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O tédio animado do Foo Fighters em mais um disco …

 

 

 

Foo Fighters – Your Favorite Toy
36′, 10 faixas
(Roswell)

2.5 out of 5 stars (2,5 / 5)

 

 

 

 

Ai, gente, olha o Foo Fighters aí de novo. Mais um disco lançado, dessa vez, chama-se “Your Favorite Toy” e traz dez faixas com a marca Dave Grohl de música: guitarras em alta velocidade (são três na banda), vocais filtrados e/ou gritados, andamentos herdeiros do rock americano dos anos 1990 soando como se qualquer imperfeição ou humanidade fossem filtrados por uma pasteurização sonora e letras sobre qualquer coisa que tenha a ver com “angústia”, “inadequação”, “mágoa”, “tristeza”, mas, no fundo, ninguém se importa com o que Dave está cantando. Quer dizer, a menos que você seja um dos fãs dedicados do Foo, um número ainda bem grande. Além de levar em conta o que é dito nas canções, essa gente ainda atesta uma veracidade rock da banda, pouco ou nada diferente de um senso comum que ignora qualquer mudança que o estilo possa ter sofrido ao longo dos últimos trinta anos. Ou seja, é uma galera sob medida para achar que o Foo é, realmente, a epítome do rock, mesmo que sua música não ofereça qualquer átimo de novidade. E a questão “força” das gravações, que, sim, carregam esse imaginário sonoro do estilo, torna-se cada vez mais relativa, uma vez que Dave é personagem – boa gente, bacana, legalzão. Não parece ser capaz de expor nada muito além disso.

 

Claro, há trabalhos do Foo em que os fatos falavam por si. O último, “But Here We Are”, de 2023, foi lançado no rescaldo da morte do baterista Taylor Hawkins e da mãe do vocalista/guitarrista. Era de se esperar algo terrivelmente diferente do que sempre foi lançado, mas não, ou melhor, por uma ou duas faixas. Aliás, há um detalhe estético presente nas gravações mais recentes do Foo, pelo menos nos últimos três álbuns: um flerte discretíssimo com timbres do pop rock oitentista, temperando a fórmula pop-pós grunge que a banda desenvolveu a partir da chupinhagem explícita do que faz Bob Mould, um notório “muso inspirador” de Grohl, que deveria cobrar royalties pelo uso indiscriminado de sua matriz sonora de anda-e-para rock, usurpada pelo Foo ao longo dos anos. Aliás, justiça seja feita: Grohl e sua turma soaram interessantes quando se transmutaram em “Dee Gees” e lançaram um disco com versões dos Bee Gees e algumas inéditas com arranjos bem próximos do que seria um híbrido funk de branco roqueiro alternativo. Foi legal, mas foi bem pouco. E já passou.

 

Para não dizer que há alguma novidade em “Your Favorite Toy”, o produtor Greg Kurstin está ausente da pilotagem no estúdio. Não que isso seja notável em algum detalhe das gravações. Tudo soa absolutamente do mesmo jeito de sempre. Quem assina a produção é Oliver Roman e a própria banda, ou seja, o próprio Grohl, e, repito, isso não significa nada de novo. E tem o bateria Ilan Rubin, que segura as baquetas dessa vez, novamente, apenas um detalhe. Tudo que é feito aqui visa favorecer o que parece ser entendido como o grande trunfo da banda – uma espontaneidade rock, que tem a ver com diversão, guitarras altas, uma verdadeira sucessão de clichês. É um trabalho que poderia ter sido lançado há vinte anos e ninguém notaria uma diferença sequer. É música que não avança e não retrocede no tempo, terrivelmente anódina.

 

E dentro desse espectro de possibilidades realmente pequeno em termos de Foo Fighters, temos três faixas que escapam desse “tédio animado” que caracteriza a banda. “Your Favorite Toy”, a canção, é inegavelmente energética e responde por esse lado rápido do Foo, que ainda pode render algum interesse, ainda que seja total “mais do mesmo”. “Unconditional” ameaça emular a levadinha de bateria de “Close To Me”, do The Cure, mas envereda por um pop rock classudo e inegavelmente oitentista numa boa progressão de melodia e contenção de Grohl, que não grita em nenhum momento da canção. E mais próximo do que o Foo faz normalmente, “Child Actor” tem um crescente de melodia x peso, numa boa progressão, ainda que inferior a exemplos clássicos como “Everlong” ou “Floaty”, mas é uma marca registrada que a banda ostenta. De resto, momentos cansativos por todos os cantos, provando esse “tédio animado” que a banda oferece a quem ouve.

 

“Your Favorite Toy” será vendido como “o bom e velho Foo Fighters voltando ao que sabe fazer de melhor”, mas não será nada absolutamente criativo, instigante ou novo. É apenas o mais do mesmo dentro do mais do mesmo dentro do mais do mesmo, num vórtice em que todo mundo corre atrás do próprio rabo, seja por preguiça, seja por incapacidade de fazer algo diferente.

 

Ouça primeiro: “Child Actor”, “Unconditional”, “Your Favorite Toy”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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