Rock sulista à altura do Nordeste

Em 2024, celebramos, merecidamente, os 30 anos dos álbuns que apresentaram o mangue beat ao Brasil: Da Lama ao Caos, de Chico Science e Nação Zumbi, e Samba Esquema Noise, da Mundo Livre S/A. Em 1994, tivemos também a estreia dos Raimundos, o que contribuiu ainda mais para destacar sonoridades nordestinas incorporadas ao rock. Referências regionalistas estavam em alta.
Em outras latitudes, algo semelhante estava acontecendo, mas sem ganhar a mesma visibilidade. Refiro-me especificamente ao caso de Florianópolis, com muitas peculiaridades em relação ao restante do sul brasileiro. Tal peculiaridade está bem representada na figura do “mané”. Sua elaboração é bem anterior aos anos 90 e tem a ver com a valorização cultural das origens lusitanas, mas é naquela década que imprime marcas na cena rockeira local.
Inspirados pelos pernambucanos, alguns produtores e artistas em Florianópolis passam a falar em “mané beat”. O termo é do final da década 90 e adotado, sem consenso, para apresentar bandas que já estavam em atividade desde alguns anos antes. Um traço comum entre elas era ter a região como tema de suas letras e incorporar sonoridades diversas ao rock. Compartilhavam esses traços as bandas Iriê, Primavera nos Dentes, Stonkas y Congas, Phunky Buddha, Tijuquera e Sallamantra, além do cantor Valdir Agostinho.
Nesse cenário, destacou-se a Dazaranha (que nunca assumiu participação no “mané beat”). Isso se expressa no fato de ter sido a primeira a lançar um álbum, o Seja Bem Vindo, em fevereiro de 1996. A banda chegou a bater na porta do Banguela, mas não conseguiu se tornar parceira de Mundo Livre S/A e Raimundos. Partiram, em sua terra natal, para o “faça você mesmo”, contando com a ajuda de recursos obtidos em edital da Fundação Catarinense de Cultura.
Com produção de dois integrantes da Dazaranha, Seja Bem Vindo foi gravado ao longo do segundo semestre de 1995 no Estúdio 156. Seu proprietário, Murilo Valente (que integrara duas das principais bandas da geração anterior, Tubarão e Decalcomania) foi o técnico de gravação e mixagem. O CD foi manufaturado e distribuído pela RGE em parceria com a RBS (representante local da Rede Globo), que abraçou o trabalho da banda.
O apoio já se expressara na inclusão de uma faixa na coletânea Ilha de Todos os Sons (1994). “Retroprojetor” apresenta vários dos elementos que identificam a da Dazaranha. A base é um reggae, que dá lugar a outra melodia no refrão, que destaca o violino e é preenchido por versos de capoeira. Ao final, um mantra hindu mesclado com solo de guitarra. Atenção: estamos em 1994, mesmo ano das estreias de Chico Science e Mundo Livre.
À essa altura, a banda, empresariada por Zeca Carvalho (um dos responsáveis pelo antológico programa radiofônico “Sincronia Total”), se tornara conhecida no circuito de bares que abriam espaço para apresentações ao vivo. Circuito restrito, que se ressentia da falta de festivais. A Dazaranha era parte de uma aposta coletiva em trabalhos autorais, em uma época em que a cena estava tomada por “bandas covers”.
A Dazaranha tinha em sua formação Gazu (Sandro Costa, no vocal), Chico Martins (guitarra), Adauto Charnesky (baixo), Moriel Costa (violão e guitarra), Fernando Sulzbacher (violino), Gerry Costa (percussão) e Zé Caetano da Silva (bateria). Moriel e Adauto formaram o núcleo original, ao qual se agregaram Zé Caetano, Gerry e Gazu – depois de tentativas com uma primeira vocalista, Nicole. Por fim, chegaram Fernando e Chico. Isso acontece em 1992.
Gerry, Moriel e Gazu são irmãos e moravam no Saco Grande, bairro situado entre o centro da cidade e as praias do Norte da ilha. Os outros quatro rapazes também moravam na região, o que é um fator importante na história da banda. Um detalhe curioso: por sugestão da comunidade, passaram a utilizar uma caixa de água abandonada como local de ensaios. Festas familiares embaladas a serestas e rodas boemias são valorizadas como parte da educação de vários deles.
Os irmãos Costa chegaram a formar um grupo de chorinho para apresentações nessas festas familiares. Moriel e Gerry se tornaram capoeiristas (desses com estágios na Bahia), enquanto que Gazu integrou uma banda de rock. Adauto (que havia participado de projetos musicais ao longo dos anos 80), Chico e Fernando cultivavam um gosto forte pelo rock metaleiro. No estilo de Chico, percebe-se a influência de Zakk Wylde, guitarrista de Ozzy. Fernando se tornou violinista desde criança, seguindo formação erudita e participando de orquestras sinfônicas.
