Eminem no Oscar: quem pediu?

 

 

Cutucaram o Martin Scorsese que, do alto de seus 77 anos, deu uma cochilada, mas acordou sobressaltado. Pessoas se entreolhavam, perplexas. Gente se beliscou. Gente se pescotapeou. Alguém olhou para o teto, outros, para o chão, mas não restava dúvida. Era ele mesmo: Eminem, cantando ao vivo. E a pergunta veio em seguida: mas e daí? De quem foi essa ideia?

 

Pois era isso mesmo. Eminem tocou ao vivo a canção com a qual venceu o Oscar em 2003, “Lose Yourself”. Ela fez parte da trilha sonora do filme “8 Mile”, dirigido por Curtis Hanson, que fala da vida do próprio Eminem, ao abordar o drama de um aspirante a rapper, de nome Rabbit. Ele vive num cafundó ao norte de Detroit, no qual, vejam vocês, sofre discriminação por ser branco e querer ser rapper. Kim Basinger interpreta sua mãe e a falecida Brittany Murphy é sua namorada. O filme, bem, o filme é ruim, gente. A interpretação foi naqueles moldes do showbiz americano, com banda enorme, naipe de cordas, de metais, de sintetizadores, todos fazendo bastante mis-en-scene para executar a batida monótona da canção. Em alguns momentos, tive a impressão exata de que ele fazia um playback maroto.

 

Eminem surgiu no fim dos anos 1990 com a fama de invocadão e mauzão, a bordo de um disco chamado “The Slim Shady LP”. Fez sucesso, ganhou Grammy, lançou outros discos, mas até hoje seu maior feito – na minha modesta opinião – foi ter revelado Dido, que participou de sua canção “Stan”, hit no longínquo ano 2000. De resto, apenas o resto. Ele foi processado pela própria mãe, teve vários problemas com drogas e prisões, além de jurar que teve um relacionamento íntimo com Mariah Carey, que negou em seguida. Daí ambos ficaram se alfinetando através de músicas endereçadas um pro outro. Haja saco.

 

Se o Oscar 2020 teve uma pisada na bola, certamente foi essa ressurreição do Eminem, tocando uma canção premiada há 17 anos. Uma canção ruim, diga-se de passagem.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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