A beleza da discografia do The Sundays

“Eu nunca deveria ter contado, que os livros que você lia eram tudo que eu amava em você”. Eu não sei vocês, mas eu considero este um dos versos mais terríveis, tristes e belos da música pop recente. E eles saíram da pena de David Gavurin e Harriet Wheeler, os cérebros pensantes da banda inglesa The Sundays. Essas palavras estão na letra de “Here’e Where The Story Ends”, o maior hit radiofônico do grupo, contido no seu primeiro álbum, “Reading, Writing, Arithmetic”, lançado em 1990. Este disco, mais “Blind” (1992) e “Static & Silence (1997), toda a obra do Sundays, serão relançados nesta sexta-feira, dia 14 de agosto, tanto em vinil como em CD. Ao que parece, não haverá nenhum acréscimo de faixa-bônus ou novidade, apenas a volta dos álbuns às prateleiras do mundo. Se olharmos em perspectiva, o Sundays é um desses grupos-ponte, ou seja, que não estão presentes em numa cena específica, mas que servem de meio de conexão entre dois desses momentos. No caso do grupo, falamos do indie rock inglês dos anos 1980, Smiths e Cocteau Twins à frente, e o som pop-rock alternativo dos anos 1990 de Cranberries, Corrs e similares.
Harriet e David eram – e ainda são – um casal. Se conheceram na universidade em Bristol e, depois da conclusão dos respectivos cursos, estavam desempregados quando começaram a compor e tocar. Daí, a partir de 1987, começaram a pensar em ter uma banda. Vieram Patrick Hannan e Paul Brindley, respectivamente para assumir bateria e baixo, e a primeira apresentação veio em 1988, em Camden, badalado bairro londrino. De atração secundária de um show com outra banda, o Sundays – já com este nome definido – passou a assunto principal, justo porque, entre a plateia, estavam alguns jornalistas musicais de Londres. Logo vieram gravadoras disputando o passe da nova banda, com vitória da Rough Trade Records e o lançamento de um primeiro single, “Can’t Be Sure”. Aqui já dava para notar a particularidade do som e da escrita da dupla Wheeler-Gavurin. Com uma melodia angular, mas doce o suficiente para as paradas de sucesso, a canção trazia os vocais agudos e sofridos – marca registrada do grupo – e versos inteligentes como “If England is happy as England can be//Why can’t I?”. Era uma época de transição sonora. E o Sundays estava num caminho todo próprio.
O primeiro disco, “Reading, Writing, Aritmethic”, lançado em 1990, foi recebido pela imprensa como “uma cópia de The Smiths”, mas com vocais femininos. Era uma análise coerente para a época, especialmente porque já era possível ver o avanço de sonoridades mais revolucionárias, como, por exemplo, o Stone Roses e a galera do novíssimo acid rock, porém, uma análise mais cuidadosa veria que o Sundays estava criando algo realmente novo. A mistura de melancolia que a voz de Harriet proporcionava, junto aos arranjos de rock de guitarras que Gavurin engendrava, junto com Hannan e Brundley, conseguia dosar o hermetismo de um Cocteau Twins e a acessibilidade erudita dos próprios Smiths, então já desfeitos. Com o tempo, a matriz de inspiração da banda de Morrissey e Marr provaria ser especialmente forte na geração pós-britpop. “Reading…” era um belo álbum, com algumas canções muito bonitas. Além de “Can’t Be Sure”, havia faixas como “Here’s Where The Story Ends” – que se tornou o maior sucesso da banda – estavam presentes lindezas como a doce “Hideous Towns”, a suprema “My Finest Hour”, a smitheana “I Kicked A Boy”, a melancólica e adorável “You’re Not The Only One I Know” e “A Certain Someone”, todas com uma persona feminina doce, erudita e tristonha, que Harriet encarnava muito bem. Na época, a Rough Trade Records era distribuída nos Estados Unidos pela DGC, o que proporcionou ao Sundays tocar por lá, ampliando consideravelmente sua base de fãs.

