Rappers lançam disco em homenagem a Erasmo Carlos

Erasmo Carlos e vários – Mano
29′, 8 faixas
(Universal)
(3 / 5)
Só consigo pensar em “Mano” com olhar utilitarista. Ele há de ter algum papel no esclarecimento de públicos, de apresentar a obra de um dos mais importantes artistas brasileiros de todos os tempos a uma galera que nem sabe quem foi Erasmo Carlos. Talvez apenas com esse viés haja razão para a existência deste álbum, composto por oito faixas, todas elas pertencentes ao período mais impactante da carreira de Erasmo, entre 1971 e 1974, quando ele verteu canções de cunho existencial, questionador e que refletiam nitidamente sua busca por um novo lugar no mundo, depois de fazer trinta anos e ser um dos maiores ídolos do país na década anterior. Em meio à ditadura civil-militar, qualquer questionamento mais elaborado poderia ser visto como subversivo, então, Erasmo, ainda que não tivesse a intenção de cutucar o sistema, fez algumas reflexões importantes, que ganharam corpo com o passar do tempo. A mais recente delas, certamente, é “É Preciso Dar Um Jeito Meu Amigo”, faixa do álbum “Carlos, Erasmo”, de 1971, que, antes de ser incluída na trilha sonora do filme “Ainda Estou Aqui”, já foi mencionada por gente como Mano Brown como fonte de inspiração. Sendo assim, como se saíram os rappers escolhidos para participar deste disco, na tarefa de atualizar canções que ainda soam atuais?
Antes de mais nada, o rap nacional não era um OVNI para Erasmo. Em 2018, lá estava ele convidando Emicida para participar da canção “Termos e Condições”, faixa do belo álbum “…Amor É Isso”. Depois, já no ótimo disco póstumo “Erasmo Esteves”, Emicida voltou a participar, dessa vez com a boa faixa “Tijuca Maluca”, que também contava com a presença de Rubel. E o próprio espírito livre de Erasmo, sempre disposto a novas explorações de seu trabalho, já afiança a empreitada, mesmo que, em vários momentos, ela tenha gosto duvidoso. Algumas faixas de “Mano”, um termo talvez excessivamente paulistano para uma pessoa como Erasmo, mas que substitui o termo “amigo”, soam muito preguiçosas, como se os rappers não conseguissem acrescentar muito ao que já soa próximo da perfeição. Se o exercício com canções belíssimas poderia tornar mais fácil a tarefa de lidar com material de tão alta qualidade, o efeito aqui, muitas vezes, gerou intimidação total. Há “reimaginações” pouquíssimo interessantes, mas também há boas situações.
O formato adotado foi de complementar um original de Erasmo com uma nova rima/canção que faça sentido no contexto. Certamente um dos pontos altos aqui é a faixa em que Rael acrescenta “Não Tem Pra Ninguém” à sacrossanta “Sorriso Dela”. A mistura dá liga, o vocabulário de hoje casa muito bem com o lirismo desencantado do original de Erasmo. A produção da faixa é inteligente para deixar falar bastante o instrumental belíssimo, com Rael se valendo da melodia para rimar e fazer um bom trabalho. A ótima “Cachaça Mecânica”, espécie de “Construção” de Erasmo Carlos, lançada por ele no álbum “1990 – Projeto Salvaterra” (1974), ganha nova vida com a ótima Budah, que acrescenta vocais femininos surpreendentes, urgência e rimas fortes com “Queimando Tudo”. O resultado é harmonioso e sobrevive sob o filtro do rap brasileiro atual sem perder o impacto do original. Tem malandragem e reverberação, fazendo a gente acreditar no que está sendo dito, detalhes imprescindíveis por aqui. E o outro momento bacana é “Gente Aberta/Imensamente Visceral”, em que Criolo entra duetando com o próprio Erasmo, na melodia original, preservando muito da beleza e integrando a parte nova de forma natural, que ainda conta com o flow de Tassia Reis.
As outras faixas de “Mano” ficam devendo. Emicida e Tropkillaz pegam a cereja do bolo “É Preciso Dar Um Jeito Meu Amigo” e quase conseguem se sair bem. O erro aqui foi apagar completamente o original, reduzindo-o a um refrão e ao andamento, com uma letra totalmente nova, dentro do estilo do rapper, não passa direto de ano mas vai precisando de pouco na prova final. “Mundo Cão/Quem É Herói Ou Vilão”, tem um beat bacana e com um quê noventista, mas Dexter abusa da preguiça, deixando para o velho Tremendão o serviço quase todo, resumindo sua participação ao final. O badalado Xamã, bom artista, derrapa feio em “Sábado Morto/Eu Enquanto Pássaro”, uma canção de amor soturna e intensa, que tem seus novos versos pautados por essa lógica de “romance” típica de hoje, algo que acaba criando um abismo de visões, cantos, posturas, tudo. Não funciona de jeito nenhum. “Maria Joana/Pra Que As Trevas Destravem” traz Marcelo D2 tentando dar um tom reggae ao original erasmiano sem conseguir e acrescentando rimas que quase não são ouvidas. Fica muito aquém do que pode fazer. E “Grilos” ganha o complemento de “É Tempo É Amigo e Inimigo”, com a dupla Tasha & Tracie, que não conseguem sinergia nenhuma, propondo um flow fraco e sem relevância. Como a maioria das faixas, boas e ruins, é quase impossível danificar completamente os originais dessa fase da carreira de Erasmo, mas o resultado aqui é realmente muito fraco.
“Mano” é bem intencionado e pode ter sido uma boa ideia na reunião de marketing. Até cumpre esse papel de apresentar Erasmo para uma galera que nunca ouviria falar dele, mas poderia ter resultados bem melhores.
Ouça primeiro: “Sorriso Dela/Não Tem Pra Ninguém”, “Cachaça Mecânica/Queimando Tudo” e “Gente Aberta/Imensamente Visceral”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
