ArtigosDestacãoMúsica

“Selvagem?” – Quarenta anos da ruptura com o rock nacional

 

 

 

Digo sem medo de errar: “Selvagem?”, terceiro álbum dos Paralamas do Sucesso, é o disco mais importante lançado por uma banda de rock nacional nos anos 1980. Ganha de “Dois”, da Legião Urbana e de “Cabeça Dinossauro”, dos Titãs e eu explico o porquê. “Selvagem?” representou, ao mesmo tempo, uma inovação impressionante naquela cena de músicos e um aceno inédito a todo um contingente de música brasileira que, antes dele, era simplesmente ignorado ou execrado por roqueiros vigentes. Me refiro à música negra global, brasileira inclusa, um conceito que nem existia por aqui e que o álbum ajudou a entender e pavimentar um caminho que daria, entre outros destinos, no Mangue Beat e demais manifestações de fusão entre ritmos negros. Foi um verdadeiro terremoto, algo absolutamente inesperado, especialmente para um grupo como os Paralamas, tido até então como pouco mais que meninos da Zona Sul do Rio, conceito errado, mas não completamente, não que isso os desmereça por qualquer coisa. É que, com “Selvagem?”, o trio saiu gloriosamente do escaninho rocker brazuca para adentrar terra incógnita, algo absolutamente sensacional e intuitivo.

 

Quem já estava ouvindo música naquele tempo, há de se lembrar que as emissoras de rádio anunciavam “Alagados”, o primeiro single do disco, como “a moda de viola dos Paralamas”. A revista Bizz, em sua edição de junho de 1986, abre sua resenha – elogiosa – sobre o álbum, referindo-se à canção como “a moda de guitarra dos Paralamas”. A canção nos obrigou a entender que Herbert Vianna estava se apropriando do highlife, um estilo guitarrístico africano, totalmente desconhecido da maioria dos “entendidos” em rock naquela época. E a faixa, que abria “Selvagem?”, tinha uma letra e uma cadência que mais parecia com um samba-enredo do que qualquer outra coisa. Não por acaso, tamborins eram parte do arranjo, junto com bateria, bateria eletrônica e a voz de Gilberto Gil no meio do coro do refrão. A história do disco, no entanto, vai muito além de um desejo simples por novidade, ainda que o alvo tenha sido tão peculiar e inusitado para a época. Passa por uma série de fatores interessantes, alguns bem casuais, que convergiram ao mesmo tempo para o fim de 1985, quando o grupo precisou adiar seu processo de composição de faixas para o sucessor de “O Passo do Lui”, álbum lançado em 1984, que levou a banda para o Rock In Rio e a colocou no mapa nacional do rock daquela época.

 

João Barone sofrera um acidente automobilístico em Porto Alegre e precisara colocar alguns implantes de metal na perna fraturada. O resultado: repouso total e um bom tempo parado. Herbert e Bi continuaram ensaiando, com uma pegada mais instrumental e de improviso. Era um tempo em que dois amigos próximos da banda – Mauricio Valladares (radialista e fotógrafo) e Hermano Vianna (irmão de Herbert) – estavam com a mesma ideia, a de investigar a produção musical negra daquele meio de década. Não só o hip hop ainda novo nos Estados Unidos, mas o reggae e o dub ingleses, bem como ritmos africanos diversos, levados para lá por filhos de descendentes de ex-colônias no Caribe e na própria África. Era um tempo em que a produção musical inglesa, notório motor de criação do rock brasileiro oitentista, era bem diversificada nos subterrâneos, mas pouco ou nada dessa galera chegava por aqui, deixando o público e os próprios músicos restritos a uma dieta em que o máximo da revolução era The Cure e similares. Os Paralamas já eram fissurados em bandas que cruzavam a fronteira do pós-punk. Amavam The Police, The Beat e várias formações da galera Two-Tone. Gostar dessa nova leva de bandas e artistas foi um prolongamento natural de sua área de interesse.

 

 

