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O canto de cisne de Lee “Scratch” Perry

 

 

 

 

Lee Scratch Perry e Mouse On Mars – Spatial, No Problem
46′, 8 faixas
(Domino)

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

 

 

O lançamento de “Spatial, No Problem” (2026) confirma que Lee “Scratch” Perry e o duo Mouse on Mars sempre enxergaram o estúdio como um laboratório de alquimia, tratando a gravação não como um registro final, mas como uma aventura. Gravado em Berlim, em 2019, o álbum foge de qualquer cartilha: não é um disco de reggae tradicional, nem uma obra de eletrônica comportada. O que ouvimos é o resultado de quatro dias de trabalho guiado pelo improviso e pela recusa deliberada da perfeição. O grupo fez questão de manter as falhas, os chiados e as arestas, tratando cada tropeço como um desvio que valia a pena explorar até o fim. Em um cenário musical cada vez mais pasteurizado, essa honestidade crua soa como uma anomalia necessária.

 

A estrutura das oito faixas propõe um encontro entre mundos que, em teoria, falariam línguas diferentes. O Mouse on Mars, mestre em eletrônica picotada, usa a voz e os delírios de Perry como matéria-prima para seus sintetizadores. As sílabas e as risadas do jamaicano funcionam como gatilhos para as batidas, criando um som inquieto que muda de direção justamente quando o ouvinte pensa ter encontrado um padrão. Mesmo em meio a tanta liberdade experimental, o trio guarda espaço para o inesperado: quando decidem flertar com uma estrutura mais acessível, entregam “Curryman”, uma das grandes canções do ano. É um momento de clareza pop onde a abundância de elementos percussivos, toques orientais e texturas indianas se fundem e se sintetizam de maneira magistral, amarrando todo o caos do disco em um groove hipnótico.

 

A exploração geográfica e sonora ganha contornos fascinantes em faixas como “Hallo Shiva”, que mistura tudo o que você sabia sobre música indiana eletrônica e moderna e apresenta algo que te coloca no meio de um turbilhão de pessoas em Nova Delhi. Já “Economic Train” soa como se tivesse sido gravada em uma estação de trem empoeirada, servindo de elo perdido entre uma conexão imaginária de Kingston a Bangalore. É uma composição que ilustra bem a capacidade da dupla de criar cenários sonoros quase visuais. No fim do álbum, somos atropelados pela impressionante “State of Emergency”, uma peça que resume a urgência do álbum. Nela, o Mouse on Mars reduz a eletrônica ao limite, criando uma base discreta, que vai evoluindo num ritmo lento, que mais parece uma marcha fúnebre blues de Nova Orleans sobre a qual Perry lança versos que parecem ordens de um mundo em colapso. É um dos momentos mais magnéticos da obra, onde a claustrofobia sonora se transforma em uma força vital.

 

Nas intervenções vocais, Perry evoca aquela mistura única de profecia e ironia que definiu sua trajetória, mas aqui o tom é direto e urgente. O álbum evita qualquer cheiro de “homenagem póstuma” burocrática; em vez de olhar para trás, o grupo desmantela o dub e o reconstrói com texturas metálicas e batidas secas. A música aqui não é um objeto acabado, mas um organismo que respira, onde a presença de Perry se sente em cada camada eletrônica, mesmo com a ausência física do mestre na mesa de som. A produção abraça o ambiente, capturando o eco das salas, as respirações e os estalos que a produção moderna costuma esconder sob filtros digitais, transformando a audição em uma experiência tátil e profundamente viva.

 

No fim das contas, “Spatial, No Problem” é um lembrete de que a criatividade não possui data de validade. O estúdio, quando usado com coragem, funciona como um portal onde três cabeças inquietas puderam encontrar uma nova frequência para lidar com o mundo. Ao fundir a vivência mística de Perry com a tecnologia nervosa do Mouse on Mars, o trio entregou algo raro: um trabalho que não se prende a rótulos e que nos convida a ouvir o caos com novos ouvidos, sem medo de parecer estranho ou imperfeito no meio do caminho.

 

Ouça primeiro: “Rockcurry”, “Economic Train” e “State of Emergency”.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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