não é possível derrotar a autenticidade local, compra-se o rival para neutralizar sua força. A gigante internacional absorveu a Inca Kola em 1999, o Guaraná Jesus em 2001 e a tradicional marca do Matte Leão em 2007. O propósito real dessas aquisições nunca foi impulsionar a cultura regional ou aprimorar as receitas, mas sim esterilizar a concorrência, diluir o caráter rebelde desses produtos e assegurar que as margens de lucro convergissem de volta para a matriz americana. O sistema permite que você continue consumindo o rótulo e o símbolo afetivo, mas agora ele está devidamente pasteurizado, enquadrado e operando sob as diretrizes do capital estrangeiro.

 

Essa obsessão em desidratar soluções eficientes geradas fora do eixo central ganha contornos ainda mais explícitos quando a política de subserviência entra em ação para legitimar o atraso. O clã bolsonaro, em suas habituais agendas políticas nos usa, sempre buscou replicar rigorosamente a cartilha ideológica da extrema direita americana, que abomina qualquer protagonismo do setor público. É exatamente por essa lógica que a mentalidade que boicota o Pix lá fora se manifesta aqui no ataque sistemático à nossa urna eletrônica. Enquanto os usa patinam em um modelo eleitoral arcaico, dependente de cédulas físicas, apurações arrastadas e desconfiança constante, as instituições brasileiras entregam o resultado de um pleito continental em poucas horas com total integridade. Ainda assim, para se alinhar aos interesses de tramp e de seus financiadores, a liderança bolso-burrista prefere importar pânicos morais e descredibilizar tanto as urnas quanto o sistema de pagamentos. Trata-se do ápice do complexo de vira-lata: cruzar a fronteira para validar teorias da conspiração estrangeiras e aplaudir o atraso deles, em vez de resguardar o patrimônio tecnológico nacional que dá um banho de eficiência no resto do planeta.

 

Esse é o exato mecanismo de colonização econômica que o ecossistema financeiro global tenta impor ao contestar o Pix. O lobby multibilionário dos conglomerados bancários e das operadoras de cartão atua nos bastidores para sufocar redes públicas de transação instantânea, ciente de que a ausência de custos liquida suas taxas abusivas sobre o comércio. Enquanto os setores mais barulhentos e burristas da política espalham paranoias para proteger os dividendos de banqueiros internacionais, o Brasil deu uma demonstração cabal de soberania e cidadania. O Pix e a urna eletrônica consolidaram-se como provas de que o investimento público e a inteligência técnica podem blindar o voto, resguardar o fruto do trabalho da população e democratizar as ferramentas cotidianas, impedindo que os nossos maiores avanços virem mera mercadoria na prateleira de um oligopólio.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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