Algumas ponderações sobre o fim da Eldorado FM

Se me perguntassem, em algum momento da primeira metade dos anos 1980, o que eu queria fazer da vida, eu cravaria: ser programador de rádio FM. Era o meu paraíso prometido. Escolher as canções que fariam a delícia das pessoas, apresentar novos artistas, novas possibilidades, imagina só. Eu é que não imaginava que esta função estaria virtualmente extinta alguns anos depois. Depois de vários fins de emissoras de rádio FM e de sua transformação — ou passagem do uso da frequência — em “rádios gospel” ou “rádios evangélicas”, o mais novo acontecimento nesta triste seara é o fim da Rádio Eldorado FM no 107.3 de São Paulo. Isso não é apenas uma mudança de frequência; é o encerramento de um capítulo fundamental da curadoria musical no Brasil. Nascida sob o braço do Grupo Estado, a Eldorado ocupava um lugar de prestígio comparável ao que a Fluminense FM representou para o Rio de Janeiro. Ou a Ipanema FM para os ouvintes do Rio Grande do Sul. Emissoras que não apenas tocavam música, mas “educavam” o ouvido. Ainda que as duas últimas tenham funcionado como selos de qualidade e novidade do nascente rock dos anos 1980, a Eldorado cumpria este papel com uma programação que misturava jazz, MPB de vanguarda e rock clássico com uma elegância que poucas conseguiram replicar.
Essa despedida do dial, no entanto, não acontece no vácuo, mas sim como o ápice de um processo em que novos meios, como o streaming, se consolidam como substitutos virtuais imediatos do rádio. O que antes dependia de uma antena e de um horário específico, hoje está disponível em bibliotecas digitais infinitas, onde qualquer um pode mergulhar na discografia de artistas como o Black Crowes ou descobrir nomes novos como MJ Lenderman com um clique. Em que pese questões-chave sobre a remuneração paga aos artistas e outros temas espinhosos, é fato que a tecnologia democratizou o acesso. No entanto, essa transição carrega o peso da crise profunda que assola o jornalismo e a mídia tradicional. O fechamento de uma rádio desse porte é também o reflexo de um mercado publicitário fragmentado e de empresas de comunicação que lutam para sobreviver em um ecossistema onde a velocidade do algoritmo atropela a profundidade da apuração.
É fundamental pontuar, porém, que esse “apagão” da diversidade no dial brasileiro não é um acidente técnico, mas o subproduto de uma mídia historicamente concentrada nas mãos de poucas famílias. Esse cenário de oligopólio propicia um ambiente onde decisões puramente mercadológicas e de curto prazo ditam o que permanece no ar, sufocando projetos que priorizam a estética e o conteúdo em favor de modelos de negócio mais “seguros” e massificados. Curiosamente, o rádio em si não perdeu prestígio ou penetração — ele segue sendo uma ferramenta de alcance brutal, movendo multidões e ditando tendências nos nichos sertanejo e evangélico. Fora do Brasil, em mercados como o europeu e o norte-americano, o rádio FM ainda é um meio prestigiado, acessado e visto como peça-chave na descoberta musical. O que estamos assistindo aqui, portanto, é a asfixia de um tipo específico de rádio — a rádio de curadoria e pensamento — em prol de monopólios que preferem a repetição à invenção.
Ao perder a Eldorado, perdemos o “filtro humano” que separava o sinal do ruído. O streaming é eficiente, mas opera à base de algoritmos que, na maioria dos casos, nos entregam mais do mesmo, criando bolhas de conforto. A rádio trabalhava com a surpresa e com a voz do locutor, que trazia contexto e história — elementos que o ambiente digital, muitas vezes frio e burocrático, não possui. Sem esse mediador, a música corre o risco de ser despida da narrativa que a torna relevante. Essa mudança toca em um ponto central que a ensaísta Stephanie Boland discute em seus textos no Substack sobre a “morte da audição compartilhada”, só que no âmbito da pista de dança, mas tendo o streaming como alvo: a troca da experiência coletiva pela individual. Ouvir rádio — e dançar na boate — é uma sintonização social; é saber que milhares de pessoas estão sentindo aquele mesmo “groove” simultaneamente. O streaming nos isolou em fones de ouvido e playlists “feitas para você”, transformando a música em um consumo privado e, muitas vezes, descartável.
O fim da Eldorado é um lembrete de que a tecnologia facilita o acesso, mas pode empobrecer a alma da experiência. O desafio agora é não permitir que a música vire apenas um fundo de tela. Precisamos ocupar os novos espaços digitais com a mesma paixão e rigor técnico daquelas vozes que, por décadas, nos ensinaram que o rádio era muito mais do que apenas apertar o play.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
