Viscerais e cerebrais, assim foram os Titãs em 1991

 

 

Não é por gostar dos Titãs que alguém tenha gostado de Tudo ao Mesmo Tempo Agora. Até Sergio Britto, um dos remanescentes da banda, falou, em entrevista recente, que não gosta desse álbum. Há quem prefira não falar sobre ele, mesmo que dele goste. Já eu, não é por gostar (embora eu goste), que vou sobre ele falar.

 

Meu fim é modesto: mostrar que esse álbum, que em 2021 chega ao trigésimo aniversário, é altamente titânico. Ou seja, não se trata de um ponto fora da curva dessa que se consagrou como uma das principais bandas de rock brasileiras. Ao contrário do que destacaram algumas críticas, Tudo ao Mesmo Tempo Agora foi um passo à frente, mesmo quando levou a destinos problemáticos.

 

Em certo sentido, o sexto álbum de estúdio do octeto foi sua obra mais coletiva e autônoma. Questões de agenda adiaram uma nova parceria com Liminha (ela havia produzido os últimos três álbuns). Com a paciência estourada, os Titãs dispensaram o colega e foram adiante.

 

Alugaram uma casa na zona oeste de São Paulo e ali instalaram um estúdio. As músicas já vinham sendo ensaiadas ao longo do ano. Mas durante as seis semanas de gravação elas passaram pelo liquidificador que misturava ideias e contribuições de todos. Os créditos não apontam autorias específicas para as faixas. Orgulhosamente estampam: “composto, arranjado e produzido por Titãs”.

 

Antes de seguir para a masterização, as gravações aterrissaram no estúdio de Liminha no Rio de Janeiro. Ali foram feitas a mixagem e as inserções complementares de teclados e vocais. Na casa paulistana, essas partes foram registradas no segundo andar. O primeiro, com todo mundo junto, ficou reservado para baixo, bateria e guitarras. Muitas guitarras.

 

A ausência de Liminha foi creditada para explicar o resultado lamentado por alguns críticos. Escreveu André Forastieri na Bizz de novembro de 1991: “Sem ele, os Titãs acabaram produzindo um disco retrógrado, totalmente 85. Soa como Cabeça Dinossauro talvez soasse sem a presença de Liminha: guitarras barulhentas e vocais pop, colaborando para produzir uma espécie de hardcore de FM”.

 

A questão é que a opção por um álbum com sonoridade básica, crua e suja foi deliberada, como explica a banda em entrevista na mesma edição da revista. Eles quiseram sim se livrar do arsenal eletrônico que Liminha aumentara a cada álbum que produzira. Eles quiseram sim ter como parâmetros para a mixagem a pegada de um Iggy Pop em Instinct e a despretensão de bandas como Mudhoney e TAD.

 

Os Titãs terminaram 1990 como uma banda consagrada por público e crítica. Õ Blésq Blom havia superado a marca de 200 mil cópias vendidas, shows lotados preenchiam a agenda do octeto e eles recebiam elogios até de um Caetano Veloso. Naquele ano, renovaram seu contrato com a WEA por mais quatro anos. Foi nessas condições favoráveis que decidiram montar o estúdio em uma casa, com uma despensa cheia e podendo receber a visita de namoradas, esposas e crianças. Ainda houve espaço para uma equipe de filmagem. A então iniciante Conspiração Filmes havia firmado um acordo com a então incipiente MTV Brasil para produzir um documentário sobre as gravações.

 

Portanto, a opção pelo “básico” não significava ir para trás. As 15 faixas incluídas em Tudo ao Mesmo Tempo Agora mostram o que a banda aprendera a fazer com baixas tecnologias. Todas músicas compostas recentemente, a ponto de nenhuma delas constar do setlist da apresentação no Hollywood Rock em janeiro de 1991. Nessas composições, os Titãs continuavam a elaborar os temas e as poesias de suas letras.

 

A microfonia da guitarra com que inicia e termina “Clitóris”, faixa que abre o álbum, anuncia a atmosfera que vai marcar a maioria das faixas. Paulo Miklos usa uma dicção limpa para invocar uma virgem suja com versos rebuscados, talvez inspirados no Marquês de Sade. A menção ao genuflexório retoma o cristianismo que é atacado de modo muito direto em um dos petardos de Cabeça Dinossauro, e que volta a preencher as debochadas estrofes de “Filantrópico”.