A Dazaranha surgiu da confluência das muitas referências que percorriam a vida de seus integrantes, todos na faixa de vinte e poucos anos. Seu som escorre de um caldeirão: o rock internacional e brasileiro, o reggae (que era especialmente apreciado em Florianópolis), outros gêneros de raiz africana (facilmente reconhecíveis na percussão), até mesmo o baião. O violino aparecia como um distintivo, em registros que podem ora lembrar um Jethro Tull, ora remeter, na parceria com a guitarra, a Novos Baianos, ora parecer como uma rabeca em gêneros folclóricos, ora ainda embalar um vaudeville. O vocal, com seu sotaque manezinho, suscita aproximações tanto com o rap quanto com os timbres de um Alceu Valença.
A sonoridade da Dazaranha mostrava-se assim bastante sintonizada com a inclinação às misturas que dão a tônica do rock brasileiro dos anos 90. Sua peculiaridade nesse cenário tinha exatamente a ver com o fato de processar referências locais. Entre elas estavam a banda Engenho, uma espécie de MPB catarinense, que se destacou no começo dos anos 80. E também a Gente da Terra, conjunto de música regional, com uma repercussão mais restrita.
Para descrever os temas que percorrem as letras da banda, peço licença para citar o trabalho de Guilherme Castro: “as paisagens da Ilha de Santa Catarina; a prática do surf e da capoeira; o folclore e a herança cultural da cidade; os personagens típicos da comunidade do Saco Grande (…); a destruição da natureza causada pelo impacto do progresso e pelo turismo predatório”. E mais: sexo, drogas e religião. Os versos guiam-se pelo som das palavras, em criações surreais que acham maneiras de fazer rimar asfalto com pescaria, feijão com detergente.
A banda já em seu nome remete à geografia local: as ilhas, o morro e o canto das Aranhas. Tanto o som quanto as letras evocam o universo mágico sugerido pelo folclore, como o boi de mamão e as bruxas. É música urbana, mas que cultiva ancestralidades. Abraça a vida (o nome do álbum é uma saudação ao filho de Moriel concebido durante as gravações) e lamenta a morte (Seja Bem Vindo é dedicado a Ricardo Emmanuel da Silva, irmão de Zé Caetano, recém falecido).
Em sua capa, o CD reproduz uma das obras de Janga, artista plástico que trabalha com temas primitivistas, como as antigas inscrições rupestres que se espalham por vários lugares da ilha e que aparecem também em foto no encarte. Palavras de origem indígena espalham-se nas letras da banda, assim como “negros e negras pretas” que criaram os ritmos de sua música.
Portanto, se é verdade que a Dazaranha participa dos movimentos que valorizam as raízes lusitanas dos “manés”, não menos importante é o fato de incluir na identidade local, como constitutivos, elementos que remetem a criações indígenas e africanas. Portanto, uma Floripa multifacetada e plural, mais próxima do nordeste brasileiro. Uma cidade ciosa de suas raízes e também cosmopolita em seus projetos. Coincidência ou não, entre 1993 e 1996 o município viveu uma experiência singular, tendo como prefeito Sérgio Grando, político de formação comunista.
Dez faixas, dez sons
É uma tarefa difícil descrever o que escutamos em Seja Bem Vindo. Pois as diversas referências acima apresentadas não geram uma única resultante. Cada faixa tem uma sonoridade própria. O mais justo é fazer um passeio pela sequência de canções do álbum.
“O diabo desembarcou na ilha”: é o primeiro verso de “Padre”, que abre o álbum. Uma verdadeira saga musical com mais de 5 minutos, desde o riff inicial de guitarra até a conclusão quase orquestral. O recheio é pop rock, embalando a letra que apresenta o enigmático padre e a própria banda: “É dazaranha quem, quem é que é dazaranha, dazaranha quem?”
“Shau Pais Baptiston” é um dos vários personagens ilhéus que desfilam pelas letras. Moriel, que aqui assume os vocais principais, se esbalda em jogos de palavras, entre os quais está um verso bem direto: “Protejam as tartarugas!” Nessa faixa, a percussão é fundamental, assim como os riffs de guitarra e violino.
“Mamica” é puro groove, novamente destacando o trabalho de guitarra e violino. A letra é uma parceria de Moriel com Ricardo Emmanuel da Silva. Faz poesia com essa parte do corpo humano: “Cochicho lambido / assunto atrevido no pé do ouvido / arrepia!”
Em “Galheta”, as palavras seguem a melodia do violino. A bateria oferece uma base constante para o riff intermitente da guitarra. A percussão, aqui e ali, chama a atenção. Toques orientais acompanham a letra: “Velhos bruxos praticam yoga dentro da fogueira / Sinhá dos anjos tocava sino balinês para o saci”. Galheta é uma praia da ilha, conhecida pela prática do nudismo. A música é sexualmente explícita.
