16 Músicas Insuportáveis dos anos 1990 – versão nacional

 

 

Quando elaboramos a primeira lista de canções intragáveis dos anos 1990, com treze músicas gringas, muita gente pediu por um similar nacional. Antes de fazer este novo compêndio, esperamos para ver se o primeiro texto seria bem lido e ele ultrapassou as 1500 visualizações em menos de dez dias, o que nos motivou a enfiar novamente o pé na lama do horror musical noventista.

 

Sabemos bem que vocês podem discordar – para isso aguardamos as manifestações – mas também temos em mente que este tipo de texto é divertido e sempre serve para revisitar alguma canção perdida no tempo espaço. Nem que seja para comprovar que, sim, ela ficou péssima mesmo. No caso brasileiro, incluímos três canções de artistas mais popularescos, que tocaram demais na época e foram adotadas por um senso comum emburrecido ao longo do tempo. Identifique-as por aí. E boa leitura. Ou não.

 

 

– Por Você – Barão Vermelho (1998) – faixa presente no terrível álbum “Puro Êxtase”, no qual o Barão tentou usar timbres eletrônicos, seguindo a moda vigente entre os artistas pop rock nacionais da época. A letra – supostamente esperta – é um compêndio de pequenos luxos burgueses para significar sacrifícios cotidianos para ficar ao lado da pessoa amada. Em essência, um amor não deveria exigir tantas privações de uma pessoa, mas isso é outra história. Péssima e irrecuperável.

 

 

 

– É o Tchan – Pau Que Nasce Torto/ Melô do Tchan (1995) – a onda dos grupos de axé e axé-bunda foi forte e deixou marcas. O grupo baiano É o Tchan começou como Gerasamba, trocou de nome por conta de questões legais e inaugurou esse segmento no país com Carla Perez e Sheila Carvalho em coreografias ousadas. A canção tristemente sobreviveu ao tempo como uma espécie de monumento á ruindade e, para piorar, foi absorvida por uma parcela recente de indies espertinhos que se deleitam com este tipo de som.

 

 

 

 

– Cassia Eller – Malandragem (1994) – ninguém discute o talento de Cássia Eller e esta gravação é um de seus maiores sucessos. Porém, ninguém discute que é uma das piores letras de Cazuza, pobre e vazia de sentido. Cássia ainda deu forma à canção, mas ela acabou se tornando uma espécie de monumento à artista, um hino, algo assim e, sabemos bem, há uma tonelada de outras canções que soam mais apropriadas e interessantes. “Malandragem” é chata, repetitiva e encheu o saco há muito tempo.

 

 

 

 

– Vanessa Rangel – Palpite (1997) – lembro desta canção integrar a trilha sonora de uma novela global em que Carolina Ferraz fazia par romântico com Du Moskovis, que vivia, salvo engano, um personagem que era piloto de helicóptero. A melodia é grudenta, a voz de Vanessa é boa e “Palpite” se tornou uma dessas canções muito cantadas, muito executadas mas que ninguém entende muito o porquê disso. O arranjo é o grande problema – pobre e meio eletropop, vazio. No entanto, mais de 16 milhões de execuções no Spotify me contradizem.

 

 

 

 

– Titãs – É Preciso Saber Viver (1998) – presente no disco “Volume 2”, que surgiu como uma sequência do bem sucedido “Acústico MTV”, que a banda gravara anos antes, ou seja, versões abrandadas de canções antigas, algumas novas meio sem sal e esta cover de Roberto Carlos, que passou a tocar em todos os cantos do país. Perigava você ir ao banheiro de madrugada e estar tocando “É preciso saber viver” por lá. A versão é competente, o arranjo é respeitoso mas é uma dessas canções que saturaram a audição de toda uma geração de pessoas. O Titãs tem uma versão de Roberto muito melhor em “Querem Acabar Comigo”, a única coisa que salva seu inacreditável álbum de covers, “As Dez Mais”.

 

 

 

 

-Lulu Santos – Não Acredito (1990) – esta é uma versão para “I’m A Believer”, dos Monkees e ficou imortalizada no horror total da década pelo verso “Eu pensei que o amor fosse mole, mole assim, feito requeijão”. Só quem odeia muito uma canção faz uma versão dessas.

 

 

 

– Só Pra Contrariar – A Barata (1993) – esta inacreditável canção poderia até ter uma versão infantil não fosse o nonsense absoluto de sua letra e a onda do pagode noventista. O grupo mineiro, liderado por Alexandre Pires, foi um dos mais bem sucedidos da época e até tem uma ou outra gravação boa, caso de “Essa Tal Liberdade”, mas, em “A Barata”, tudo vai por água abaixo e a gente ainda lembra do programa do Gugu, do Faustão e outras inacreditáveis atrações televisivas.

