Os 20 anos de “Transfiguração”, obra-prima do Cordel do Fogo Encantado

O Cordel do Fogo Encantado talvez seja a banda brasileira mais criativa a surgir desde Chico Science e Nação Zumbi. E cujo sucesso era mais improvável. Afinal, sua formação é 100% armorial. O time conta com Lirinha (Voz/Letras/ Pandeiro), Clayton Barros (Violões/Voz), Emerson Calado (Percussão/Voz), Nego Henrique (Percussão/Voz) e Rafa Almeida (Percussão/Voz). Ou seja, nada de guitarra, baixo e bateria. E ainda assim fazem um som pesado que a gente não sabe de onde vem. Aliás, nem banda o Cordel do Fogo Encantado era. Tratava-se de um grupo de teatro oriundo de Arcoverde, cidade localizada no sertão de Pernambuco. É justamente aí que a história começa a ficar saborosa.
Antonio Gutierrez é um jornalista paulista que veio ao Recife no meio dos anos 1990 para trabalhar na sucursal da Gazeta Mercantil na capital pernambucana. Mais conhecido como Gutie, logo fez amizade com a turma da cena musical recifense e virou produtor cultural. Criou o festival Rec-Beat, que acontece até hoje no Paço Alfândega, na região central da cidade, e cuja proposta é ir além dos ritmos tradicionais do período momesco. Antes mesmo de entrar nos anos 2000, o evento já tinha trazido gente do naipe de Ira!, Funk Como Le Gusta, a histórica banda paulistana Fellini e, vejam só, até o Mudhoney, ícone do movimento grunge de Seatle. Além, claro, de abrir espaço para as bandas locais e para atrações de cunho mais regionalista. É o festival perfeito para quem se sente deslocado nos quatro dias de folia. Além disso, Gutie já empresariava o Mundo Livre S/A desde o segundo disco da banda, “Güêntando a Ôia”, de 1996.
Um dia, Gutie foi ver uma peça de teatro que fazia parte do Festival “Janeiro de Grandes Espetáculos”, realizado no Recife. Entrou sem saber o que viria. E a atração era justamente o Grupo de Teatro Cordel do Fogo Encantado. Ficou tão impactado com o que viu que procurou os caras após o espetáculo, convidando-os para fazer parte da programação do “Rec-Beat” daquele ano, que aconteceria logo no mês seguinte. Mesmo hesitante, o grupo topou. Nascia ali a BANDA Cordel do Fogo Encantado.
E as coisas começaram a acontecer rapidamente para o Cordel. Lançaram, em 2001, o independente e homônimo disco de estreia, produzido por ninguém menos que Naná Vasconcelos. Gutie teve a ideia de vender o álbum encartado na Revista Trip. Vendeu como água. Ali aparecia o primeiro hit deles, “Chover (ou invocação para um dia líquido)”. E uma lenda. Toda vez que tocavam essa música ao ar livre, de fato, chovia. O segundo álbum, “O Palhaço do Circo Sem Futuro”, consolidou a banda no mercado nacional. Mas foi no terceiro, “Transfiguração”, de 2006, que o grupo explorou toda a sua genialidade e compôs a canção mais bonita da banda, a acima do bem e do mal “Preta”, de uma simplicidade e complexidade ainda não vistas até então na música brasileira. Composição toda de Lirinha, música e letra, e que gerou o emocionante clipe dela feito em animação.
O segredo do Cordel do Fogo Encantado está concentrado em três partes. Na genialidade da poesia de Lirinha, devorador de autores como Euclides da Cunha e do filósofo Nietzsche; na criatividade do monstro sagrado do violão Clayton Barros; e na percussão literalmente de terreiro praticada pela banda. “Transfiguração” já começa a soar diferente por conta do seu iconoclasta produtor, o saudoso Carlos Eduardo Miranda. O álbum dialoga com as dualidades regional/universal, tradição/modernidade, simplicidade/sofisticação. É pop sem ser simples, e hermético sem soar pretensioso.
