Os 20 anos do primeiro disco do Superguidis

Frescor juvenil, avalanches de guitarras e letras que parecem fazer parte da trilha sonora de todo mundo que enfrentou o duro período da vida entre os 17 e 22 anos. Foi com essa fórmula aparentemente displicente que os guris gaúchos do Superguidis apareceram no cenário independente brasileiro em 2006. Lançado pelo selo “Senhor F Discos”, do jornalista Fernando Rosa, e produzido pela banda em parceria com Rafael Arce, a estreia homônima em disco do Superguidis abalou as estruturas do underground nacional da época. E não foi por acaso.
O time formado por Andrio Maquenzi (voz e guitarra), Lucas Pocamacha (guitarra e vocal), Diego Macueidi (baixo) e Marco Pecker (bateria) construiu uma pequena obra-prima do rock brasileiro feito na primeira metade dos anos 2000. E o curioso é que Andrio e Lucas assinam todas as 12 faixas do álbum. E separadamente! Lucas Pocamacha é compositor de sete músicas. Já Andrio Maquenzi compôs as outras cinco. Um formato pouco usual na maioria das bandas.
“O Raio que o Parta” (Pocamacha) abre o disco como um chute na porta, com guitarras distorcidas e uma letra curta e grossa que afirma: “mais de dois terços da minha cabeça estariam livres pra pensar em outra coisa / se não fosse você a infernizar a paciência”, para depois gritar para o mundo: “vá pro diabo que te carregue / vá pro raio que o parta”. Assim mesmo, direto, cru, um desabafo provocado por decibéis de guitarras ensandecidas.
“Malevolosidade” (Maquenzi) se tornou o grande hit da banda e um verdadeiro hino de uma geração da música independente. De uma simplicidade tão assustadora que a torna complexa. Guitarras que parecem nos carregar no colo para uma letra falsamente despretensiosa que “nos obriga” a cantar juntos. É libertadora a experiência de acompanhar a plenos pulmões versos como “Fale tudo que quiser de mim / faça de conta que eu sou uma imensa lata de lixo verbal / Um objeto onde você possa despejar / Toda a malevolosidade / Não sei se existe essa palavra / Já procurei no dicionário pra tu ver que eu não sou um cara ruim”. Constrangedora de tão simples, profunda por ser tão espontânea. Dessas coisas que a gente só tem coragem de escrever quando é muito novo. É uma das minhas músicas preferidas da vida.
Na sequência vem “O Tranquêra” (Pocamacha), com uma pegada mais pop cuja letra já é um acerto em sua primeira frase: “Não quero passar meus melhores anos esperando que eles cheguem”. Porque juventude é pressa, ora bolas! A levada pop se amplifica na deliciosa “Disco Arranhados” (Maquenzi), um verdadeiro tesouro da obra do Superguidis.
Em seguida temos “O Véio Máximo” (Pocamacha), o cúmulo da ingenuidade e, justamente por isso, irresistível. Já “O Banana” (Pocamacha) consegue a proeza de soar ainda mais ingênua, uma baladinha que termina com a frase-clichê “Agora todas as canções de amor fazem sentido”. E logo a seguir vem o grande acerto de Pocamacha no álbum, a delicada “O Manual de Instruções”, com letra que abre com “Chorei como criança perdida da mãe no centro” e sua maravilhosa conclusão: “Ah…se as pessoas viessem com manual de instruções!”. Andrio Maquenzi emplaca uma sessão extraordinária de três músicas seguidas: “Bolo de Casamento”, “Spiral Arco-Íris” e “Piercintagem”.
Depois vem “As Coisas que Crescem na Minha Mão”, de Pocamacha, a mais fraca do álbum. Lucas, porém, se redime no final apoteótico com uma balada emocionante de título “O Coraçãozinho”, com sua letra tão improvável quanto certeira: “O meu manancial de paz cresceu muito mais que o PIB da China em 2003 (…)”.
E assim se encerra um dos álbuns mais importantes da música contemporânea.
Ganhei minha edição de “Supeguidis” em 2006, das mãos do próprio Fernando Rosa, num evento no Recife. Eu já tinha 31 anos naquela ocasião, mas toda vez que ouvia o disco me sentia como se tivesse 17. Ele dialoga perfeitamente com um traço ainda adolescente da minha personalidade.
Tive duas experiências muito legais com o Supeguidis. Em 2008, a produção do “Abril pro Rock” tentou trazer para a programação do festival o então fenômeno adolescente Mallu Magalhães. Só que o cachê e os custos com o pessoal que acompanhava Mallu era tão alto que, com o mesmo valor, ou até menos, o “Abril pro Rock” fechou com Autoramas e Superguidis. Após o show da banda, fui conversar um pouco com Andrio e Lucas, que estavam muito gratos com a chance de tocar pela primeira vez no Recife.
Em 2010, em Natal, no “Festival DoSol”, tive oportunidade de conversar por mais tempo com a banda toda, pouco antes da apresentação deles. Vi os caras definirem o repertório naquele instante. Os presenteei com meu então recém-lançado livro, “Devotos 20 anos”. E eles, gentilmente, me deram uma cópia do seu trabalho mais recente, “Supeguidis 3”. O projeto gráfico do álbum é tão bonito que, quando pedi para eles dedicarem o disco, a reação unânime foi um “Mas vai estragar seu CD!”. Insisti para eles autografarem, o que foi feito. Guardo com muito carinho este disco na minha coleção.
O Superguidis lançou três discos. A obra-prima da estreia, que costumo chamar de “álbum adolescente”. “A Amarga Sinfonia do Superstar” (2007), que enxergo como a forma dolorosa de amadurecer, e “Superguidis 3” (2010), a maturidade completa.
Quando quero lembrar dos meus melhores e piores anos da adolescência, ouço o primeiro disco do Superguidis. Ele me remete aos tempos de incertezas e inseguranças que tive na época. Mas sempre deixa um sabor de felicidade ao final da audição.
Meu muito obrigado por isso, Superguidis!
Nota do Editor: “O Manual de Instruções” é uma das minhas canções preferidas de uma banda de rock nacional no século 21. Amo, parece um Teenage Fanclub de uma realidade alternativa, nascido no Brasil e amigo da gente.

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.