 

 

 

 

– Jota Quest – Fácil (1999) – faixa do segundo álbum do grupo mineiro, esta canção é uma das mais terríveis composições já gravadas no país. Tudo é horrível nela, irrecuperável mesmo. Voz intragável, arranjo frouxo, letra adolescente de auto-ajuda, nada salva. Seria possível encher uma lista de piores canções nacionais de todos os tempos com várias gravações do Jota Quest, porém, todas elas são de 2000 para frente, fugindo do recorte desta lista. Esperemos, pois.

 

 

 

 

– Engenheiros do Hawai – Pra Ser Sincero (1990) – faixa do álbum “O Papa É Pop” e uma das mais entediantes melodias de todos os tempos noventistas. A letra é puro Gessinger em seus piores momentos, com um arranjo banal e chato. Bola foríssima dos Engenheiros.

 

 

 

 

– Capital Inicial – Primeiros Erros (2000) – a gravação original de Kiko Zambianchi, de 1986, é bem legal e marcou época. A regravação do Capital, ainda que tenha servido para reativar a carreira de Kiko, é exagerada, empastelada e com uma das mais terríveis performances vocais de Dinho Ouro Preto, um cantor conhecido por terríveis performances vocais. Tocou demais, vendeu demais e deu um impulso inédito à carreira do Capital, colocando-o em lugar de prestígio inédito até então.

 

 

 

 

– Capital Inicial – Natasha (2000) – composição do ótimo Alvin L, devidamente estragada pela interpretação da banda brasiliense. Também é bom frisar que esta não é uma das melhores realizações de Alvin, especialmente por conta de versos como “pneus de carro cantam tchuru tchuru tchururu”.  Não bastasse isso, a banda se refere a ela como “a nossa ‘She’s Leaving Home'”. Aí complica.

 

 

 

– Djavan – Eu Te Devoro (1998) – considero Djavan um dos gênios da música brasileira. Esta canção, no entanto, é um equívoco do início ao fim. Ainda que o arranjo mantenha o padrão jazz pop do trabalho do alagoano, sua letra – cheia do surrealismo brasileiro dele – exagera demais em falar de Via Láctea, dinossauros, Leonardo di Caprio e outros bichos. Além disso, sua execução em larga escala contribuiu para um fastio total.

 

 

 

 

– Mamonas Assassinas – Pelados Em Santos (1995) – o grupo paulista caiu como uma bomba na mídia nacional como uma mistura de rock e piada, como se fosse uma versão ainda mais infantil do Ultraje a Rigor. Esta canção foi a mais bem sucedida do álbum de estreia do grupo, mas, como toda piada, só tem graça uma vez, tornando-se intragável com o tempo. O acidente aéreo que tirou a vida dos integrantes do grupo foi uma das maiores tragédias da música nacional, explorada até hoje nos programas sensacionalistas da tv, os mesmos que deram espaço e visibilidade para a banda na época.

 

 

 

– Jorge Ben – W Brasil (1993) – Jorge Ben é outro gênio, mas, precisamos admitir que esta canção marca o ocaso absoluto de sua criatividade como compositor. Com uma letra mais surreal do que malandra ou lírica, ela serviu, no entanto, para levantar a carreira de Ben e colocá-lo na mídia no início dos anos 1990, surgindo no álbum “Ao Vivo No Rio”, de 1991.

 

 

 

– Raimundos – Mulher de Fases (1999) – a música dos Raimundos nunca foi boa, tampouco a banda. Machista, sexista e irreverente em excesso, suas canções oscilaram entre o péssimo e o horrível, porém, com uma vantagem, não se levarem a sério. Mesmo assim, é impossível ouvir a “obra” do grupo quando você ultrapassa os dezesseis anos de idade. Esta canção em especial, presente no disco “Só no Forévis”, é uma epítome de machismo tosco.

 

 

 

 

– Chitãozinho e Xororó – Evidências (1990) – essa canção é a campeã da lista, uma espécie de hino dos karaokes da vida, um desamor pelo próximo e por si mesmo. É uma coroação do modelo sertanejo da era Collor, sacramentado com ajuda da mídia hegemônica, cravado na memória e regurgitado por uma geração que ouve o galo cantar e não sabe aonde ele está. Um horror supremo, ressignificado e ampliado.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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