A Importância de Belchior e Seu Disco “Alucinação” No Brasil Contemporâneo

 

Para muitos, “Alucinação” corresponde a uma ode à desesperança, um disco amargo e pessimista que anuncia as dores de seu tempo. O fato é que tenho que concordar com tal afirmativa, apesar de, claro, encontrar no meio da poesia direta e realista de Belchior uma predileção filosófica em detrimento, inclusive, às convenções prosódicas que, não obstante, acaba por firmar uma característica similar ao canto de Bob Dylan, uma emissão peculiar, quase recitada. A filosofia que o impregna, não corresponde à vulgaridade semântica dessa palavra, tampouco a um mero existencialismo vazio e sem fundamento do qual um ouvinte atencioso reconheceria como pedante, mas, sim, a um conhecimento profundo da teoria que, nesse caso, se confunde com a prática.

 

Seria o niilismo o seu mote principal? Pode ser que em algum momento haja um diálogo com o seu parceiro de bigode, o Nietzsche. Mas o fato é que Belchior canta – em Alucinação – o Materialismo Dialético, forjando assim um contraponto, que na década anterior já havia sido feito, ao desbunde vivido pelos hippies tupiniquins. Em virtude das contrariedades que tanto os desbundados quanto os engajados tinham à ditadura militar, havia uma divergência mortal ao que fazer: enquanto uns optavam por fazer de suas vozes veículos de mensagens de teor marxista ortodoxo de forma voraz, a fim de estimular nos ouvinte um engajamento, os outro optavam por cantar a liberdade e propor a revolução através do comportamento. Essa dicotomia gerou a célebre circunstância de ruptura entre os movimentos musicais da época. Entre “alienados” e “autoritários”, houve o descrédito de uma revolução e, por outro lado, de uma liberdade individual possível. Com esse preâmbulo, quero colocar que essas dicotomias se fizeram presentes na cena musical brasileira até a consolidação da Tropicália, sendo ela a propagadora de uma nova ideia de música, fazendo até a Elis Regina, que era dessa ala mais ortodoxa, colocar guitarra em seus discos ao se impressionar com o rock n’ rol (veja só) de Gal Costa.

 

Estabelecida esta fotografia, podemos seguir com o disco analisado. O fato é que Belchior, em plena ironia, não tolerou os rumos discursivos da poesia indireta pós-tropicalista, buscando, assim, romper totalmente com essa tradição com sua fala direta. Nesse sentido, depois do seu primeiro disco, Belchior lança “Alucinação” que consolida na ordem lírica da MPB um contraponto aos artifícios desbundados desta. Portanto, há uma negação de qualquer espécie de esoterismo ou alucinação que não tivesse base concreta na vida real do brasileiro. Ou seja, cai por terra qualquer tipo de idealismo de paz e amor, trazendo ao fim do sonho (como disse John Lennon na música God) uma conotação realista e amarga, só que dessa vez, diferente da ortodoxia da década anterior, a análise poética é feita sob a luz, não do Manifesto Comunista, mas, sim, do método consolidado por Karl Marx, o Materialismo Dialético (ou Materialismo Histórico). Isso é feito a partir de uma crítica severa (como veremos à seguir) aos sonhos de “sleeping bag”, além de cutucar Caetano Veloso.

 

