Parcels é australiano mas parece francês

Parcels – LOVED
46′, 12 faixas
(Because Music)
(4 / 5)
Do início dos anos 2000 para cá, uma leva de grupos franceses surgiu com uma proposta interessante: usar informações da Disco Music e do funk setentista, misturá-las com eletrônica e oferecer uma sonoridade “nova”, mais ou menos em paralelo à acid music inglesa, de Brand New Heavies ou mesmo do Jamiroquai inicial. Grupos como Phoenix, Cassius e o próprio Daft Punk deram início a esta sonoridade e ela foi evoluindo para se tornar muito pop com o passar do tempo. Hoje em dia, dá pra dizer que o também francês L’Imperatrice e o australiano Parcels são os dois responsáveis pela manutenção dessa proposta, que se espalhou pelo planeta e fez surgir uma nova geração de artistas devotos de linhas de baixo, batidas e arranjos de cordas sintetizadas. Pois bem, também é possível afirmar que o Parcels já é uma influência importante na música atual e seu novo álbum, “Loved”, chega agora com a missão de, ao mesmo tempo, inovar e manter esse status. Todos os elementos estão presentes – belas melodias, arranjos que misturam novo e vintage, com boa noção do que está sendo feito, e uma alegria que passa longe do estereótipo blasé que muitas bandas ainda insistem em manter. Ao longo das doze faixas deste novo trabalho, o grupo parece que está na beira de uma piscina, tomando drinks coloridos.
“Loved” é o terceiro disco do Parcels e foi gravado em estúdios localizados em Berlim, Sydney e Cidade do México, ao longo de turnês que o grupo empreendeu nos últimos dois anos. Isso mostra como esta sonoridade nu-disco atual pode ser bem sucedida com grandes audiências, ao mesmo tempo que permanece relativamente atrelada a algo de alternativo. No caso do Parcels, a ideia é procurar uma identidade própria dentro deste contexto, algo que a banda tem conseguido. Talvez a grande diferença entre eles e os grupos franceses é a relativa falta de vergonha em buscar inspiração em detalhes pop do passado, fornecidos por excentricidades como bossa nova ou mesmo a psicodelia sessentista. Há vários momentos em que as canções oscilam da ferveção dance para a introspecção, quase resvalando o que se costumava chamar de “música lenta”. Este traço estético é sinal de habilidade na hora da composição e do arranjo, algo que o tecladista Louie Swain, o tecladista e e guitarrista Patrick Hetherington, o baixista Noah Hill, o baterista Anatole “Toto” Serret e o guitarrista Jules Crommelin
parecem ter de sobra.
O ouvinte pode se surpreender com alguns detalhes. Na ótima “Ifyoucall”, segunda faixa de “Loved”, dá pra notar um arranjo saltitante que vai ganhando força aos poucos. Em entrevista recente, a banda disse que se inspirou em música tocada em “bailes brasileiros”, o que nos deixa com a pulga atrás da orelha para perceber que a levada de guitarra carrega esse detalhe, mas os vocais vão numa outra direção, criando uma fusão pouco imaginada mas muito legal. Quando tudo deslancha, no minuto final, a música parece uma faixa do Earth, Wind And Fire, caso ele tivesse começado a carreira há cinco anos. Em “Safeandsound” a banda fala sobre “ignorância é bênção”, ou seja, a belezura de se alienar diante da rapidez dos fatos e do cotidiano. Faz isso em meio a uma levada derivada do AOR mais clássico do início dos anos 1980 nos Estados Unidos. O tom é mais tristonho, mas igualmente belo. Já em “Yougotmefeeling”, a coisa volta para a pista de dança, com nítida influência do pop disco do fim dos anos 1970, com melodia grudenta, guitarrinha fazendo chacundum e vocais de apoio, tudo impulsionando o ouvinte para a diversão.
“Leaves” é mais aceno para a era de ouro da Disco Music, seja na guitarrinha, seja na melodia. Mas a ideia aqui não é a diversão, visto que a letra fala de um rompimento amoroso e a surpresa que isso causou. Ainda que a ideia aqui seja mais soturna, a banda meio que oferece o passaporte para “dançar com lágrimas nos olhos” ao ouvinte. Na ótima “Everybodyelse”, o ritmo diminui para um funk pop lento que também vai lembrar de canções AOR do início dos anos 1980, com um tom contemplativo, que vai sendo colorido pela entrada dos teclados e outros detalhes. Destaque para o timbre da bateria de “Anatole “Toto” Serret, mais cru e grave, pouco ouvido hoje em dia. Em “Leaveyourlove”, single do álbum, a festa corre solta no ótimo groove da guitarra e do baixo, suportados pela sólida bateria. É o tipo de canção que mostra do que a banda é capaz. E “Finallyover” é outra canção com levada mais lenta, escrita quando a banda voltou para casa após uma extensa turnê na Ásia. Fala sobre a belezura de estar em casa, sozinho, por sua própria conta após tanto tempo junto de tanta gente.
“Loved” é um disco que coloca o Parcels no mapa definitivo da boa música pop feita hoje. Eles não abrem mão de lapidar arranjos, esticar suas influências estéticas e oferecer boas canções. Ouçam.
Ouça primeiro: “Leaves”, “Finallyover”, “Everybodyelse”, “Leaveyourlove”, “Safeandsound”, Ifyoucall”, “Yougotmefeeling”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
