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Suede mantém a boa fase com “Antidepressants”

 

 

 

 

Suede – Antidepressants
40′, 11 faixas
(BMG)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Para efeito de compreensão, dá pra dividir a carreira do Suede em dois períodos: o primeiro, que vai de 1992 a 2002, com cinco álbuns de canções originais e uma coletânea dupla. E a chamada “ressurgência” da banda, a partir de 2013, que, com este novíssimo “Antidepressants”, completa o quinto álbum de canções originais e mais algumas gravações ao vivo e todo um trabalho de relançamento dos primeiros cinco discos em versões comemorativas e cheias de bônus. Em termos matemáticos, a nova fase já ultrapassa a anterior em anos, mas só agora atinge o mesmo número de trabalhos originais. Ou seja: não dá mais pra cravar que banda é o Suede, aquela ou esta, visto que a sonoridade que eles vêm construindo se caracteriza por um enorme abraço a referências oitentistas de punk, pós-punk e tecnopop daquele tempo. Sai o híbrido glam que marcou o início da carreira do grupo e entra uma sonoridade que, a meu ver, é mais interessante, consistente e que vem dando frutos inegáveis de sucesso de público e crítica. Se o álbum anterior, “Autofiction”, colocou o grupo nas paradas de sucesso depois de muito tempo e foi chamado pelo vocalista Brett Anderson como “o disco punk do Suede”, este novo trabalho, “Antidepressants”, é o disco pós-punk do Suede. E está ótimo assim.

 

E não é só “um disco pós-punk”, é um “baita disco pós-punk”, seja em conceito, qualidade das composições e no resultado das gravações. O time que produziu o excelente álbum anterior está de volta, liderado pelo produtor Ed Buller, mostrando que sabe extrair cada gota da sonoridade musculosa que o grupo pode oferecer hoje em dia. Ao longo dessas onze faixas há ecos de um monte de bandas inglesas bacanas dos anos 1980, de Magazine e Killing Joke, chegando até a momentos mais soturnos do New Order. Se o trabalho anterior me lembrou muito Echo And The Bunnymen, a coerência procede nesta exploração dos tons escuros e lúgubres daquele lado “dark” dos anos 1980. E a temática que unifica as canções deste álbum não poderia ser mais pertinente – a desesperança que leva as pessoas ao … riso. Ao desespero que faz a gente … rir. Parece – e é – contraditório mas é, ao mesmo tempo, muito humano e real. Numa Europa sem eira nem beira, às voltas com o recrudescimento de várias questões que pareciam superadas e enfrentando guerra, medo e miséria, o que mais poderia acontecer com gente minimamente consciente? O pessimismo, a desesperança, tudo isso temperado por tiques e taques da modernidade vigente, que empodera bufões conservadores lá e aqui.

 

É uma espécie de outro lado da moeda atirada em nós com o álbum anterior. Se a primeira faixa dele, “She Stills Leads Me On”, na qual Anderson celebrava a permanência de sua mãe em sua memória e cotidiano mesmo após sua morte, aqui ele nos brinda com “Desintegration”, uma ode ao oposto disso. E valoriza essa nossa “chance” de nos desintegrarmos após algum tempo de vida, simplesmente sumindo. É prático, porém assustador e neste paradoxo repousa a temática de “Antidepressants”. Os dois lados de algo que parece inevitável, o nosso presente. A situação da Europa atual é materializada diretamente em “Dancing With The Europeans”, que conjura Bowie e Manic Street Preachers em doses equivalentes, falando sobre o fim do otimismo do continente, o futuro e as interrogações que pairam. “Sweet Kid” também parece com a banda galesa, especialmente na progressão da melodia e nos timbres das guitarras, mas a voz de Anderson nunca soou tão urgente, nem em seus primeiros e famintos momentos nos anos 1990. Talvez essa sensação seja amplificada por ele ser hoje um jovem senhor de 57 anos, mas, vá lá, a impressão é de uma mensagem que precisa ser ouvida, do contrário, ela se autodestruirá em quinze segundos.

 

Há outros muitos momentos sensacionais em “Antidepressants”. “Broken Music For Broken People” talvez seja minha preferida de todo o álbum. A impressão é de que alguém está pregando no alto de uma montanha. A letra é pessimista até os ossos e um dos versos finais setencia a decepção final: “When the lights went out//We believed in something rather than nothing”. Há ecos explícitos de New Order em “Trance State”, especialmente no timbre de baixo estalado que a canção ostenta, diretamente inspirado em Peter Hook, mas os vocais de Anderson novamente fazem a diferença, pairando absolutos sobre a canção. “June Rain”, a penúltima faixa, tem vocais recitados e uma pegada suicida, de alguém que caminha de olhos fechados no meio do trânsito em meio a um instrumental que vai crescendo e tangenciando o que hoje chamam de dreampop. E “Life Is Endless, Life Is A Moment”, a climática faixa de encerramento, tem uma pegada elegante que mistura timbres de guitarra quase góticos com uma certa aura de balada rock clássica. É totalmente anos 1980, no sentido, sei lá, Echo And The Bunnymen?

 

“Antidepressants” confirma essa segunda fase da carreira do Suede como, no mínimo, tão boa quanto sua primeira década. Aqui tudo é pesado, bem feito e intenso. E você tem que ouvir.

 

 

Ouça primeiro: “Life Is Endless, Life Is A Moment”, “June Rain”, Broken Music For Broken People”, “Sweet Kid”, “Dancing With The Europeans”, “Desintegrate”, “Trance State”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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