Caem os panfletos, caem as alucinações, só o que fica de pé é a ditadura. O que resta ao Belchior é olhar para o cenário “love & peace” anacrônico e fazê-lo acordar do tal sonho. Abrindo o disco, “Apenas Um Rapaz Latino-Americano” dá o ar da graça e mostra o que se quer dizer. Com sua letra voraz elucidando as dificuldades de viver em um país da América-Latina (que, naquele momento, era quase toda tomada por ditaduras de direita), o autor versa sobre como é não ser ninguém de grande importância no país em que vive, não tendo dinheiro. Logo após, a música tece uma crítica direta ao Caetano (que foi irônico em sua música) que não foi direto em “Divino Maravilhoso”, uma vez que Belchior coloca o título da canção em cheque. Ora, se tudo é divino e maravilhoso, não há como o que se preocupar, não é? Claro que Belchior entendeu a ironia, claro que Caetano estava incomodado com a ditadura, afinal, está foi categórica com ela ao expulsa-lo do país, mas o bode expiatório acabou caindo sobre suas costas. Com os versos “…no presente, a mente e o corpo é diferente e o passado é uma roupa que não nos veste mais”, “Velha Roupa Colorida” traz a necessidade de fugir dos antigos paradigmas. Fazendo referência à cultura hippies com “cabelo ao vento” e “dedo em V”, mostrando a necessidade de não vestir mais essa roupa, não compactuar com o pacifismo partir para o enfrentamento. “Por isso cuidado, meu bem. Há perigo na esquina.” alerta “Como Nossos Pais”, uma canção lindíssima e emotiva que mostra que “…eles venceram e o sinal está fechado pra nós, que somos jovens”. Entretanto, ele não se entrega, em “viver é melhor que sonhar”, há um abandono de um idealismo pra buscar um realista, uma concretude nas análises, a fim de enfrentar os desmandos dos militares. “Sujeito de Sorte” é o auge da ironia, versando sobre deixar de morrer e sobre as dores do seu tempo, Belchior desabafa suas lagrimas naqueles tempos difíceis. Assim, “Como o Diabo Gosta” vem como uma convocação, um grito para a mobilização, para nunca reverenciar e nunca obedecer. “Alucinação” surge como um grito contra qualquer tipo de alucinação que não tem base material, sendo uma ode ao materialismo dialético, ao que é real, concreto. A frase “Quem viver verá” termina a música “Não Leve Flores”, uma ode ao realismo da situação, uma vez que ele evidenciava um otimismo na juventude que abrigava uma revolução, mas mostra plena consciência de que as batalhas, até ali, tinham sido perdidas. Mas não por isso ele se nutre de um pessimismo, uma vez que aposta numa mudança radical no futuro daquele presente caótico. “A Palo Seco”, uma regravação de seu disco anterior, traz, novamente, a sina do latino-americano naqueles tempos: enquanto uns sonhavam, outros se desesperavam. Aparece, aqui, uma reverência ao tango argentino em detrimento do blues, buscando um ponto de conexão, de irmandade para com os nosso hermanos. “Veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem do norte e vai viver na rua” diz o canto em tom franco e sem rodeios em “Foto 3×4”, uma epopeia brasileira clássica do retirante nordestino enfrentando as “léguas tiranas” pra chegar na “cidade grande”. Antes do fim do disco, com o perdão do trocadilho, Belchior canta eem “Antes do Fim” que “aprendam o delírio com coisas reais”, encerrando, assim, a sua antologia de poesia analítica e direta.

 

Aqui há, portanto, dentro de um conceito integral do álbum, um método de análise. Não é só prosódia, mas, sobretudo, filosofia. Belchior não se furta de criticar os existencialismo burgueses para firmar sua posição categórica mediante o realismo e a visão concreta de mundo. Com isso, ele traça em suas palavras uma espécie de movimento “anti-hippie”, um despertar de Woodstock e Monterey. Nesse sentido, o autor convoca o ouvinte de seu tempo ao enfrentamento. Devido as similaridades do emergente autoritarismo de hoje e do já consolidado daquela época, esse disco se faz mais necessário do que nunca, propondo reflexões atuais sobre como agir. Dentro dos hermetismo que vão permeando nossa cultura a fim de atenuar as dores do capitalismo, o nosso cearense mostra uma recusa inabalável, trazendo à tona um questionamento sobre o que é necessário para enfrentar a barbárie. Entretanto, não é um panfleto, não existe uma fórmula que ele estabelece, mas, sim, justamente o oposto, pois através do método de análise, ele busca estabelecer, sobretudo, uma forma crítica de enxergar os contextos sociais a serem modificado, além, claro, de não compactuar com nenhum tipo de passividade hermética que busque atenuar os impactos de maneira individual: uma “revolução” pessoal com origem na ética liberal. Belchior se faz necessário em nossa era por seu enfrentamento, pois, meus caros amigos, viver continua sendo melhor que sonhar.

 

Alexandre Gallego

Alexandre Gallego é Publicitário de formação e pós-graduando em Filosofia Política, Ética e Contemporaneidade. Paulista por acidente, mas brasileiro por amor. Ama as notas dissonantes nos acordes de um saudoso João e a filosofia de asfalto de um tal Dylan. Um jovem nessa década que busca em outras as respostas para o agora.

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