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O improvável e sensacional retorno do Ivy

 

 

 

Ivy – Traces Of You
40′, 10 faixas
(Bar None)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

O Ivy é uma das minhas bandas-xodó. Lembro que minha amiga e primeira editora, Claudia Reitberger, adorava o trio novaiorquino, não só por sua mistura elegante de pop, eletrônica e referências sessentistas, mas pela vocalista francesa Dominique Durand, que dava um tom de editorial de revista de moda às capas do grupo. Ainda que Durand fosse, de fato, uma vocalista charmosa e estilosa, o Ivy funcionava a partir da genialidade de Adam Schlesinger, baixista, vocalista, compositor e idealizador do conceito do trio, juntamente com o guitarrista Andy Chase, companheiro de Durand. Adam trazia as ideias, as composições e, junto com Andy, poliam e produziam na medida exata para a voz de Durand fazer sua mágica e ter como resultado uma das sonoridades mais bacanas daquele tempo. Depois de seis álbuns, sendo o último, “All Hours”, de 2011, o Ivy entrou em hiato. Schlesinger estava mais dedicado a projetos televisivos de trilhas sonoras e também colocou no estaleiro a sua banda principal, Fountains Of Wayne. Com sua morte prematura e tristíssima em abril de 2020, por conta da covid-19, o Ivy parecia fadado a se tornar apenas uma lembrança bacana de um outro tempo. Mas não. Nada disso.

 

Por conta de uma busca nos arquivos de gravações para as edições de vinte e cinco anos dos seus primeiros discos, Andy e Dominique encontraram várias canções inacabadas, iniciadas por Adam e nunca concluídas pelo trio. Por alguma razão, ficaram de fora de diferentes discos ao longo do tempo e agora, pleno 2025, foram reagrupadas, finalizadas e compõem este surpreendente “Traces Of You”, o novíssimo disco de canções inéditas do Ivy. Quem acompanha o cotidiano de Dominique e Andy sabe que eles nem tinham redes sociais e a banda era representada no Instagram por uma página conduzida por fãs. Em pouco tempo, dada a procura e o borburinho instaurados, o interesse pelo Ivy reavivou-se. Era uma dessas formações cujas canções apareciam em várias séries da década de 2000, como “Gilmore Girls”, “House”, “The 4400”, “Veronica Mars”, entre outras , bem como em filmes como “Quem Vai Ficar Com Mary”. Lançar um novo álbum, ainda mais com a presença de Adam, é algo próximo do impossível. Mas aí está.

 

Participam da empreitada o guitarrista e colaborador de longa data, Bruce Driscoll, o baterista Joey Waronker, o tecladista genial Eric Matthews, além de Brian Young e Jody Porter, estes últimos, membros do Fountains Of Wayne, o que dá a “Traces Of You” a pinta de uma verdadeira celebração da genialidade de Schlesinger, algo que é bem merecido. Ainda que as canções tenham sido composta num intervalo entre 1995 e 2011, o disco esbanja concisão e coesão. Tudo funciona bem e o tratamento/finalização dado pelos músicos aos originais/rascunhos de Schlesinger é exemplar. O que sempre fez o Ivy sensacional foi o amor de seus criadores pelos anos 1960, no sentido Serge Gainsbourg do termo, e pelos anos 1980, no sentido New Order do termo. A fusão dessas duas visões, conseguida pelo trio em suas obras pregressas, dá as caras logo na primeira faixa, “Midnight Hour”, em que o timbre de baixo característico do New Order surge nos teclados e programações da canção. A partir daí, a belezura total está instaurada e nos convidando.

 

“Fragile People”, um dos singles, é Ivy clássico. Parece uma faixa de seu segundo – e belo – disco, “Apartment Life”. Tem um riff hipnótico de guitarra, minimalista ao extremo e um mundo de vocalizações de Dominique, que parecem vir de todos os cantos. Já em “Mystery Girl”, o luxo do arranjo, com teclados emulando vários timbres, lembra Prefab Sprout e Everything But The Girl, bandas das quais o Ivy é descendente direto. A faixa-título é outra fofura sonora, novamente com os vocais de Dominique sendo colocados em efeitos discretíssimos e pontuando uma melodia belíssima. “The Great Unknown” pega uma batida dançante parecida com o que a banda usou no último trabalho, “All Hours”, e novamente evoca o clima de um New Order do multiverso ou algo assim, só que com vocais femininos em vez do velho Bernard Sumner. Em “Say You Will”, o tom é de pop elegante dos anos 1960, algo de uma Petula Clark ou semelhante, devidamente atualizado para hoje. “Heartbreak” faz uma concessão a um pop soul igualmente sessentista que cai muito bem no repertório do Ivy. O baixo de Schlesinger, preservado e valorizado pela produção, ressoa e conduz a bela melodia. E “Lose It All” é a mais bela do álbum, com um arranjo de tirar o fôlego, cheio de cordas e andamento psicodélico, uma lindeza máxima. As duas últimas faixas, “Wasting Time” e “Hate That It’s Time” são mais sessentistas, sendo que a última é uma elegante balada com guitarras dedilhadas, que vai crescendo e absorvendo.

 

“Traces Of You”, não bastasse o milagre que é, também é um dos mais belos trabalhos do Ivy. Tem tudo o que fez o trio ser amado e comprova o quanto sua obra é legal, bem feita, de extremo bom gosto e talento. Uma surpresa improvável e sensacional, pleno 2025.

 

Ouça primeiro: o disco todo.

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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