O disco começa com a impressionante “Tlank”, poesia forte de Manoel Filó interpretada de forma brilhante por Lirinha: “A prisão é sinistra, amarga e feia/ Dum velório tem pouca diferença /Não conheço quem vá pedir licença/ Pra entrar no portão duma cadeia…” E logo na sequência entra o lindo violão de Clayton Barros para abrir a faixa seguinte, “Aqui (ou Memórias do Cárcere)”, que começa com uma maravilhosa letra de Lirinha: “Vou pregar na parede um pedaço de sol que você me mandou / Vou buscar outra constelação / Entre a noite que vai e o dia que vem”. E, de cara, o ouvinte já está completamente prisioneiro pelo clima de beleza e caos exercido pelo disco. Em seguida temos “O Sinal Ficou Verde (ou Além do Bem e do Mal)”, claramente influenciada por Nietzsche. Uma porrada sonora e lírica ao mesmo tempo, dessas que só o Cordel é capaz de produzir.
Depois vem a singeleza de “Sobre as Flores (ou O Barão nas Árvores)”, que abre com uma percussão bem trabalhada com o diálogo das cordas do violão de Clayton Baros, onde Lirinha conta a história de um “Barão que comia na mesa de seu pai / Era herdeiro primeiro dos currais / Mas gritou no jantar: ‘não quero nada’. E que acaba “subindo numa planta, no alto da pedra, bem perto daqui e ficou por lá”. Lirinha tem uma capacidade incrível de criar imagens estranhamente fascinantes.
E eis que vem a grande obra-prima do dico e da banda: “Preta”. Essa canção costuma levar o público às lágrimas durante seus shows. Já cheguei a flagrar gente da imprensa se debulhando em lágrimas quando essa música era tocada. Aliás, um show do Cordel do Fogo Encantado é uma experiência única. Ninguém sai impunimente dela. Confesso que “Preta” está entre minhas músicas preferidas de todos os tempos, em qualquer idioma.
“Pedra e bala (ou Os Sertões)” vem com a mais inusitada das participações: B. Negão, do Planet Hemp. E a parceria funciona maravilhosamente, em mais uma pedrada que tem como tema a Guerra de Canudos. Segue-se a ela “Louco de Deus (ou Perto de Você)”, que abre com percussão tecnológica (a cara do Miranda) e o violão desconcertante de Clayton para Lirinha cantar versos como “Eu sou um louco de deus / Eu sou um servo dos loucos de deus”. E chegamos na metade do disco com a faixa-título, “Transfiguração”, o instrumental mais denso de todo o disco. Outros destaques são “Morte e Vida Stanley”, que usa de forma magistral um nome estrangeiro para falar dos trabalhadores nordestinos explorados em fazendas, usinas e construção civil. A referência, claro, é “Morte e Vida Severina”, de João Cabal de Melo Neto. E “Cantos dos Emigrantes”, que conta até com colagem de “Take Five”, imortalizada pelo jazzista americano Dave Brubeck.
Há muito tempo cheguei à seguinte conclusão: o Cordel do Fogo Encantado conseguiu unir à perfeição música, literatura e teatro. Não é à toa que é tão bonito. Não é em vão que emocione tanto.

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.

Os componentes da banda Cordel do Fogo Encantado buscaram uma inspiração sofisticada e uma identidade única, se diferenciando do comum. A matéria me fez conhecer melhor a história desse grupo artístico e achei muito interessante. Hugo Montarroyos traz mais uma joia de matéria.
Excelente matéria. O texto consegue transmitir toda a grandeza do Cordel do Fogo Encantado e a importância de “Transfiguração” para a música brasileira. Uma homenagem justa a uma obra intensa, poética e atemporal.
Os shows do Cordel eram sensacionais. Em mais de uma vez choveu de verdade em “Chover” (a principal música deles na minha opinião) e o público foi ao delírio