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A sociedade de Neymar e do espetáculo

 

 

A presença de Neymar na lista final de convocados para a Copa do Mundo de 2026 mostra perfeitamente como o futebol brasileiro funciona em dois mundos totalmente diferentes. De um lado, temos a realidade nua e crua de um jogador que sofre com o desgaste físico e as lesões. De outro, vemos um show montado pela mídia que vive de curtidas, polêmicas e da lembrança do que ele já foi no passado. O anúncio causou uma empolgação automática na televisão e nas redes sociais. Foi uma reação barulhenta que deixou de lado qualquer análise séria para focar no puro entretenimento. Ao transformar a convocação de um jogador que não atua em alto nível há uns cinco anos em um evento milagroso, a maior parte da imprensa esportiva prova que não consegue separar o tamanho histórico do “camisa 10” da sua real condição atual de jogo. É um barulho sob medida para gerar audiência, usando o drama pessoal do jogador para disfarçar a falta de um projeto de equipe moderno e focado no presente.

 

O caminho de Neymar nos últimos dez anos detalha bem essa perda de ritmo e de força em campo. Entre 2015 e 2017, no seu auge pelo Barcelona, ao lado de Lionel Messi e Luiz Suárez, ele era um jogador que desequilibrava uma partida. Jogava com raciocínio rápido, partia direto para o gol e carregava o ataque contra os maiores rivais do mundo. Quando foi para o Paris Saint-Germain, entre 2017 e 2020, ele ainda conseguia decidir jogos importantes — chegando até a final da Champions League —, mas as lesões frequentes começaram a cobrar o preço, tirando aquela sua velocidade de arranque. O ponto de virada definitivo aconteceu na Copa do Mundo de 2022. Desgastado por problemas crônicos no tornozelo, ele já não conseguia acompanhar o ritmo físico de um jogo de alto nível, fazendo com que aquele belo gol contra a Croácia escondesse uma atuação muito abaixo do que ele costumava ter. Desde então, entre a passagem pelo futebol saudita, o retorno ao Santos e os longos meses parado por lesões graves, ele passou a viver apenas do nome e das polêmicas infindáveis. Seu futebol virou um jogo de toques curtos para cadenciar a partida, sem nenhuma intensidade para enfrentar as defesas mais fortes do mundo. Se o Santos parou nas defesas de Coritiba, Vasco e Recoleta, por que seria diferente contra as seleções de Espanha, França, Alemanha?

 

Além do declínio técnico, a própria conduta de Neymar ao longo da carreira ajuda a entender a enorme rejeição que ele carrega. O camisa 10 sempre pareceu mais uma celebridade do que propriamente um atleta comprometido com as exigências do esporte de alto rendimento. Com um comportamento para lá de questionável dentro e fora dos gramados, ele acumulou antipatia global pelas famosas simulações de falta — que viraram piada internacional, transformando-o em meme na Copa de 2018 — e por uma postura imatura diante das críticas. Longe dos treinos e dos jogos, sua rotina de festas, polêmicas e ostentação sempre colidiu com a imagem de liderança e seriedade que se espera de um capitão da Seleção. Esse pacote de atitudes transformou o jogador em uma figura dividida entre o fã-clube alienado e uma imensa parcela de torcedores que hoje nutre um verdadeiro cansaço por suas escolhas.

 

É aí que entra a figura de Carlo Ancelotti e os questionamentos sobre os rumos da nossa Seleção. O treinador italiano foi contratado com a promessa de trazer uma mentalidade europeia, profissional e moderna para a Amarelinha. No entanto, ele cedeu rápido demais ao markting e ao jeitinho do futebol brasileiro. Em vez de quebrar os velhos costumes, Ancelotti repete a mesma lógica de bastidores e privilégios que amarra a Seleção desde sempre, onde as escolhas táticas ficam em segundo plano para atender aos interesses de marketing e patrocinadores que precisam da marca “Neymar” em campo. O futebol atual, que exige muita correria e marcação pesada, pune os times que jogam com um atleta a menos na hora de defender, mas a comissão técnica preferiu o conforto do nome famoso em vez de renovar o grupo. Houve quem dissesse nas redes sociais – se Ancelotti já lidou com gente como Roman Abramovich, Silvio Berlusconi e Gianni Infantino, nossa gangue local não seria complicada para ele. Bingo.

 

Essa decisão da comissão técnica mostra como o comando do nosso futebol parece completamente desligado da realidade, uma ilusão que é alimentada e protegida por boa parte da grande imprensa do país. Em vez de questionar e fazer um jornalismo sério, os principais canais e portais funcionam como parceiros comerciais da CBF para transformar Neymar em um produto que não pode desvalorizar. Ele não é visto apenas como um jogador, mas como uma garantia de audiência. Afinal, falar dele gera cliques, vende comerciais e mantém os programas de debate cheios de polêmica todos os dias. Se você vai contra essa lógica, está “torcendo contra”, “indo contra a felicidade do povo” e outros clichês disparados pelo senso comum emburrecido.

 

Ao abrir mão da crítica, a imprensa troca os critérios de merecimento por frases prontas sobre “o peso da camisa” ou “a mística da experiência”. Deixa-se de lado o fato de que o Brasil tem hoje jogadores mais jovens com protagonismo no futebol europeu, como Raphinha e Vinicius Jr., para focar as câmeras no drama da recuperação de uma antiga estrela. Essa cobertura transforma o futebol em novela e ajuda a sustentar a falsa ideia de que o Brasil ainda entra na Copa como um dos grandes favoritos. Ao colocar os negócios e o show acima do esporte, a imprensa e a CBF escondem a verdade: hoje, o Brasil corre por fora no cenário internacional e o futebol se tornou o detalhe menos importante da festa.

 

Se o Hexa vier, terá vindo com todo esse cenário descrito acima. E não será essa conquista que provará que tudo isso aí é extremamente condenável.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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