Mas não foi só isso. O trio viajou pelo país durante todo o ano de 1985. Saiu da bolha – para usar um termo contemporâneo – do circuito Sul-Sudeste de shows e embrenhou-se pelo Norte-Nordeste, indo tocar em vários lugares que nunca ou quase nunca viram um show de artistas como eles. E Herbert, um dos mais hábeis poetas de sua geração, começou a perceber que o escopo sonoro, existencial e social, tanto daqui, quanto do submundo londrino do afro-reggae-dub tinham muito em comum. Aos poucos a tomada de consciência foi acontecendo, com o surgimento de grooves reggae muito mais focados e pesados, algo que a banda apenas tangenciara nos dois discos anteriores. Mas também vieram letras e arranjos inovadores para a palheta de cores paralâmica. “Alagados”, como já dissemos, tem essa pegada de evolução-harmonia numa passarela de samba, mas tem a letra com crítica social fortíssima, falando de alienação pela TV, conjunção de fatores entre comunidades carentes no Rio, Salvador e Kingston, capital da Jamaica, e todo um imaginário coletivo-musical brasileiro até então inédito para gente da geração da banda. A inclusão de “De Frente Pro Crime”, de Aldir Blanc e João Bosco como música incidental de “Alagados” é sintomática dessa metamorfose estética. Mas ela é muito mais abrangente. “A Novidade”, por exemplo, traz mais uma participação de Gilberto Gil, dessa vez na autoria da letra. Conta a história que Herbert fez o convite e enviou a melodia na parte da manhã e Gil respondeu às 14h do mesmo dia, com tudo pronto.

 

O clipe da canção é antológico, mostrando o trio na travessia Rio-Niterói, viajando de barca em meio ao público incrédulo. “Melô do Marinheiro” é outro momento inédito na trajetória da banda. Com vocais de João Barone e Bi Ribeiro, é uma canção que insere versos de “Marinheiro Só” e conta a história de um marinheiro maroto que viaja o mundo descascando batatas no porão do navio, numa coisa meio anti-herói, meio casual, meio pré-Globalização. A faixa fez um sucesso impressionante, mostrando um lado lúdico já familiar no cardápio dos Paralamas, mas que chegava com uma roupagem totalmente diferente. A faixa-título também é impressionante. Com riff de guitarra que tangencia “What Is Life”, dos ingleses do Black Uhuru, e um groove pesadíssimo, a letra vai desfilando realidades que se encontram na cidade, entre polícia e negros, criticando omissão do estado, racismo, violência, burrice e intolerância. Retrato de seu tempo, “Selvagem?” a canção, fala até da proibição na época da exibição de “Je Vous Salue Marie”, filme de Jean-Luc Godard. Já em “Você”, os Paralamas se tornavam a primeira banda brasileira a reconhecer o valor de Tim Maia, numa cover reggae à la lovers rock, com muita delicadeza e bom gosto. Nos shows, a banda misturava com outra lindeza do repertório de Tim, “Gostava Tanto de Você”, mostrando que havia conseguido ultrapassar uma barreira estética importantíssima.

 

As canções que tocaram menos no rádio se tornaram preferidas dos fãs. “Teerã”, por exemplo, tem uma ótima linha de baixo, mostrando que Bi Ribeiro havia, de fato, se tornado na eminência parda do trio. A letra era pura crônica social associativa, na qual Herbert usa imagens de violência publicadas no jornal diariamente, descrevendo uma situação de miséria existencial que poderia ser da capital do Irã, então em guerra com o Iraque, ou das periferias brasileiras. “A Dama e o Vagabundo” é mais uma da histórias de amor herbertianas daquele tempo, dessa vez com um casal unido pela absoluta capacidade de improvisar papeis diante das necessidades do dia. Ou algo assim. Mas até no romance, tão caro aos Paralamas, havia, dessa vez, uma visão mais arejada e, digamos, igualitária, que contrastava bastante com seus contemporâneos. “There’s A Party”, é um reggae-ska rapidinho, com letra em inglês, meio que exorcizando o desejo “britreggae” da banda naquele tempo. Funciona, sobretudo a vivo. E tem “O Homem”, ou reggae pesadão, com ótimo baixo-bateria, letra existencial/humanista, criticando as dualidades, contradições e a dinâmica de oscilação entre o que pode ser belo e terrível. Como marca conceitual do momento, os Paralamas inseriram dois dubs no disco. “Marujo Dub” e “Teerã Dub”. O primeiro meio que complementa “Melô do Marinheiro”, dando uma coda instrumental cheia de efeitos e graves, que casa muito bem. E o segundo soa mais como uma versão instrumental cheia de ecos, graves e distorções da própria “Teerã”.

 

“Selvagem?” não só marcou seu tempo, como abriu um caminho estético para os Paralamas. Seu sucessor, “Bora-Bora”, lançado em 1988, ampliaria a viagem da banda por destino afro-caribenhos, com ênfase nas influências baianas, sem deixar o reggae se perder. E “Big-Bang”, lançado dois anos depois, seria como uma estação de destino. Todos emplacaram hits inquestionáveis no rádio, mantendo os Paralamas como uma banda de primeira prateleira do rock brasileiro. Essa trilogia, que podemos até chamar de diaspórica hoje em dia, é tão revolucionária quanto a trilogia “Re”, de Gilberto Gil, lançada entre 1975 e 1979. São trabalhos inovadores, ousados, sensacionais. Mas, se eu tivesse que escolher um, seria “Selvagem?”. E ponto final.

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *