“The Boys Of Dungeon Line” é puro suco de Paul McCartney

Paul McCartney – The Boys Of Dungeon Line
47′, 14 faixas
(MPL)
(5 / 5)
Ao longo da minha vida, eu já vi Paul McCartney ao vivo no palco quatro vezes. Em cada uma daquelas noites, cercado por milhares de pessoas de todas as idades, a sensação era a mesma: a de estar diante de uma força da natureza que redefine, sozinha, o que chamamos de música pop no planeta. O que Paul construiu ao lado dos Beatles, dos Wings e em sua caminhada solo está presente na própria fundação da nossa cultura moderna. Ele será lembrado no futuro como Chopin e Bach são hoje. Paul é o arquiteto das melodias que moldaram gerações. Aos 83 anos de idade, ele não precisaria provar mais nada, nem pisar em um estúdio nunca mais. Porém, como revelou em entrevista recente à BBC, Paul compõe porque gosta. E ele não consegue evitar fazer isso. Quem acompanha a sua carreira sabe que ele sempre foi movido por uma busca incansável pela novidade, tentando soar atual, experimentando sintetizadores, flertando com o rock independente e lançando discos caseiros. Entretanto, em “The Boys of Dungeon Lane”, ele inverte essa lógica.
Aqui Paul deixou de lado sua busca pelo futuro e resolveu olhar pelo retrovisor, mas não para reciclar clichês velhos dos Beatles ou fazer média com o mercado atual. O álbum é um mergulho profundo, íntimo e vulnerável nas memórias de sua infância e juventude na Liverpool do pós-guerra, nos tempos pré-fama. O próprio título entrega essa geografia afetiva: Dungeon Lane era a estrada de terra em Speke que o pequeno Paul percorria a pé para observar os pássaros na beira do Rio Mersey, muito antes de qualquer sonho de Beatlemania existir. Esse ponto de partida faz com que o trabalho acesse o ser humano Paul McCartney, aquele garoto cheio de dúvidas e sonhos que pouca gente conhece por trás do mito intocável. Produzido ao longo dos últimos os cinco anos em parceria com Andrew Watt, o disco traz verdadeiras maravilhas que carregam um peso emocional raríssimo. A abertura dos trabalhos se dá com “As You Lie There”, uma faixa ambiciosa que chama a atenção por sua semelhança estrutural com o clássico “Band On The Run”, quebrando a linearidade ao mudar de andamentos e alternar climas de forma surpreendente ao longo de sua duração. Na sequência, em “Days We Left Behind”, guiada por piano e violão, ele canta sobre as tardes em bares esfumaçados e guitarras baratas, recriando o clima do início de tudo. O tom autobiográfico fica ainda mais escancarado na acústica “Down South”, onde Paul relembra as viagens de ônibus escolar ao lado de George Harrison, conversando no banco de trás sobre acordes e rock and roll — assuntos que, como ele bem diz na letra, nunca ficariam velhos.
Há também espaço para resgatar as histórias de sua família e as cicatrizes profundas que o tempo não apaga. Na melancólica valsa “Salesman Saint”, marcada por guitarras tristes e uma virada de ritmo que deságua em uma atmosfera de banda de coreto dos anos 1940, McCartney saúda de forma muito nobre o espaço e o esforço de seus pais para criar os filhos em meio às dificuldades financeiras e ao cenário cinzento da Segunda Guerra Mundial. É uma canção completamente nua, crua, onde a voz atual de Paul — visivelmente mais fina, cansada e trêmula pelo peso inevitável da idade — deixa de ser uma limitação técnica e joga totalmente a favor da narrativa. Ela funciona como uma testemunha real do tempo, uma prova viva de sobrevivência. Para quebrar esse tom sombrio e injetar um pouco de leveza no repertório, a psicodélica “Mountain Top” traz de volta aquele McCartney brincalhão, irreverente e solar da era Sgt. Peppers. Andrew Watt caprichou na produção aqui, enchendo a faixa com efeitos clássicos de estúdio, teclados espaciais e solos de guitarra invertidos que parecem flutuar no ar, mostrando que o velho Beatle não perdeu o gosto pela diversão pura.
O grande ápice de afeto, nostalgia e celebração do disco acontece em “Home to Us”. É aqui que o álbum promove o tão aguardado e chorado reencontro com seu eterno parceiro Ringo Starr. Ouvir aquela batida de bateria clássica, firme, simples e absolutamente única de Ringo sustentando o groove, enquanto os dois dividem os microfones principais, é de uma emoção indescritível para qualquer pessoa que ame a história da música. Não se trata de marketing; dá para sentir o calor do estúdio e a cumplicidade de dois sobreviventes que conquistaram o mundo juntos. O arranjo da faixa ganha ainda mais corpo e uma energia pop contagiante com os backing vocals de Chrissie Hynde (The Pretenders) e Sharleen Spiteri (Texas). Essas vozes femininas de peso envolvem o dueto dos velhos amigos, transformando o que poderia ser apenas uma faixa saudosista em um hino instantâneo sobre amizade, lealdade e pertencimento que vai ser cantado por muito tempo.
“The Boys of Dungeon Lane” prova que a verdadeira e duradoura genialidade não está em tentar parecer jovem para sempre, mas em saber envelhecer com dignidade, verdade e coragem. Ao recolher os fantasmas, os cenários e os primeiros amores de sua Liverpool natal para construir esse espelho de sua própria trajetória, Paul McCartney nos deu uma obra-prima de sensibilidade que desafia o cinismo dos nossos tempos. Ele mostra que, mesmo no topo do mundo, a sua essência continua ligada àquele garoto que caminhava na beira do rio. Para quem já teve o privilégio de aplaudi-lo de perto no palco por quatro vezes, este disco deixa de ser apenas mais um item na prateleira. Ele soa como o abraço mais sincero, caloroso e honesto que Paul já nos deu em toda a vida.
Ouça primeiro: “As You Lie There”, “Home to Us”, “Days We Left Behind”, “Down South”, “Salesman Saint”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