“Novos Ditados” facilita a descrição: é um reggae. O diferencial é o violino, seja em toques sutis, seja no solo no meio da canção. A letra de Gazu reescreve, com muita ironia, provérbios populares, a começar a com: “Água mole pedra dura / Tanto fura até que bate”.
“Equilíbrio” marca uma passagem no álbum para melodias mais pops. Essa faixa é dominada pelo riff de guitarra e violino. Em um trecho, a percussão ganha o primeiro plano no contraponto com rugidos metaleiros. A letra de Gazu enfileira referências que marcam a banda: o prazer de cantar, a menção a um familiar (integrante do Gente da Terra), cenas do centro da cidade, a ecologia panteísta da ilha.
“Seja Bem Vindo” inicia com uma linha de baixo marcante, logo acompanhada pela guitarra e pelo violino, que vão ziguezagueando para nos levar a sonoridades do baião e do boi-de-mamão. O refrão é pop: “Maravilha de Deus, lagoa encantada / Motoca na água, esgoto na praia”. A letra de Gazu mistura lamentos ecológicos com uma crônica da epidemia do HIV, mandando um recado para o preconceito: “Beijar na boca não agride ninguém”.
O trabalho de descrição complica bastante quando chegamos em “Chevrolet”, cuja letra, de Moriel, narra um diálogo de cigarros e palavras dentro de um carro. Um samba calmo com toques de jazz? Isso, no começo. Lá pelo meio, Gazu transfigura-se em menestrel. Em seguida, Chico solta um solo de guitarra que carrega a música de tons progressivos. Tudo isso em pouco mais de três minutos.
“Muralhas Brancas” é a única faixa com participação de Adauto na letra, em parceria com Moriel. Cheia de ironias, é dedicada ao mesmo tema a que Eric Clapton consagrou uma música: “Somos unidos pelo pó”. É a canção mais pop do álbum, com destaque para a percussão e para a guitarra.
A última faixa é “Café com Cigarro”, composição instrumental de Chico e Adauto, com Gazu liberado para tocar tamborim. Um delicioso sambão rock, com um riff de guitarra marcante. A música tem um clima de jam session, com os instrumentos de cordas se revezando em solos que acompanham a melodia.
Seja Bem Vindo foi relançado em 2001. Da edição original restou uma questão técnica a ser solucionada: a falta da masterização, que deixou o registro alguns decibéis abaixo do padrão. A banda aproveitou para acrescentar cinco faixas às dez originais, com a participação do novo baterista, Adriano Barvik: novas versões para “Galheta” e “Novos Ditados”, duas músicas antigas, “Cubo” (curtidíssima pelos fãs) e “Mario Cesar” (“desenhado na parede da borracharia”), e uma recente, “Tsé-Tsé”.
Aliás, os registros de apresentações da Dazaranha de meados dos anos 90 mostram que sobrava repertório – e criatividade. Por exemplo, o show de lançamento em Florianópolis teve 18 músicas, incluindo algumas que seriam gravadas em outros álbuns da banda. É o caso de uma versão acústica de “Vagabundo Confesso”, o grande sucesso de Tribo da Lua (1998).
Esse show ganhou várias participações especiais: capoeiristas e dançarinas afro, percussionistas extras e um trio de sopros. Durante a performance de “Ê país” (outra faixa que estaria em Tribo da Lua), Gazu citou quatro músicas: “Luis Inácio (300 picaretas)”, “Rio 40 Graus”, “A Cidade” e “Legalize Já”. Uma demonstração da sintonia da Dazaranha com a cena do rock nacional contemporâneo. Uma reivindicação para dela também fazer parte.
A trajetória dos “manezinhos” é longa, com oito álbuns de estúdio (o último, de 2025) e outros lançamentos. Reveza-se entre apostas em um trabalho de repercussão nacional e momentos mais focados no lugar onde continuam a viver. Houve mudanças na formação (mas Moriel, Adauto, Fernando, Chico e Gerry persistem) e na sonoridade (atualmente mais pop). Em sua terra, muita gente tem “o Daza” no máximo das estimas. No mínimo, seu álbum de estreia deveria constar entre os destaques da música feita no Brasil na década de 1990.
Nota: para a elaboração deste texto, consultei muitas entrevistas disponíveis na internet e diversos trabalhos acadêmicos. Tive com Fernando Sulzbacher uma generosa conversa – registro aqui meus agradecimentos.


Emerson G curte ler e escrever sobre música, especialmente rock. Sua formação é em antropologia embalada por “bons sons”, para citar o reverendo Fábio Massari. Outra citação que assina embaixo: “sem música, a vida seria um erro” (F. Nietzsche).
