A porradaria do Ministry é o puro suco de 2021

 

 

Ministry – Moral Hygiene

Gênero: Eletrônico, metal

Duração: 47:15 min.
Faixas: 10
Produção: Michael Rozon
Gravadora: Nuclear Blast

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

As condições adversas da sociedade são o combustível ideal para fazer funcionar a máquina que é o Ministry. E dá pra dizermos que este nome sempre foi um alterego para que Al Jourgensen externalize suas angústias e sua ravia contra o sistema. Dá pra dizer que o Ministry não fazia nada muito interessante há uns bons 20 anos, mas este “Moral Hygiene” recoloca a banda num caminho muito bem definido, o de cronificar o desastre humano com uma precisão de discurso bem grande, se valendo do peso das guitarras e bateria, envolvendo tudo isso numa dinâmica que usa a eletrônica com muito bom senso. A porradaria sonora do Ministry não cansa, é diversificada e tem ótimas sacadas, daquelas que nos motivam a ouvir o álbum com fones de ouvido e descobrir a esperteza do uso dos samples, de instrumentos ocultos, das ideias que continuam a vir na mente de Jourgensen mesmo mais de 30 anos depois.

 

Assim como vários outros artistas e bandas, o Ministry foi prejudicado pela pandemia e, após o susto inicial, começou a produzir em quarentena. O medo e a insegurança, que já são temas recorrentes na música de Jourgensen, foram devidamente atualizados para a conjuntura vigente e canalizados para a produção de um álbum angustiado, mas que mostra a capacidade de detectar a loucura da sociedade num episódio histórico como este. Sendo assim, “Moral Hygiene”, décimo-quinto álbum do Ministry, é este tipo de atualização sonora do caos cotidiano, com este “twist” pandêmico. Jourgensen, no entanto, conseguiu escapar de fazer um disco conceitual, apenas usou os fatos da covid-19 como um dado a mais em seu caleidoscópio, revestindo o resultado com tonalidades tenebrosas.

 

O disco traz a presença de Paul D’Amour, baixista que passou a participar da banda em 2019. Também temos ninguém menos que Jello Biafra colocando vocais na sensacional “Sabotage Is Sex”, revivendo por alguns instantes a parceria com Jourgensen no Lard. E temos uma cover, no caso, para “Search And Destroy”, dos Stooges, mostrando que o Ministry é uma ótima banda para versões, pois é daquelas que se apropriam totalmente da obra alheia e faz dela algo seu. Mas a estrela recorrente aqui é Al Jourgensen, que faz tudo no álbum: toca guitarra, baixo, teclados, samples, órgão e até harmônica, além, claro, de colocar sua voz de zumbi esclarecido em todas as canções, exceto quando Biafra assume o microfone. As guitarras estão esporrentas na medida certa, a pancadaria é constante e os climas estão no ponto para conduzir o ouvinte para a beira do precipício.

 

Destaques absolutos: “Disinformation”, provavelmente a melhor canção do álbum, tem uma levada de bateria sintetizada em looping, ao mesmo tempo que tem o peso de um mamute. Coisa de gênio no estúdio, no caso, o produtor Michael Rozon. Na abertura, uma fala sampleada, explicando o conceito de fake news como sinônimo de desinformação. A cover para “Search And Destroy” é boa, coloca o original em uma velocidade mais lenta e amplifica a comparação da vida na cidade com a sensação de estar num campo de batalha. O single “Alert Level”, uma verdadeira cacetada na lata, com a presença de Roy Mayorga (Stone Sour) na bateria e Prince Arabian, ex-NWA, nos scratches. “Believe Me” é outra maravilha, com dinâmica que poderia ser comparada à de uma canção pós-punk mais linear, mas que é assaltada pelas guitarras mais pesadas. “Broken System” é uma das mais pesadas e caóticas canções, soa como um ataque frontal a várias instituições que já faliram e insistem em nos atormentar. “Sabotage Is Sex”, a faixa com Jello Biafra, é sensacional na medida certa, com sua voz surgindo em meio a uma muralha de guitarras em andamento quase thrash. E o fecho com “TV Song #6”, um caos de remixagens e loucuras eletrônicas.

 

“Moral Hygiene” é ideal para os nossos tempos. Tem tudo o que este 2021 pede: fúria, revolta, atitude, inventividade e reencontro com sua melhor versão. É essencial para determinados momentos do dia, especialmente quando você se dá conta de que não é ministro da economia e não tem offshore em paraíso fiscal. Uma porrada perfeita.

 

Ouça primeiro: “Sabotage Is Sex”, “Disinformation”, “Alert Level”, “Broken System”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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