E foi pela gravadora inglesa, ou melhor, pela falência dela, que a situação do Sundays mudou. Forçados a assinar com a Parlophone na Velha Ilha, a banda entrou em estúdio para gravar o sucessor de “Reading…” sem qualquer pressa, o que, naquela época, era algo extremamente estranho. O low profile do casal principal dava espaço para vários boatos de crise criativa, separação, entre várias outras fofocas. Veio então “Blind”, lançado em outubro de 1992, precedido pelo single “Goodbye”. É um disco bem parecido com a estreia, com o mesmíssimo clima melancólico e o duelo gentil entre violões e guitarras dedilhados e os vocais angustiados. O que era novidade em 1990, o acid rock, já havia quase desaparecido das revistas britânicas, dando espaço para uma novíssima tendência sonora, que se chamaria britpop. Apesar disso, a banda seguiu inabalável e com agenda cheia, tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos, inserindo as canções do novo álbum ao repertório que já executava normalmente e tudo parecia absolutamente normal quando Gavurin e Wheeler decidiram dar uma descansada.

Entre 1993 e 1997, a banda só gravou uma cover de “Wild Horses” para um comercial de TV, ficando mais focada em descansar, compor e construir um estúdio em casa. Aos poucos, bem aos poucos, começaram a surgir as canções que dariam forma ao terceiro disco do Sundays, “Static & Silence”, que só saiu em setembro de 1997. De cara, o single “Summertime”, cujo clipe é absolutamente adorável, traz uma leve alteração na estética do grupo – a adição de metais e alguns sons diferentes de guitarra-baixo-bateria que até então dominavam. Mesmo assim, ainda estavam presentes as marcas básicas da banda – as guitarras doces e as letras, com os vocais lindos de Harriet, além de versos como “”And it’s you I need in the summertime//As I turn my white skin red… // Two peas from the same pod, yes we are//Or have I read too much fiction?”. O clima é notadamente mais alegre e colorido, algo que soava realmente novo em termos de Sundays. A canção fez muito sucesso na Inglaterra, também chegando ao Top Ten estadunidense. Depois dela, o grupo ainda lançou um outro single, a bela “Cry”, que fez menos barulho nas paradas. E só. Depois daquele fim de ano, o Sundays foi sumindo aos poucos das listas e entrou num hiato que dura até hoje, quase trinta anos depois. Ao longo desse tempo, vários rumores de retorno vieram e foram, com especial destaque para 2014, quando a banda concedeu uma inusitada entrevista a uma revista da American Airlines, na qual afirmou que as canções continuaram sendo compostas e que ainda decidiam se as gravariam ou não. David e Harriet, agora pais de um casal de filhos, ainda mantém uma postura absolutamente discreta, distante de redes sociais e qualquer meio de promoção pessoal. Isso ajuda a manter o mito vivo.
Por mim, já tive os três álbuns da banda. Os dois primeiros foram adquiridos numa viagem que fiz aos Estados Unidos em 1993. Eu já era absolutamente fascinado por “Here’s Where The Story Ends” e passei a gostar muito de outras canções do primeiro disco. Também gostei bastante da sonoridade de “Blind”, ainda que o considere levemente inferior à estreia. Tenho uma história pitoresca com “Here’s…”. Após passar um sábado com meus amigos de Uerj, Ricardo Benevides e Leo Salomão, vendo clipes e ouvindo músicas, voltei para casa e, naquela noite, tive uma baita crise de ansiedade, que me levou para o hospital, com a certeza absoluta que estava tendo sucessões de enfartos, derrames e toda sorte de situação de quase morte, tamanha a angústia daquela crise. Sei bem que não é a melhor lembrança, mas isso não manchou meu amor pela música, visto que, naquela tarde, havíamos visto e revisto o clipe de “Here’s…”. Harriet era uma espécie de musa informal para nós. Anos mais tarde, passando pela Saraiva Megastore do Centro do Rio, dei de cara com “Static & Silence”, naquele tempo doce em que era possível ver CDs importados com certa facilidade e adquirí-los sem muito susto, apenas com o que se tem na carteira. O tempo me fez ter hoje apenas o exemplar de “Reading…”, adquirido, se náo me engano, numa Sam’s Club de Miami.
A novíssima geração de artistas admira bastante o Sundays. Especialmente a adorável beabadoobee, cantora britânica de ascendência filipina, que chegou a registrar uma versão bem decente de “Here’s Where The Story Ends” num vídeo para a rádio americana Sirius XM. O relançamento da discografia da banda é motivo suficiente para celebrar que um legado, ainda que restrito a três discos, é forte o bastante para ressurgir assim, sem qualquer motivo ou acréscimo de novidades. Mas, que seria bom ver a banda lançar mais material novo, isso seria. Por enquanto, mergulhamos na bruma e na belezura dos álbuns que ainda estão aqui.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