 

“O Fácil é o Certo” homenageia em seu título um pensador chinês do século III a.C. e dialoga com “Eu Não Sei Fazer Música”, “Se Você Está Aqui” e “Uma Coisa de Cada Vez”. Nas letras dessas faixas, está em questão a arte muitas vezes complexa de fazer o que se está fazendo exatamente como se faz. “Não é Por Não Falar” inverte o problema, refletindo sobre se cabe (ou não) dizer sobre a (in)felicidade. “Obrigado” pode ser reunida a esse time, mas seu minimalismo se rebela contra o duplo sentido da palavra.

 

“Já” é o título diminuto sob o qual se juntam frases que estão entre as mais geniais do rock brasileiro. “Você já tentou varrer a areia da praia?” é uma imagem surreal para o impossível. “Já gritou uma palavra até perder a fala?” é um possível desenlace para a euforia ou o desespero. “Já colocou todas as roupas do armário na mala?” é um desafio a sua capacidade de desapego ou de ruptura. “Jamais quis alguma coisa, já quis alguma coisa, já? Já quis demais alguma coisa já? Já?”

 

Em registros que beiram a incorreção, “Flat-Cemitério-Apartamento”, cantada por Branco Mello, enfileira sugestões que invertem a utilidade de certas mercadorias ou pervertem o serviço que algumas empresas ou instituições pretendem prestar. É sim uma letra grosseira, mas não deixa de ser também um exercício de imaginação contestadora.

 

“Eu Vezes Eu” usa a matemática para multiplicar dúvidas sobre a identidade. “Saia de Mim” vai em direção semelhante, mas usando outro recurso, jogando para fora o que nunca deixa de revelar sobre o interior. Há um diálogo com as enumerações da muito mais conhecida “Pulso”, também cantada por Arnaldo Antunes e registrada em Õ Blésq Blom.

 

“Cabeça”, além de encenar um contraponto potente entre guitarras e a bateria de Charles Gavin, também usa uma parte do corpo para fazer um exorcismo, uma extrusão, uma excrescência. A parte em questão pode ser imaginada em outros termos, conferindo sentido sexual ao que se expele.

 

Nessa leitura, “Cabeça” se juntaria a outras letras de corte escatológico, algo a que muitas vezes se reduziu a temática do álbum. Isso serviu também para que “Saia de Mim”, já boicotada em rádios, tivesse o seu clip (o único resultante de Tudo ao Mesmo Tempo) recusado pelo Fantástico. Busquei evitar essa caracterização, pois pode insinuar que fluidos corporais e impropérios verbais sejam pela primeira vez a tônica das composições, como se “Bichos Escrotos” (letra de 1982) não tivesse estranhado o bom gosto e como se partes sexuais já não estivessem em “Todo Mundo Quer Amor” (1987).

 

A mais alvejada a partir da ênfase no escatológico pelos comentários é “Isso para mim é Perfume”. Situações abjetas e linguagem sexual são utilizadas para falar da intimidade de um casal. Ou do que pode acontecer quando duas pessoas se tornam íntimas. Nesse sentido, é uma maneira de falar da “família”, outro tema a dar título a uma música da banda. A defesa, nas palavras de Sérgio Britto: “… tem esse lado bizarro, grotesco, e ao mesmo tempo é uma canção de amor”.

 

O visceral estrebuchado como poesia, talvez seja uma forma interessante de apresentar boa parte das letras desse álbum. Poesia, de todo modo, como é sem dúvida “Agora” em suas reflexões sobre o tempo. Esta foi parar em um dos livros de Arnaldo Antunes (Tudos) e mereceu uma versão pela sempre poética Maria Bethânia em 2007.

 

Temos então fortes razões para defender que Tudo ao Mesmo Tempo é ao mesmo tempo visceral e cerebral. Não só nas suas letras, mas também na sua sonoridade. A sujeira e a crueza que destacam as guitarras de Bellotto e Fromer são estruturadas matematicamente. Entende-se o papel de um computador que fazia companhia à banda em sua casa-estúdio, usado para estabelecer o “mapa” das músicas. Inserções cirúrgicas de efeitos complementaram as bases barulhentas.

 

A arte do álbum, melhor apreciada em sua versão em vinil, confirma o casamento feliz do visceral com o cerebral. A capa é composta por uma desconcertante colagem de desenhos de uma enciclopédia sobre o corpo humano. No encarte, estão as revelações de chapas de raios x que substituem fotos dos integrantes da banda. Miklos acerta ao chamá-las de nus radiográficos.

 

Contas feitas, Tudo ao Mesmo Tempo Agora mostra uma banda em movimento, elaborando temas que já percorriam suas músicas. A crítica social, o minimalismo, a identidade, o concretismo e o non sense são retomados e mesmo aprofundados. Os Titãs estavam buscando novos caminhos, e não regredindo.

 

É verdade, contudo, que o álbum de 1991 soa mais monocórdico do que os anteriores. Não que não houvesse variações. “Eu Vezes Eu” e “Não é Por Não Falar” poderiam estar em algum dos dois discos anteriores. “Se Você Está Aqui” e “Uma Coisa de Cada Vez” mostram um suingue que destoa da maioria das faixas. Aliás, Miklos compôs “Clitóris” como um samba-rock’n’roll, mas essa origem mal se percebe no mar de guitarras da versão que ficou registrada.

 

Essas variações, entretanto, não chamavam muito a atenção diante da sofisticação que percorria Õ Blésq Blom e Jesus não tem Dentes ou da pluralidade de gêneros que se acomodaram em Cabeça Dinossauro. Para quem estava esperando algo semelhante em Tudo ao Mesmo Tempo, a frustração é compreensível.

 

Há um outro deslocamento que faz parte dos resultados desse álbum. Junto com a potência das guitarras está a virilidade de algumas das letras. A escatologia que aparece nelas é basicamente masculina. Tal marca inexistia na carreira lírica da banda. Ela vai impactar o perfil de seu público e também o estilo de sua performance – como mostram Hérica Marmo e Luiz André Alzer no livro A Vida Até Parece uma Festa.

 

Se juntamos os dois pontos (poucas variações sonoras e muita testosterona lírica), é impossível não notar o contraste com outros caminhos tomados por alguns integrantes da banda. Esses outros caminhos aparecem no segundo álbum de Marisa Monte, com quem, aliás, namorava Nando Reis. Lançado também em 1991, Mais trazia em sete de suas 12 faixas colaborações com algum dos titãs.

 

Considerando isso, pode-se dizer que Tudo ao Mesmo Tempo Agora dependeu da construção de uma casa-forte, como se a diversidade musical tivesse que encontrar outros lugares para se expressar. A agressividade vai ser aprofundada e burilada pela banda em Titanomaquia, lançado dois anos depois. Mas então não seriam mais um octeto, desfalcados com a saída de Arnaldo Antunes, em parte por conta das tensões indicadas acima. Em 1991, no entanto, os Titãs ainda conseguiram dar um passo adiante fazendo tudo ao mesmo tempo agora.

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Emerson G

Emerson G curte ler e escrever sobre música, especialmente rock. Sua formação é em antropologia embalada por “bons sons”, para citar o reverendo Fábio Massari. Outra citação que assina embaixo: “sem música, a vida seria um erro” (F. Nietzsche).

4 thoughts on “Viscerais e cerebrais, assim foram os Titãs em 1991

  • 20 de maio de 2021 em 22:48
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    Sua análise é tão boa, tão além do senso comum das críticas e resenhas que saíram na época, que dá vontade de ouvir o álbum novamente!

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    • 22 de maio de 2021 em 18:19
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      Muito obrigado pelo comentário, João Carlos. Se meu comentário tá servindo para novas escutas, então foi na direção certa.

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  • 19 de maio de 2021 em 19:40
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    Nando Reis está com uma série (excelente) em seu canal no YT sobre fatos vividos nos 20 anos em que passou na banda. O último vídeo, no começo do mês passado, comentou exatamente sobre “Tudo ao mesmo tempo agora”. Vai daí, que mostrava até manuscrito da letra de “Flat-Cemitério-Apartamento”. Só para sentir versos que foram cortados da versão conhecida: “E se o Exército condecorasse soldados que beberam p**ra de sargento?” “E se o Jardim Zoológico desse a um gorila o nome de Milton Nascimento?”
    Minha opinião: como sonoridade, o disco é bom. Mais espontâneo do que “Titanomaquia”. Mas como letras e como clima, não é o melhor da banda. Titãs meio que subiram no salto, acharam que podiam fazer o que quisessem que ia atrair público. Deu errado…

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    • 22 de maio de 2021 em 18:24
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      Legal, Felipe, agradeço as reações. Não estava sabendo dos vídeos de Nando Reis. São legais mesmo os comentários dele sobre a fase do Tudo ao Mesmo Tempo. https://www.youtube.com/watch?v=Su7QvF2In44
      É uma discussão interminável esta sobre o “melhor disco dos Titãs”. Defendi em meu comentário sobre Tudo ao Mesmo Tempo que havia aspectos interessantes inclusive nas letras. Concordo que a banda foi um pouco arrogante, mas foi também outras coisas. Algo deu errado, é verdade, mas tem várias coisas que deram certo ali.

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